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A morte de Dolly Parton, aos 80 anos, reacendeu a comparação entre dois modelos de transformar o mundo: o gesto espetacular que promete atalhos e a reforma lenta que testa, corrige e presta contas. O Brasil já sentiu esse contraste na pele.

Na terça-feira 25 de agosto, o mundo perdeu Dolly Parton, aos 80 anos, depois de uma breve luta contra um câncer não detalhado por sua equipe.1 Em poucas horas, uma frase voltou a circular nas redes: em um mundo de Elon Musks, seja como Dolly Parton. O colunista Jaime Rubio Hancock retomou essa comparação no jornal espanhol El País, contrastando o estilo do bilionário sul-africano-americano com a trajetória filantrópica da cantora, incluindo sua Imagination Library, biblioteca infantil fundada em 1995 que já distribuiu mais de 250 milhões de livros gratuitos a crianças nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Irlanda.2 O texto merece ser lido na íntegra e é a inspiração direta desta coluna.1

A comparação que virou memória afetiva

A piada tem gancho fácil: Parton construiu uma carreira de sete décadas sem jamais se afastar de causas como direitos das mulheres, da comunidade LGBTQ+ e de trabalhadores, enquanto Musk usou parte de sua fortuna para se aproximar do segundo governo Trump, liderando entre janeiro e maio de 2025 o chamado Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), responsável pelo desmonte acelerado da agência federal de ajuda humanitária USAID.3 A comparação é simplista, como reconhece o próprio autor do texto original, mas expõe algo real: existem dois temperamentos possíveis diante de um mundo com problemas grandes demais para uma pessoa só resolver, e as consequências de escolher um ou outro não são simétricas.

O custo humano do "mover rápido e quebrar coisas"

Os números por trás do desmonte da USAID já não são hipotéticos. Um estudo coordenado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), publicado na revista The Lancet, calculou que os programas da agência ajudaram a evitar cerca de 91 milhões de mortes entre 2001 e 2021 em países de renda baixa e média, sobretudo por HIV/aids, malária e doenças tropicais negligenciadas.4 A mesma equipe projetou, em versão atualizada divulgada no início de 2026, que a manutenção dos cortes atuais pode custar 14,1 milhões de vidas adicionais até 2030, das quais 4,5 milhões seriam de crianças menores de cinco anos, caso o desfinanciamento avance no ritmo anunciado por autoridades americanas.5 O Departamento de Estado dos Estados Unidos contesta a metodologia do estudo, classificando a publicação como pouco confiável, mas até pesquisadores independentes ligados a centros como o Center for Global Development reconhecem que a direção do efeito, se não o número exato, dificilmente está errada.5

A urgência de resolver tudo de uma vez costuma ser o disfarce mais elegante para não medir o que se está destruindo.

Esse é o padrão que preocupa quando o poder de decisão sobre sistemas complexos, saúde pública, infraestrutura digital, mercado financeiro, se concentra em figuras que tratam a velocidade como virtude em si mesma. Não se trata de negar que a burocracia estatal erre e que ajuda internacional tenha problemas reais de eficiência. Trata-se de notar que desmontar em semanas o que levou décadas para ser construído, sem plano de transição, sem redes de segurança substitutas, tende a produzir dano concentrado nos mais vulneráveis muito antes de qualquer ganho de eficiência aparecer.

O capítulo brasileiro: X, Moraes e a Starlink

O Brasil não é espectador dessa discussão, é personagem dela. Entre 30 de agosto e 8 de outubro de 2024, a rede social X, de propriedade de Musk, ficou bloqueada em todo o território nacional por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, depois que a empresa deixou de indicar representante legal no país e de cumprir decisões judiciais sobre remoção de contas ligadas aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.6 Na disputa, o STF chegou a determinar o bloqueio de ativos financeiros da Starlink, outra empresa de Musk, até que as multas contra o X fossem quitadas, o equivalente a 5,2 milhões de dólares.6 A plataforma só voltou ao ar depois de nomear representante e cumprir as ordens pendentes. Em março de 2026, o próprio STF encerrou o inquérito que investigava Musk por obstrução de Justiça, por falta de provas suficientes para sustentar a acusação original.7 O episódio não define quem estava certo em cada detalhe jurídico, mas ilustra o mesmo temperamento: a aposta na confrontação pública e na desobediência como estratégia, em vez do ajuste institucional lento e do diálogo com autoridades locais.

Popper contra a engenharia utópica

Há mais de setenta anos, o filósofo austríaco Karl Popper já havia nomeado esse dilema em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, escrito no exílio na Nova Zelândia durante a Segunda Guerra Mundial. Popper distinguia a engenharia social utópica, que busca reconstruir toda a sociedade a partir de um plano final supostamente perfeito, da engenharia social gradual, que ataca um problema urgente de cada vez, testa a solução, mede o resultado e corrige o rumo.8 Para ele, projetos totais carregam uma armadilha lógica: como nenhum planejador consegue prever todas as consequências de uma mudança em larga escala, e como os sucessores raramente mantêm o mesmo ideal do fundador original, o sofrimento imposto em nome do projeto perfeito muitas vezes não é compensado por nada.9 A crítica de Popper não era contra a ambição de mudar o mundo, mas contra a certeza messiânica de que existe uma única solução total e de que os custos de chegar até ela são um detalhe menor diante do objetivo final.

Contraponto

Nem todo mundo concorda que o gradualismo seja sempre a resposta certa. Defensores do chamado solucionismo tecnológico argumentam que problemas como mudança climática, defasagem em inteligência artificial ou colapso de infraestrutura pública não esperam o ritmo das reformas incrementais, e que a história da própria Vale do Silício mostra rupturas rápidas, computador pessoal, internet comercial, vacinas de mRNA, que só existem porque alguém decidiu agir antes de ter certeza total. O lema "mover rápido e quebrar coisas", cunhado por Mark Zuckerberg na década de 2010 e depois abandonado até pelo próprio Facebook, nasceu justamente da ideia de que esperar consenso é, em certos contextos, mais custoso do que errar rápido e corrigir depois. A pergunta que fica em aberto não é se a velocidade tem valor, mas quem paga a conta quando a aposta dá errado e quem teve voz antes da decisão ser tomada.

É nesse ponto que a comparação entre Musk e Parton, apesar de parecer piada de rede social, aponta para algo editorialmente relevante: o tipo de poder que qualquer sociedade decide premiar. Prestígio, capital e atenção pública tanto podem recompensar quem rompe regras em nome de uma visão pessoal de eficiência quanto quem constrói, devagar e sem manchete, uma biblioteca infantil que atravessa três décadas sem escândalo. Nenhuma das duas trajetórias resolve sozinha os problemas do mundo. Mas apenas uma delas, historicamente, deixou um rastro de consequências mensuráveis em vidas perdidas quando a pressa saiu errada.

Perguntas frequentes

Por que Dolly Parton e Elon Musk viraram símbolos opostos nas redes sociais?

Porque representam dois modelos de influência: Parton construiu sua reputação com décadas de filantropia discreta e consistente, como a Imagination Library, enquanto Musk se tornou associado a decisões rápidas e disruptivas, incluindo o desmonte acelerado da agência USAID em 2025.

Quantas mortes o corte de verbas da USAID pode causar?

Um estudo do ISGlobal publicado na revista The Lancet projeta até 14,1 milhões de mortes adicionais até 2030 caso os cortes atuais se mantenham, incluindo 4,5 milhões de crianças menores de cinco anos, embora o governo americano conteste a metodologia do estudo.

Qual foi o conflito entre Elon Musk e a Justiça brasileira?

Entre agosto e outubro de 2024, o Supremo Tribunal Federal bloqueou o X no Brasil e congelou ativos da Starlink depois que a empresa de Musk não indicou representante legal no país nem cumpriu ordens judiciais sobre remoção de contas. O inquérito contra Musk foi encerrado por falta de provas em março de 2026.

O que Karl Popper defendia sobre reforma social?

Em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Popper defendia a engenharia social gradual, que resolve um problema urgente de cada vez e corrige erros ao longo do caminho, como alternativa mais segura à engenharia social utópica, que tenta reconstruir toda a sociedade a partir de um plano único e definitivo.

Nota editorial: Este texto foi inspirado pelo artigo de opinião "No seas un Elon Musk, sé una Dolly Parton", de Jaime Rubio Hancock, publicado no jornal espanhol El País em 27 de agosto de 2026. A coluna original não é reproduzida nem traduzida integralmente; recomendamos a leitura completa em elpais.com.

Referências

  1. Rubio Hancock, J. "No seas un Elon Musk, sé una Dolly Parton". El País, 27 ago. 2026. Disponível em: elpais.com/opinion/2026-08-27/no-seas-un-elon-musk-se-una-dolly-parton.html
  2. NPR. "Dolly Parton, one of country music's most singular performers, has died at age 80". 25 ago. 2026. Disponível em: npr.org/2026/08/25/nx-s1-3650175/dolly-parton-obituary
  3. Wikipédia. "Blocking of Twitter in Brazil" e cobertura factual sobre o papel de Musk no DOGE e no desmonte da USAID em 2025. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Blocking_of_Twitter_in_Brazil
  4. ISGlobal. "Study Projects Over 14 Million Preventable Deaths by 2030 if USAID Defunding Continues". Disponível em: isglobal.org
  5. CNN. "One year on from dismantling of USAID, study projects that global aid cuts could lead to 9.4 million deaths by 2030". 4 fev. 2026. Disponível em: cnn.com/2026/02/04/world/lancet-usaid-global-aid-cuts-intl
  6. Wikipédia. "Blocking of X in Brazil". Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Blocking_of_X_in_Brazil
  7. Wikipédia. "Controversies between Elon Musk and Alexandre de Moraes". Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Controversies_between_Elon_Musk_and_Alexandre_de_Moraes
  8. Wikipédia. "The Open Society and Its Enemies". Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/The_Open_Society_and_Its_Enemies
  9. Champion, R. Comentário sobre o capítulo 9 de The Open Society and Its Enemies (utopismo x engenharia gradual). Disponível em: the-rathouse.com
Ewerton Lopes — Curador Editorial