Responder ao e-mail durante a reunião, checar o celular enquanto assiste à série, abrir uma nova aba enquanto o relatório ainda está pela metade. Essas cenas viraram rotina em qualquer escritório ou sala de estar brasileira, e por muito tempo foram lidas como sinal de eficiência. Um levantamento recente do jornal americano The Washington Post reúne pesquisadores de neurociência e comportamento organizacional para descrever um fenômeno que eles chamam de multitarefa tóxica: um padrão de alternância constante entre tarefas, especialmente mediado por telas, que se torna compulsivo e compromete o funcionamento do cérebro e do sistema nervoso.1
O mito da produtividade paralela
Para Sandi Chapman, diretora do Center for BrainHealth e professora de psicologia na Universidade do Texas em Dallas, a multitarefa tóxica é "a ilusão da produtividade". Segundo ela, o hábito costuma ser interpretado como prova de alta capacidade de trabalho, quando na prática funciona como um gargalo de desempenho: o cérebro humano simplesmente não foi desenhado para conduzir duas atividades complexas ao mesmo tempo.1
Ashish Kothari, fundador da consultoria de engajamento corporativo Happiness Squad, observa que a agenda dupla e tripla de compromissos se tornou norma em ambientes corporativos, criando uma sensação de movimento que nem sempre corresponde a entrega real.1 A percepção não é exclusiva do mercado americano: reportagens recentes na imprensa brasileira descrevem o mesmo padrão, associando a rotina de "fazer tudo ao mesmo tempo" a mais tempo gasto para entregar menos, e não o contrário.2
O que a neurociência mostra sobre trocar de tarefa
O que chamamos de multitarefa quase nunca é processamento simultâneo. É alternância rápida de atenção, o chamado task switching. Cada troca exige que o córtex pré-frontal, região responsável pelo controle executivo, se reengaje do zero na nova tarefa, o que consome recursos cognitivos e reduz a capacidade de concentração nas horas seguintes.3
Um experimento clássico da Universidade Stanford, conduzido ainda na década de 2000, comparou pessoas que se descreviam como "multitarefas crônicas" com pessoas que preferiam cuidar de uma atividade por vez. O resultado foi consistente: o primeiro grupo teve desempenho pior em testes de atenção, memória de trabalho e filtragem de distrações irrelevantes, mesmo quando avaliado justamente na tarefa em que dizia ser bom, alternar entre estímulos.7 Estimativas posteriores, com base nesse tipo de estudo, sugerem que apenas cerca de 2% da população consegue conduzir duas tarefas complexas em paralelo sem perda relevante de desempenho, e que a taxa de erro pode subir em até 20% quando o trabalho é feito de forma alternada em vez de sequencial.2
Chapman resume o efeito com uma comparação simples: tentar ler dois livros ao mesmo tempo não dobra a quantidade de informação absorvida, apenas faz a pessoa perder o fio da meada em ambos.1
Nem toda simultaneidade é igual
A neurocientista Kay Linker faz uma distinção importante entre a multitarefa que funciona e a que desgasta. Quando uma atividade se torna automática, ela passa a ser processada em outra região cerebral, o que permite algum grau real de paralelismo, como ouvir um podcast enquanto caminha ou conversar ao telefone durante um trajeto conhecido. Já a alternância deliberada entre tarefas que exigem atenção plena, como responder mensagens durante uma reunião de trabalho, é o que Linker chama de task switching, o tipo que de fato drena controle e foco.1 A multitarefa digital, sobretudo o uso simultâneo de mais de um dispositivo de entretenimento, tem efeito negativo especialmente forte sobre a atenção, e paradoxalmente reduz a capacidade de lidar com múltiplos estímulos no futuro.1
Os efeitos: de erros a esgotamento emocional
As consequências descritas pelos pesquisadores vão além da perda de produtividade. Incluem fadiga mental persistente, dificuldade de raciocínio conhecida popularmente como brain fog, aumento de estresse e irritabilidade, e uma redução na capacidade de conexão genuína com outras pessoas, com efeito de insatisfação tanto no trabalho quanto na vida pessoal.1 Chapman associa o primeiro sinal de alerta a uma reação emocional desproporcional: quando uma pergunta simples de um colega gera irritação imediata, é sinal de que o cérebro já está sobrecarregado por distrações constantes.1
No Brasil, esse quadro tem paralelo em dados oficiais sobre afastamento do trabalho. A Organização Mundial da Saúde passou a classificar o burnout como fenômeno ocupacional na undécima revisão da Classificação Internacional de Doenças, adotada oficialmente no país em janeiro de 2025, e levantamentos ligados à Previdência Social relatam aumento expressivo de afastamentos por transtornos mentais no período seguinte.6
O caso brasileiro: um dos países mais conectados do mundo
O pano de fundo brasileiro reforça o problema. Um estudo global de cibersegurança realizado em abril de 2026 estimou que o brasileiro médio acumula 116 horas de conexão por semana, com início da rotina digital por volta das 7h e encerramento perto das 21h. Redes sociais, streaming de vídeo e música dividem boa parte desse tempo, e a mesma pesquisa identificou que 35% dos entrevistados afirmam checar redes sociais enquanto assistem a filmes ou séries, o retrato mais direto de multitarefa digital simultânea captado no levantamento.5
Esse volume de uso ajuda a explicar por que o debate sobre atenção fragmentada, tratado nos Estados Unidos como questão de saúde ocupacional, chega ao Brasil como pauta igualmente urgente, ainda que a cobertura local sobre o tema esteja concentrada principalmente em blogs de saúde e veículos de comportamento, e não em políticas públicas específicas de bem-estar digital.
Contraponto
Nem todos os pesquisadores tratam a multitarefa como um vício homogêneo. Parte da literatura sobre "media multitasking" aponta que os estudos são majoritariamente correlacionais, e não experimentais: pessoas que já têm dificuldade de concentração podem simplesmente buscar mais estímulos simultâneos, sem que isso prove que a multitarefa causou o problema. Há também uma crítica estrutural a essa discussão: em muitas funções, a alternância entre tarefas não é escolha individual, mas exigência do modelo de trabalho, com metas, notificações e reuniões sobrepostas definidas pela organização, não pelo trabalhador. Tratar o fenômeno apenas como questão de disciplina pessoal corre o risco de deslocar para o indivíduo um problema que também é de desenho organizacional.
Como reduzir o hábito
As recomendações reunidas pelo Washington Post junto a especialistas em comportamento e neurociência incluem práticas de meditação e atenção plena, sessões de trabalho dedicadas a uma única tarefa por período contínuo de uma hora ou mais, desenho deliberado do ambiente de trabalho para reduzir notificações, pausas reais que envolvam afastar-se completamente das telas, e o uso de ferramentas físicas que bloqueiam o acesso ao smartphone por tempo determinado.1 Chapman resume o ponto central: reverter o padrão exige uma escolha deliberada de passar do modo multitarefa para o modo de tarefa única, mudança que, segundo relatos coletados pela reportagem, já produz ganhos perceptíveis de foco e energia mental em pouco tempo.1
Perguntas frequentes
O que é multitarefa tóxica?
É o hábito de alternar constantemente entre tarefas, sobretudo mediado por telas, de forma compulsiva e prejudicial ao funcionamento do cérebro e do sistema nervoso, em oposição a formas ocasionais e não prejudiciais de fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Multitarefa realmente reduz a produtividade?
Sim. Estudos de neurociência mostram que alternar tarefas complexas gera custo cognitivo a cada troca, reduz memória de curto prazo e pode aumentar a taxa de erros em até 20% em comparação com a execução sequencial das mesmas tarefas.
Existe multitarefa que não faz mal?
Sim. Atividades automáticas, como caminhar ouvindo um podcast, são processadas em uma região cerebral diferente e permitem paralelismo real. O problema está em alternar entre tarefas que exigem atenção plena e deliberada ao mesmo tempo.
Como saber se a multitarefa virou um problema?
Sinais de alerta incluem irritação desproporcional diante de pequenas interrupções, dificuldade de concentração sustentada, checagem do celular dezenas de vezes ao dia e sensação de esgotamento mental ao final da jornada.
O Brasil tem dados sobre esse comportamento?
Pesquisas de 2026 indicam que o brasileiro médio passa cerca de 116 horas por semana conectado, e cerca de um terço dos entrevistados afirma checar redes sociais enquanto assiste a filmes ou séries, um retrato direto de multitarefa digital simultânea.