Política · Oriente Médio

  • O fato: um míssil houthi atingiu um terminal do Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riade, no sábado (10), matando 13 pessoas, segundo o The Telegraph[1].
  • A dúvida em Washington: Trump sinalizou retaliação, mas os estoques americanos de mísseis foram drenados pela guerra contra o Irã[9].
  • O que está em jogo: a rota do Mar Vermelho, que substituiu o Estreito de Ormuz no escoamento do petróleo saudita[10][11].
  • No Brasil: o efeito chega pelo diesel, elo mais sensível da cadeia de combustíveis[13].

A poeira ainda cobria o saguão do Aeroporto Internacional Rei Khalid quando ficou claro que a guerra entre a Arábia Saudita e os houthis do Iêmen havia mudado de patamar. Um míssil de longo alcance atingiu diretamente um terminal de passageiros na capital saudita no sábado, 10 de outubro. Segundo reportagem de James Rothwell para o The Telegraph, 13 pessoas morreram, no ataque mais letal desse tipo desde março de 2015, quando a coalizão liderada por Riade entrou no conflito[1].

A coalizão classificou o episódio como crime de guerra, e o presidente Donald Trump sugeriu que pode ordenar ataques contra o território controlado pelos rebeldes[1]. A pergunta que circula em Washington, porém, é menos se Trump quer abrir mais uma frente no Oriente Médio e mais se os Estados Unidos ainda têm meios para sustentá-la.

Uma semana de ataques contra a capital saudita

O ataque de sábado não foi um episódio isolado. A ofensiva terrestre e aérea lançada pela Arábia Saudita e por forças iemenitas aliadas no início de outubro buscava retomar o trecho do litoral do Mar Vermelho que os houthis haviam conquistado um mês antes, incluindo posições próximas ao Estreito de Bab el-Mandeb, conforme relato da Associated Press reproduzido por O Liberal[3]. A resposta rebelde foi levar a guerra ao coração do reino.

Na quarta-feira (7), o governo saudita confirmou três mortos e 33 feridos em ataques a aeroportos de Riade e Abha, as primeiras mortes reconhecidas nessa fase do conflito, segundo o Correio da Manhã[4]. Na quinta (8), novos disparos atingiram instalações do aeroporto e uma aeronave da estatal Saudia, matando outros três cidadãos sauditas, entre eles um piloto, de acordo com a Associated Press. Centenas de voos foram cancelados e companhias como Lufthansa e Air India suspenderam rotas para Riade[3]. A Reuters registrou que os rebeldes reivindicaram ataques ao mesmo alvo repetidas vezes ao longo da semana[2].

O momento não é casual. Riade sediava neste domingo (11) o WPC Energy Congress, encontro que reúne ministros do petróleo e executivos do setor energético, como lembrou a Sky News[15]. Atingir o principal aeroporto do país às vésperas desse evento é uma mensagem dirigida tanto ao governo saudita quanto aos mercados.

De "terroristas de chinelo" a um arsenal que preocupa

Durante anos, adversários dos houthis os trataram com desdém, a ponto de apelidá-los de terroristas de chinelo. Como observa o Telegraph, esse subestimar se repetiu várias vezes, enquanto o grupo ampliava sua capacidade militar desde que entrou na guerra entre Israel e o Hamas, em 2023, com ataques a navios comerciais[1].

O símbolo dessa transformação é o Palestine-2, míssil que os rebeldes apresentam como hipersônico, capaz de atingir 16 vezes a velocidade do som. Não se sabe se ele foi usado em Riade. Mas especialistas ouvidos pelo jornal britânico avaliam que o projétil era claramente sofisticado[1]. Danny Citrinowicz, pesquisador do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel e ex-comandante da inteligência militar israelense, levantou a hipótese de que o Irã tenha compartilhado com os houthis lições aprendidas nas guerras recentes contra EUA e Israel, possivelmente alterando o míssil para dificultar a interceptação[1].

Aqui cabe cautela. Desde 2024, quando o Palestine-2 foi apresentado, analistas questionam a etiqueta de hipersônico. O Atlantic Council recomendou tratar as alegações com ceticismo, embora alertando que isso não torna a ameaça desprezível[7]. O Alma Research Center identifica no projétil traços da família iraniana Kheibar Shekan e Fattah[8]. Em outras palavras: o míssil talvez não seja o que a propaganda houthi diz, mas é bem mais do que os velhos Scud de origem norte-coreana que o grupo usava.

A Arábia Saudita não explicou por que suas defesas falharam. Para os analistas, a questão pode estar menos na qualidade do escudo saudita e mais na sofisticação do que está sendo disparado contra ele[1].

A pergunta não é se Trump quer, mas se pode

A hesitação americana tem raízes concretas. Em setembro, quando os houthis atingiram Riade pela primeira vez na atual escalada, Trump já havia recusado pedidos sauditas de intervenção direta, segundo a Reuters[16]. O jornal emiradense The National registrou à época que Washington mantinha um canal incomum de diálogo com os rebeldes e que qualquer ataque poderia ter consequências muito além do Iêmen[5].

O primeiro obstáculo é material. Em agosto, a Reuters revelou, com base em três fontes, que o Exército americano havia consumido praticamente todos os seus mísseis de precisão de longo alcance, ATACMS e PrSM, durante a guerra contra o Irã, como reproduziu a Fox[9]. Segundo o Telegraph, o próprio Trump admitiu na semana passada que os estoques de mísseis e baterias antiaéreas estão em queda[1].

O segundo é a exposição das tropas. Um ataque de grande porte pode levar os houthis a mirar forças americanas na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos, e defendê-las exige justamente as baterias antiaéreas que escassearam[1].

"Se você entra, talvez não saiba como sair."

DANNY CITRINOWICZ, INSS, AO THE TELEGRAPH

O terceiro é político. A decisão de atacar o Irã no fim de fevereiro desencadeou o fechamento do Estreito de Ormuz e uma alta da energia que ainda corrói a aprovação do presidente às vésperas das eleições de meio de mandato de novembro[1]. Citrinowicz avalia que, se houver intervenção, ela tende a ser mais simbólica do que decisiva, e que parte de Washington prefere negociar com os houthis a entrar numa guerra aberta[1].

O que está em jogo: a rota que substituiu Ormuz

Para entender por que Riade e os mercados reagem com tanta tensão, é preciso olhar o mapa. Com Ormuz bloqueado pelo Irã, a Arábia Saudita passou a bombear petróleo pelo oleoduto Leste-Oeste, conhecido como Petroline, que cruza cerca de 1.200 km do Golfo até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Em março, o duto já operava em sua capacidade máxima de 7 milhões de barris por dia, segundo a Fortune, com dados da Bloomberg[11].

O problema é que a saída para a Ásia passa pelo Bab el-Mandeb, colado ao litoral iemenita. Dados da Kpler citados pela Foundation for Defense of Democracies mostram que o fluxo por esse estreito saltou de cerca de 4,2 milhões de barris diários em 2025 para 7,4 milhões em junho deste ano[10]. Em julho, os houthis declararam bloqueio naval a embarcações ligadas à Arábia Saudita. Depois, tomaram o porto de Mocha e avançaram rumo às ilhas Hanish, segundo o Gulf News, que descreve o risco de as duas principais alternativas a Ormuz ficarem sob pressão ao mesmo tempo[12].

É nesse contexto que Bridget Toomey, especialista em houthis da FDD, sustenta ao Telegraph que, em certo sentido, os EUA já estão em guerra com o grupo: para ela, o Iêmen não é um conflito separado, mas peça da estratégia regional do Irã[1].

O reflexo no Brasil

Para o leitor brasileiro, o Iêmen pode parecer distante. O diesel, não. Em meados de setembro, com o Brent de volta acima de US$ 100 por barril, editorial reproduzido pelo BrasilAgro apontava o diesel como o elo mais sensível da cadeia nacional, com a defasagem da Petrobras em relação ao produto importado superando R$ 3 por litro em algumas medições e medidas de contenção custando cerca de R$ 7 bilhões por mês[13].

O impacto também é desigual pelo território. Como observou a comentarista Juliana Rosa no Jornal da Noite, da Band, Sul e parte do Sudeste se beneficiam mais das refinarias da Petrobras, enquanto Norte e Nordeste dependem mais de refinarias privadas, que acompanham de perto as cotações internacionais[14]. Uma nova escalada no Mar Vermelho, portanto, tende a pesar primeiro sobre frete, alimentos e transporte nas regiões que já pagam mais caro.

Há ainda a dimensão política doméstica. Em pleno ciclo eleitoral, a tensão entre a política de preços da Petrobras, o uso de recursos públicos para segurar reajustes e a inflação de combustíveis volta ao centro do debate. A decisão de Trump sobre o Iêmen, tomada em Washington, terá reflexos em planilhas de transportadoras em Goiás e no Maranhão.

Contraponto

A favor de uma resposta firme. Analistas como Bridget Toomey argumentam que tratar os houthis como problema local foi justamente o que permitiu ao grupo crescer. Na visão da FDD, apoiar Riade agora evitaria que o equilíbrio de forças pendesse para os rebeldes e seus patronos em Teerã[17]. O ataque a um terminal civil reforça o argumento de que a contenção já não basta.

Ceticismo sobre a "superarma". Atribuir a falha da defesa saudita apenas à sofisticação do míssil pode superestimar os houthis. Disparos repetidos contra o mesmo alvo podem buscar a saturação das defesas, e a eficácia real do Palestine-2 nunca foi verificada de forma independente[7][8].

O outro lado da guerra. Os houthis apresentam seus ataques como retaliação aos bombardeios sauditas no Iêmen, que o grupo afirmou somarem cerca de 300 em uma única semana de setembro, número não confirmado por Riade. O Iêmen segue como uma das piores crises humanitárias do mundo, e a ofensiva em curso tende a agravá-la.

O que observar nos próximos dias

Três sinais vão indicar a direção do conflito. O primeiro é se Washington passará de declarações a ataques efetivos, e com que escala. O segundo é o comportamento do fluxo de petroleiros entre Yanbu e o Bab el-Mandeb, termômetro mais direto do risco para o mercado. O terceiro é a reação de Teerã, que tem interesse em pressionar sem ser arrastado de volta a uma guerra aberta. Para o Brasil, o indicador a acompanhar é a curva do Brent e, logo atrás, o preço do diesel nas bombas.

Perguntas frequentes

O que aconteceu no aeroporto de Riade em outubro de 2026?

Entre 5 e 10 de outubro, os houthis reivindicaram sucessivos ataques com mísseis balísticos contra o Aeroporto Internacional Rei Khalid. Segundo o The Telegraph, o de sábado (10) atingiu um terminal e matou 13 pessoas, o mais letal do tipo desde 2015[1].

Por que Trump hesita em atacar os houthis?

Por três razões: estoques de mísseis e defesa antiaérea consumidos na guerra contra o Irã, risco de retaliação contra bases americanas na Jordânia e nos Emirados, e o custo político da alta da energia antes das eleições de novembro[1][9].

Os houthis têm mesmo um míssil hipersônico?

O grupo afirma que o Palestine-2 atinge Mach 16. Analistas tratam a alegação com ceticismo e veem um balístico avançado com provável tecnologia iraniana, não uma arma hipersônica plenamente manobrável[7][8].

Por que o Bab el-Mandeb importa tanto agora?

Com Ormuz fechado, o petróleo saudita sai por Yanbu, no Mar Vermelho. Para chegar à Ásia, precisa atravessar o Bab el-Mandeb, onde os houthis ampliaram presença[10][12].

Como isso afeta o Brasil?

Pelo preço do petróleo e, principalmente, do diesel, com efeitos sobre frete, alimentos, inflação e contas públicas, mais intensos no Norte e no Nordeste[13][14].

Nota de atribuição. Este texto foi produzido pelo O Tecido a partir de apuração própria em múltiplas fontes. Dados, avaliações e declarações de especialistas atribuídos ao The Telegraph têm origem na reportagem "The Houthi missiles that will make Trump think twice", de James Rothwell, publicada em 12 de outubro de 2026, disponível em telegraph.co.uk. O conteúdo original não foi traduzido nem reproduzido integralmente.