Quando um chefe de Estado decide, na mesma semana, anunciar sanções contra empresas estrangeiras, erguer uma nova base militar e declarar que um país europeu está em "decadência", vale a pena perguntar o que esse chefe de Estado está tentando esconder. Foi o que fez o presidente argentino Javier Milei na noite de quinta-feira, ao afirmar, em pronunciamento televisionado, que a Argentina "vai prevalecer" sobre um Reino Unido que ele descreveu como uma nação em crise migratória, demográfica e econômica. Milei anunciou uma lei para punir empresas que perfuram petróleo nas águas em torno das Ilhas Malvinas (Falklands, para os britânicos) e disse que a Argentina construirá uma nova base militar na Terra do Fogo, reforçando sua aliança estratégica com Washington.
O gatilho imediato foi Donald Trump. Em entrevista à emissora britânica GB News nesta semana, o presidente americano sugeriu que os Estados Unidos poderiam não vir em socorro do Reino Unido caso as Malvinas fossem novamente invadidas, e questionou se Londres teria hoje capacidade militar para defender o arquipélago. "O seu país não estava lá para me ajudar", disse Trump, numa referência à guerra contra o Irã, segundo reportagem do jornal britânico The Telegraph. Milei classificou a declaração como algo "muito significativo" para o que chama de causa "sagrada" da Argentina.
A disputa e o campo de petróleo em jogo
No centro da escalada está o campo petrolífero Sea Lion, a cerca de 220 km ao norte das Malvinas, controlado pela britânica Rockhopper Exploration e pela israelense Navitas. Segundo a reportagem do Telegraph, o campo guarda reservas estimadas em 1,7 bilhão de barris, volume superior a qualquer outro já identificado em águas britânicas, com produção projetada para começar em 2028 e durar mais de três décadas. A Argentina já classifica as duas companhias como operadoras "clandestinas" em território que reivindica como seu, e Milei prometeu agora "todas as ferramentas econômicas e diplomáticas" para dissuadir o que chamou de atores estatais e não estatais envolvidos na exploração.
"É a política externa como cortina de fumaça: quanto maior a bravata contra um adversário externo, menor costuma ser o espaço para falar dos problemas em casa."
O que a retórica tenta disfarçar
A leitura mais óbvia do discurso de Milei é a geopolítica: um alinhamento cada vez mais próximo com Trump, somado à disposição americana de reavaliar sua posição histórica sobre as Malvinas. Mas há uma leitura doméstica que os números ajudam a sustentar. O governo Milei atravessou em 2026 seus piores momentos de popularidade desde a posse, em dezembro de 2023. Pesquisas da consultoria Zuban Córdoba, divulgadas em março, mostraram 58,7% de reprovação contra 35,4% de aprovação, após o governo aprovar uma reforma trabalhista que ampliou a jornada para até 12 horas. Em abril, um levantamento da AtlasIntel chegou a registrar 63% de desaprovação. Uma recuperação parcial veio em maio, quando a AtlasIntel mediu aprovação próxima de 40%, ainda perto das mínimas do mandato, sustentada por queda na inflação e por um pacote de ajuda financeira anunciado pelos Estados Unidos, incluindo uma linha de swap cambial de US$ 20 bilhões.
O quadro é de instabilidade, não de consolidação. Depois de vencer as eleições legislativas de outubro de 2025, o governo viu a aprovação cair novamente meses depois, em meio a escândalos de corrupção que atingiram o núcleo do discurso "anticasta" que elegeu Milei. Um levantamento da consultoria Zeta, citado pela imprensa argentina, mostrou que quase 67% da população já considera rompida a promessa de combate à corrupção. É nesse cenário, de recuperação econômica ainda desigual e de erosão da narrativa fundadora do governo, que a reivindicação das Malvinas volta ao centro do discurso presidencial com uma intensidade que o próprio Milei evitava até recentemente, preferindo, segundo analistas, combinar diplomacia com aproximação da população das ilhas.
Trump e o mesmo manual
O padrão não é exclusivo de Buenos Aires. Trump também enfrenta o pior momento de aprovação de seu atual mandato. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada no início de setembro mediu apenas 33% de aprovação, empatando com a pior marca já registrada pelo republicano, de dezembro de 2017, com 63% de desaprovação. Levantamentos de outros institutos, como Pew e Civiqs, também colocam Trump na casa dos 35% a 39% ao longo do verão americano. A guerra contra o Irã, que já passa de seis meses, tem aprovação de apenas 36% entre os americanos, e o custo de vida é reprovado por 71% da população, incluindo parte do eleitorado republicano. Faltando dois meses para as eleições de meio de mandato, a pressão sobre o Partido Republicano é crescente.
Reabrir uma frente externa, ou reagir com firmeza a uma frente aberta por um aliado, é um recurso clássico de política doméstica em momentos de desgaste interno. Ao sinalizar dúvidas sobre a defesa britânica das Malvinas, Trump desloca o debate para fora de seu próprio quintal, o mesmo quintal onde a guerra no Irã, a inflação e o desemprego corroem sua base. Para Milei, ecoar e amplificar esse gesto cumpre função semelhante: desloca o noticiário argentino da reforma trabalhista, da inflação persistente e dos escândalos de corrupção para uma causa que, no imaginário nacional argentino, tem apelo transversal.
O padrão que já apareceu com o Brasil
Este não é um caso isolado de Milei alinhar retórica e agenda aos interesses de Washington às custas de vizinhos regionais. Em agosto, o presidente argentino intensificou publicamente os ataques ao brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, chamando-o de "ladrão" e "corrupto" em entrevista à emissora LN+, e voltou a repostar em suas redes sociais conteúdos ofensivos contra o presidente brasileiro, incluindo mensagens de contas bolsonaristas e de um deputado republicano americano. O episódio levou o governo brasileiro a rebaixar a representação diplomática em Buenos Aires e a retirar por tempo indeterminado seu embaixador. Assim como no caso das Malvinas, a escalada verbal seguiu de perto o alinhamento de Milei com a ala mais à direita da política americana, incluindo apoio explícito à candidatura de Flávio Bolsonaro nas eleições brasileiras deste ano.
O paralelo entre os dois episódios é direto: uma frente externa, seja contra o Reino Unido, seja contra o Brasil, funciona como palco onde Milei pode reforçar sua imagem de líder duro e alinhado a Trump, num momento em que sua popularidade interna segue instável e as promessas de recuperação econômica ainda não chegaram a boa parte da população argentina.
Contraponto
Nem todos os analistas leem o episódio apenas como manobra de distração. Para parte da diplomacia argentina, a mudança de tom de Trump sobre as Malvinas é um fato novo e concreto, resultado de anos de aproximação estratégica entre Buenos Aires e Washington, incluindo cooperação militar e energética. Nessa leitura, Milei estaria reagindo a uma janela de oportunidade real, criada pela própria política externa americana, e não apenas fabricando uma crise para desviar a atenção doméstica. Os moradores das ilhas, por sua vez, seguem sendo o argumento central do lado britânico: em referendo realizado em março de 2013, 99,8% dos votantes das Malvinas escolheram permanecer como território ultramarino do Reino Unido, um dado que o governo de Londres volta a citar cada vez que a soberania é contestada.
A resposta britânica
O governo britânico reagiu classificando sua posição como "inabalável". O porta-voz do primeiro-ministro Andy Burnham afirmou que os habitantes das Malvinas são britânicos e têm direito à autodeterminação, reiterando o compromisso de Londres com o território. O chanceler Ed Miliband seguiu a mesma linha, afirmando que as ilhas "são britânicas e assim permanecerão, porque essa é a posição esmagadora dos habitantes". A líder da oposição conservadora, Kemi Badenoch, aproveitou o momento para associar o episódio ao acordo do governo trabalhista para transferir a soberania das Ilhas Chagos a Maurício, argumento que classificou como um sinal de fraqueza que "encoraja outros países a tentar a sorte".
O endurecimento de um discurso antes cauteloso
Até pouco tempo, Milei evitava a retórica mais agressiva sobre as Malvinas, preferindo combinar a reivindicação de soberania com gestos de aproximação à população das ilhas, uma estratégia distinta do "malvinismo" tradicional usado por lideranças argentinas de esquerda e de direita para mobilizar sentimento nacionalista. O tom mais duro do pronunciamento de quinta-feira também chega em meio a pressão interna: Milei enfrenta a ascensão de Victoria Villarruel, sua vice-presidente hoje afastada, filha de um capitão que combateu na guerra de 1982, e potencial rival nas eleições do próximo ano justamente pela ala mais dura do malvinismo dentro do próprio espectro político argentino.
Perguntas frequentes
Por que Milei anunciou sanções contra empresas de petróleo nas Malvinas?
Milei anunciou uma nova lei para punir companhias que exploram petróleo nas águas ao redor das Ilhas Malvinas, alvo principal é o campo Sea Lion, operado pela britânica Rockhopper Exploration e pela israelense Navitas, que a Argentina considera exploração ilegal de um território que reivindica como seu.
O que Trump disse sobre a disputa das Malvinas?
Trump sugeriu, em entrevista à GB News, que os Estados Unidos poderiam não ajudar o Reino Unido a defender as Malvinas em caso de novo conflito, e questionou a capacidade militar britânica atual de proteger o arquipélago.
Qual é a popularidade de Milei na Argentina em 2026?
A aprovação de Milei oscilou fortemente ao longo de 2026, caindo a cerca de 35% em pesquisas de março e abril, após reformas trabalhistas impopulares e escândalos de corrupção, com recuperação parcial para perto de 40% em maio, ainda perto das mínimas do mandato.
Qual é a popularidade de Trump nos Estados Unidos atualmente?
No início de setembro de 2026, pesquisa Reuters/Ipsos mediu 33% de aprovação para Trump, igualando a pior marca de sua trajetória política, enquanto outros institutos registram números entre 35% e 41%.
O que aconteceu entre Milei e Lula em agosto de 2026?
Milei chamou Lula de "ladrão" e "corrupto" em entrevista e repostou conteúdos ofensivos contra o presidente brasileiro, o que levou o Brasil a rebaixar a representação diplomática em Buenos Aires e retirar seu embaixador.
Os habitantes das Malvinas já se manifestaram sobre a soberania do território?
Sim. Em referendo realizado em março de 2013, 99,8% dos votantes das ilhas escolheram permanecer como território ultramarino britânico.