Tecnologia · Série IA no Canadá · Parte 1

Mila Ventures: o Quebec testa a fórmula para transformar cientista de IA em fundador

Programa de Montreal já formou cerca de 300 pesquisadores e apoiou mais de 70 startups de inteligência artificial.

Uma descoberta em laboratório raramente se transforma sozinha em empresa. Em Montreal, a Mila Ventures nasceu para preencher exatamente essa lacuna: o espaço entre a publicação científica e o produto que chega ao mercado. Criada em 2025 dentro do Mila, o Instituto Québécois de Inteligência Artificial, a iniciativa aposta em algo que parece simples, mas raramente é ensinado nas universidades: convencer um cientista de que ele pode virar fundador de empresa1.

O gargalo entre a bancada e o mercado

Segundo Stéphane Marceau, diretor-geral de Ventures IA no Mila, o ingrediente mais raro nesse processo não é tecnologia nem dinheiro. É convicção. Ele relata que, até pouco tempo atrás, pesquisadores reagiam a convites para empreender dizendo que se interessavam pelo tema, mas que eram cientistas, não empresários1.

O argumento de Marceau é que o Canadá concentra hoje cerca de 10% dos cientistas mais bem avaliados do mundo na área de inteligência artificial, mas capta uma fatia muito menor de capital de risco e de startups em relação a esse potencial de pesquisa1. Na prática, o país produz conhecimento de ponta em ritmo mais rápido do que consegue transformá-lo em empresas locais, e parte desse talento acaba migrando para os Estados Unidos em busca de financiamento.

"Você conecta alguém que já construiu e vendeu uma empresa de IA com uma pesquisadora e seu orientador, referências em robótica, e aí um mais um vira cem." Stéphane Marceau, diretor-geral de Ventures IA no Mila, sobre o que chama de "alquimia" dos pareamentos entre fundadores

Cinco programas, um objetivo comum

A estrutura da Mila Ventures é dividida em cinco programas, que vão da formação inicial de cientistas curiosos sobre empreendedorismo até o acompanhamento de startups já constituídas. Em pouco mais de um ano de operação, a organização formou aproximadamente 300 cientistas empreendedores e apoiou mais de 70 startups, das quais cerca de um terço já havia captado capital de risco antes de entrar no programa1. Um estúdio interno chega a participar da constituição de empresas desde o primeiro dia, oferecendo suporte jurídico em propriedade intelectual, mentoria e conexões com a indústria.

Dois casos ilustram o modelo. A Cognate Labs nasceu de uma pesquisa sobre como decodificar o sistema imunológico com inteligência artificial, conduzida por Assya Trofimov, hoje diretora de tecnologia da empresa. Ela conta que a decisão de formalizar o negócio veio depois de perceber que havia demanda de mercado por algo que ainda não existia como empresa1. Já a Rise Automation surgiu do encontro entre Craig Buntin, que tinha um contrato para instalar robôs em uma fábrica mas não tinha nem os robôs nem um cofundador, e Charlie Gauthier, doutoranda em robótica no Mila. A dupla passou a desenvolver robôs voltados à construção civil fora do canteiro de obras1.

O ecossistema também ganhou musculatura financeira: o Mila e a gestora Inovia Capital criaram o Fundo Venture Scientist, com meta de capitalização de US$ 100 milhões voltado especificamente a startups derivadas de pesquisa científica1.

Contraponto

O modelo de Montreal é sustentado por um instituto de pesquisa com forte apoio público e filantrópico, o que facilita oferecer mentoria e capital semente sem que o cientista assuma risco financeiro pessoal logo de início. Esse desenho ainda não teve tempo de provar se gera empresas capazes de escalar de forma independente do ecossistema que as originou, nem se resiste a ciclos de juros altos ou de retração do capital de risco global.

Há também um ponto que o próprio Marceau reconhece como desafio permanente: mesmo com o programa, alguns pesquisadores continuam recebendo financiamento condicionado a constituir a empresa nos Estados Unidos, o que mostra que formação e mentoria, sozinhas, não neutralizam a atração de mercados com bolsões de capital muito maiores.

O paralelo brasileiro: o mesmo gargalo, outra escala

O dilema descrito em Montreal não é exclusivo do Canadá. O Brasil vive uma versão própria da mesma tensão entre pesquisa e mercado, mas em outra escala e sob outras condições macroeconômicas. Segundo a Brasscom, o país deve receber R$ 736,6 bilhões em investimentos ligados a inteligência artificial entre 2026 e 2029, com crescimento médio anual de 20%, dentro de uma projeção setorial de tecnologia que soma R$ 2 trilhões no período2.

No lado público, o BNDES já havia aprovado R$ 4,7 bilhões para projetos de IA até fevereiro de 2026, sob o guarda-chuva do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, e em abril do mesmo ano o banco abriu, em parceria com a Finep, um edital para selecionar o gestor de um fundo dedicado a startups de IA3. É um movimento que lembra, em espírito, o Fundo Venture Scientist criado em Montreal: capital paciente tentando preencher a lacuna entre pesquisa e empresa antes que o talento procure financiamento em outro lugar.

O ecossistema também cresce em volume. O Observatório Sebrae Startups registrou 22.869 startups ativas no país em 2025, alta de 26,7% sobre o ano anterior, com projeção de superar 25 mil empresas até dezembro de 2026, e o Brasil hoje concentra o maior volume de capital de risco da América Latina4. No cenário global, a inteligência artificial já responde por 43% de todo o capital de risco investido no primeiro semestre de 2026, o equivalente a US$ 217 bilhões5.

A diferença central em relação ao Quebec está no custo do capital. Com a taxa Selic em 14,25% ao ano, fundadores brasileiros de IA competem por atenção de investidores em um ambiente de juros historicamente altos, o que empurra o mercado para soluções aplicadas a gargalos setoriais específicos, como agronegócio, crédito e saúde, em vez de apostas em modelos de linguagem de propósito geral. É uma lógica parecida com a que orienta o próprio Mila: não construir tecnologia genérica, mas resolver um problema concreto de um setor.

Sobre a fonte principal: Este artigo usa como ponto de partida a reportagem "Mila Ventures, le pont entre le laboratoire et l'entreprise", assinada por Mark Suciu e publicada pelo jornal canadense La Presse. O texto original não é reproduzido nem traduzido na íntegra; os trechos citados aqui foram parafraseados e complementados com apuração e dados independentes sobre o cenário brasileiro. Leia a reportagem completa no link disponível na seção de Referências.

Perguntas frequentes

O que é a Mila Ventures?

É o braço de empreendedorismo do Mila, o Instituto Québécois de Inteligência Artificial, criado em 2025 para ajudar cientistas a transformar pesquisas em empresas, com programas de formação, mentoria e um estúdio de criação de startups.

Quantas startups já passaram pelo programa?

Mais de 70 startups participaram dos programas principais em cerca de um ano, e a organização já formou aproximadamente 300 cientistas empreendedores.

O que é o Fundo Venture Scientist?

Um fundo criado pelo Mila em parceria com a gestora Inovia Capital, com meta de capitalização de US$ 100 milhões, voltado a startups originadas de pesquisa científica.

O Brasil tem uma iniciativa parecida?

Não há um programa idêntico, mas o BNDES e a Finep abriram em 2026 um edital para um fundo dedicado a startups de IA, dentro do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com lógica semelhante de capital direcionado à origem científica dos negócios.

Por que o Canadá tem dificuldade em reter suas startups de IA?

Segundo o Mila, parte do talento formado no país aceita financiamento de investidores americanos sob a condição de constituir a empresa nos Estados Unidos, onde o volume de capital de risco disponível é muito maior.