A Microsoft divulga percentuais de crescimento, mas esconde os números absolutos do Azure. Uma análise do Wall Street Journal expõe lacunas na forma como a empresa reporta sua nuvem, seus investimentos em infraestrutura de IA e sua relação bilionária com a OpenAI.
Quando uma empresa cresce à custa de bilhões de dólares em investimento, o mercado espera saber, em números concretos, para onde esse dinheiro está indo e o que ele está gerando de retorno. É essa expectativa que a Microsoft frustra, segundo um levantamento do jornalista Jonathan Weil publicado no Wall Street Journal em 26 de agosto de 2026. O texto argumenta que a companhia está entre as gigantes de tecnologia com menor transparência financeira justamente no momento em que sua estratégia de inteligência artificial mais exige clareza dos investidores.
O Azure que não aparece nos balanços
O problema central está no relatório anual mais recente da Microsoft, referente ao ano fiscal encerrado em 30 de junho de 2026. Nele, a empresa informou que a receita de "Azure e outros serviços de nuvem" cresceu 41%, sem revelar o valor em dólares, nem o número do ano anterior, nem dados de despesas ou lucro específicos do Azure. Em julho, durante teleconferência de resultados, o CEO Satya Nadella declarou que a receita anual do Azure havia ultrapassado US$ 100 bilhões, um dado pontual que, como observa o WSJ, não substitui um número auditado e reportado de forma consistente.
Isso acontece porque o Azure fica diluído dentro de "Intelligent Cloud", um segmento contábil amplo que também reúne produtos legados como Windows Server, SQL Server e serviços corporativos. Nos resultados do quarto trimestre fiscal de 2026, esse segmento somou US$ 39,31 bilhões em receita, alta de 31,6% na comparação anual, com o Azure isoladamente acelerando para 43% de crescimento, segundo dados compilados pela Exame. Poucos meses antes, no segundo trimestre fiscal, o mesmo segmento havia registrado US$ 32,9 bilhões, alta de 29%, com lucro operacional de US$ 13,9 bilhões, conforme apurou a Investing.com. Em nenhum desses casos a Microsoft isola o resultado específico do Azure.
Representação esquemática do nível de detalhamento contábil, não das receitas reais. Elaborado por O Tecido com base em dados do Wall Street Journal e demonstrações financeiras públicas.
A comparação com a concorrência incomoda justamente por contraste. A Amazon reporta a AWS como segmento independente, com receita, custos e margem publicados a cada trimestre. No segundo trimestre de 2026, por exemplo, a AWS informou receita de US$ 42,2 bilhões (alta de 36,7%) e lucro operacional de US$ 16,6 bilhões, com margem de 39%, segundo a Investing.com. A Microsoft, cuja Azure é a segunda maior nuvem do mundo, mantém esses números encobertos, mesmo divulgando com riqueza de detalhes segmentos bem menores, como Xbox (cerca de US$ 22 bilhões em receita) e LinkedIn (cerca de US$ 20 bilhões).
Capex que não fecha a conta
O artigo também identifica uma inconsistência nos gastos de capital. No fluxo de caixa do último ano fiscal, a Microsoft registrou US$ 115,9 bilhões em aquisições de imóveis e equipamentos, número usado para calcular o fluxo de caixa livre. Mas em um comunicado paralelo, a empresa reportou capex de US$ 145,3 bilhões, incluindo ativos adquiridos por meio de arrendamentos financeiros (finance leases). O problema, aponta Weil, é que somar os valores de leasing divulgados ao capex do fluxo de caixa não bate com o total de US$ 145,3 bilhões, e a Microsoft não oferece nenhuma reconciliação entre as duas cifras.
O tamanho desses investimentos ajuda a explicar por que a questão foi ganhando peso. Segundo projeções citadas pelo Motley Fool, o capex da Microsoft para o ano fiscal de 2026 pode chegar a algo perto de US$ 190 bilhões, dos quais cerca de US$ 25 bilhões seriam atribuíveis apenas ao encarecimento de componentes, com destaque para a escassez global de chips de memória. Já no segundo trimestre fiscal de 2026, o capex trimestral somou US$ 37,5 bilhões, alta de 66% ano a ano, com cerca de dois terços direcionados a ativos de vida curta, como GPUs e CPUs, segundo a Investing.com.
Defensores da prática de segmentação atual argumentam que a Microsoft não está sozinha ao agrupar negócios de nuvem com produtos correlatos, e que as normas contábeis internacionais (IFRS 8, equivalente ao CPC 22 no Brasil) dão certa margem de discricionariedade às empresas para definir como o "principal tomador de decisões operacionais" avalia o negócio internamente. Também se argumenta que divulgar margens detalhadas do Azure poderia oferecer vantagem competitiva a rivais como Google Cloud e Amazon, que enfrentam disputa acirrada por contratos de infraestrutura de IA.
Do outro lado, críticos como Weil lembram que a própria Microsoft já demonstrou possuir esses números internamente: um relatório interno vazado em processo judicial do governo americano, em 2022, estimava a receita do Azure em US$ 55 bilhões naquele ano fiscal, dos quais US$ 34 bilhões vinham de infraestrutura. Ou seja, a informação existe e é monitorada pela administração, o que fragiliza o argumento de que ela simplesmente não pode ser isolada.
A relação bilionária com a OpenAI
O terceiro ponto levantado pela reportagem envolve a OpenAI. A Microsoft detém uma participação relevante na criadora do ChatGPT, hoje próxima de 27% após a reestruturação societária concluída em outubro de 2025, que avaliou a fatia da Microsoft em cerca de US$ 135 bilhões, segundo a Forbes Brasil. Esse investimento, contabilizado pelo método de equivalência patrimonial, torna a OpenAI uma parte relacionada da Microsoft, o que exige, pelas normas contábeis americanas, divulgações que permitam ao investidor entender os efeitos dessas transações sobre os resultados da companhia.
Segundo o WSJ, a Microsoft só passou a incluir esse tipo de divulgação em seu relatório anual mais recente, e de forma ainda limitada. A empresa informou ter registrado US$ 24,1 bilhões em receita vinda da OpenAI no último ano, incluindo pagamentos de compartilhamento de receita, além de US$ 6 bilhões em contas a receber, mas sem apresentar números do ano anterior nem dados de lucratividade dessa relação. Reportagem do site Hardware.com.br acrescenta que cerca de 25% das obrigações de desempenho remanescentes (RPO) comerciais da Microsoft ligadas a esses contratos devem virar receita reconhecida nos doze meses seguintes, um indício da magnitude e da complexidade contratual envolvida.
A relação, aliás, está mudando. Em abril de 2026, Microsoft e OpenAI anunciaram novos termos que encerraram a exclusividade da Microsoft sobre os modelos e produtos da OpenAI, dando à startup mais liberdade para usar outros provedores de nuvem, embora a Microsoft continue com direitos não exclusivos sobre a propriedade intelectual da parceira. A OpenAI, por sua vez, avalia um IPO que pode ocorrer já em 2026 ou 2027, avaliando a empresa em patamares que chegaram a ser estimados em até US$ 1 trilhão, conforme reportagem do Coindesk Brasil baseada na Reuters. Um eventual pedido de registro para abertura de capital tende a obrigar a OpenAI a revelar informações financeiras que hoje ficam soterradas nos relatórios da Microsoft, o que poderia, de forma indireta, lançar luz também sobre o próprio desempenho do Azure.
Por que isso importa para o investidor
A crítica de Weil não é apenas técnica. Ela toca no princípio de que quem decide como reportar segmentos deveria refletir como a própria administração enxerga o negócio internamente. Nadella, como principal executivo da companhia, evidentemente trata a infraestrutura de IA como algo distinto da venda de licenças de software legado ao tomar decisões de capital. Ainda assim, os dois seguem contabilizados juntos nos relatórios públicos, o que dilui as margens, os custos e a intensidade de capital específicos da corrida por IA dentro de um negócio de software historicamente mais rentável.
Para o investidor comum, o efeito prático é a dificuldade de avaliar se os bilhões investidos em data centers estão, de fato, gerando o retorno que o mercado precifica nas ações da Microsoft. Sem o Azure isolado, sem uma reconciliação clara do capex e sem detalhamento suficiente da relação com a OpenAI, resta a analistas e acionistas trabalhar com estimativas e declarações pontuais em teleconferências, não com demonstrações financeiras auditadas.
Perguntas frequentes
Por que a Microsoft não divulga a receita do Azure separadamente?
A Microsoft reporta o Azure dentro do segmento contábil "Intelligent Cloud", que também inclui produtos legados como Windows Server e SQL Server. Isso significa que apenas variações percentuais de crescimento são informadas publicamente, sem valores absolutos de receita, custo ou lucro exclusivos do Azure.
Como o Azure se compara à AWS em termos de transparência?
A Amazon reporta a AWS como um segmento independente, com receita, custo e margem operacional publicados a cada trimestre. A Microsoft não faz o mesmo com o Azure, mesmo ele sendo a segunda maior plataforma de nuvem do mundo, atrás apenas da própria AWS.
O que motivou as críticas sobre o capex da Microsoft?
Existe uma diferença entre o valor de gastos de capital apresentado no fluxo de caixa (US$ 115,9 bilhões) e o valor divulgado em comunicado à imprensa (US$ 145,3 bilhões), que inclui ativos de arrendamento financeiro. A soma dos dois números divulgados separadamente não bate com o total apresentado, e a empresa não oferece uma reconciliação clara entre eles.
Por que a relação com a OpenAI é relevante para os balanços da Microsoft?
A Microsoft detém cerca de 27% da OpenAI e é contabilizada como parte relacionada. Regras contábeis exigem divulgações que permitam ao investidor entender os efeitos financeiros dessa relação, mas a Microsoft só começou a fazer isso de forma mais explícita em seu relatório anual mais recente, ainda com informações limitadas.
Um IPO da OpenAI poderia forçar mais transparência da Microsoft?
Sim. Como a OpenAI é uma grande cliente do Azure, um eventual registro de abertura de capital exigiria a divulgação de informações financeiras detalhadas da startup, o que poderia revelar, de forma indireta, dados sobre o desempenho real do Azure que hoje ficam encobertos nos relatórios da Microsoft.