Economia · Mercados Emergentes

Depois de mais de uma década em papel secundário nas carteiras globais, os mercados emergentes voltaram ao centro das decisões de alocação. Impulsionados por disciplina fiscal, superávits comerciais robustos e pela corrida global por semicondutores e minerais estratégicos, países como Coreia do Sul, Taiwan e Brasil vêm superando as bolsas desenvolvidas em 2026, mesmo em meio à incerteza política nos Estados Unidos e às dúvidas sobre a rentabilidade dos investimentos bilionários em inteligência artificial.

Um novo ciclo de confiança nos emergentes

O apetite por ativos emergentes reflete uma mudança estrutural, não apenas um movimento tático de curto prazo. Analistas de gestoras como Aberdeen e Pimco apontam que esses países passaram a exibir balanços corporativos mais saudáveis, menor alavancagem e reservas cambiais mais robustas do que em ciclos anteriores, o que tem elevado sua credibilidade como destino de capital de longo prazo. Um dado chama atenção: pela primeira vez, a inflação média das economias emergentes está abaixo da americana, mesmo com juros reais elevados mantidos pelos bancos centrais dessas nações.

No Brasil, esse movimento tem nome e sobrenome: fluxo estrangeiro. Segundo levantamento da XP citado pela CNN Brasil, a entrada líquida de capital externo na B3 somou cerca de R$ 26,3 bilhões só em janeiro de 2026, volume superior a todo o saldo positivo registrado em 2025. O JPMorgan estima que uma simples normalização da alocação global em emergentes, hoje em mínimas históricas, poderia trazer até US$ 25 bilhões adicionais para ativos brasileiros.

Ásia: a aposta nos semicondutores

Na Ásia, o motor é a tecnologia. O setor de semicondutores sofreu forte correção em julho, quando bancos como o Goldman Sachs alertaram que o retorno financeiro dos investimentos bilionários em inteligência artificial pode demorar mais do que o esperado para aparecer nos balanços de gigantes como Alphabet e Microsoft. Ainda assim, gestoras como a Ostrum AM, ligada à Natixis Investment Managers, sustentam que a região consolidou "monopólios globais vitais" na cadeia de valor da IA, com rentabilidade corporativa que praticamente dobrou na última década.

A Coreia do Sul é o símbolo dessa transformação. Impulsionado pela alta dos preços de chips de memória, o país registrou superávit comercial recorde equivalente a 17% do PIB em maio de 2026, ante apenas 1,7% em janeiro de 2025. Empresas como Samsung Electronics, SK Hynix e a taiwanesa TSMC lideram o que a Capital Group chama de "sete emergentes" — o equivalente, nos países em desenvolvimento, às "sete magníficas" americanas, respondendo por 36% do índice MSCI Emerging Markets, ainda assim negociadas a múltiplos mais baixos que suas pares dos EUA.

"A inflação nos mercados emergentes está agora abaixo da inflação americana pela primeira vez na história, mesmo com juros reais elevados sustentados pelos bancos centrais." Pramol Dhawan, diretor de mercados emergentes da Pimco

Brasil: minério, cobre e o novo ciclo de investimentos

Enquanto a Ásia surfa a onda tecnológica, Brasil, Chile e países africanos colhem os frutos da demanda por minerais estratégicos. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) projeta US$ 76,9 bilhões em investimentos no setor mineral brasileiro entre 2026 e 2030, um salto de 12,5% frente à estimativa anterior. Do total, US$ 21,3 bilhões devem ser direcionados a minerais críticos, como cobre, níquel e terras raras, cuja demanda é turbinada pela transição energética e pela própria infraestrutura de data centers de IA.

O minério de ferro segue concentrando a maior fatia dos aportes previstos, com US$ 19,8 bilhões, mas o cobre já responde por US$ 8,6 bilhões, alta de 18% em relação ao ciclo anterior. No mercado acionário, a mineradora de ferro CSN Mineração já acumulava valorização superior a 13% na B3 neste ano, enquanto Vale subiu cerca de 6% e a angloaustraliana Rio Tinto avançou 20%, segundo dados de mercado. Gestoras internacionais como Lombard Odier e Neuberger Berman já incluem o país entre suas apostas preferenciais em renda variável emergente, ao lado de Coreia do Sul, China e Taiwan.

Esse otimismo também aparece nos números domésticos: o Ibovespa renovou recordes históricos ao longo do primeiro trimestre de 2026, sustentado por um fluxo estrangeiro líquido de R$ 53,83 bilhões na B3 no período, o melhor resultado desde 2022, segundo dados compilados por casas de análise. Ainda assim, o índice tem mostrado volatilidade nos meses seguintes, com oscilações ligadas à temporada de resultados corporativos e ao calendário eleitoral brasileiro.

Contraponto

Nem todos os analistas compartilham o otimismo generalizado. Melanie Lange, da Federated Hermes, alerta que boa parte do desempenho positivo de 2026 na Ásia está concentrada em um grupo reduzido de empresas ligadas a IA, memória avançada e semicondutores — o que torna as valorações vulneráveis a qualquer correção nos lucros. Já a Morningstar chama atenção para o volume recorde de emissão de dívida corporativa por gigantes de tecnologia americanas, que pressiona os juros globais e reduz a atratividade relativa dos títulos emergentes. Some-se a isso o risco climático do El Niño, capaz de elevar os preços globais de alimentos e pressionar a inflação justamente nos países emergentes mais vulneráveis, segundo estimativas da Generali Asset Management e da S&P Global Ratings.

Riscos no radar: concentração, dívida e clima

A S&P Global Ratings já sinaliza risco elevado ligado a choques climáticos em economias como China, Índia, Indonésia, Colômbia, Peru, Filipinas, Tailândia e Vietnã, com setores como arroz, geração hidrelétrica, café e óleo de palma entre os mais expostos. No caso brasileiro, o principal ponto de atenção segue sendo doméstico: o desfecho do ciclo eleitoral de 2026 e a trajetória da política fiscal, fatores que analistas do mercado local, como os ouvidos pela XP e pela Eleven Financial, apontam como decisivos para saber se o fluxo estrangeiro recente para a bolsa brasileira tem fôlego para continuar ou se corresponde a um movimento mais tático de curto prazo.

Para investidores brasileiros, a leitura prática é dupla: de um lado, o país surfa um ciclo favorável de commodities e recuperação de confiança fiscal; de outro, a dependência do capital externo torna o mercado local sensível a mudanças bruscas de humor global, especialmente se os juros de longo prazo nos países desenvolvidos voltarem a subir.

Perguntas frequentes

Por que os mercados emergentes estão em alta em 2026?

A combinação de disciplina fiscal mais forte, reservas cambiais robustas, juros reais elevados e exposição a setores estratégicos, como semicondutores na Ásia e minerais críticos na América Latina e África, tem atraído capital global, especialmente diante da incerteza política nos Estados Unidos.

Qual o papel do Brasil nesse movimento?

O Brasil se destaca pela combinação de reservas minerais estratégicas, como minério de ferro, cobre e terras raras, com um ciclo de investimento estimado em US$ 76,9 bilhões até 2030 pelo Ibram, além de um fluxo relevante de capital estrangeiro que vem sustentando recordes do Ibovespa.

Quais são os principais riscos para essa tendência?

Analistas citam a concentração dos ganhos em poucas empresas de tecnologia na Ásia, a pressão sobre os juros globais causada pela emissão recorde de dívida corporativa ligada a data centers de IA, e riscos climáticos como o El Niño, que pode elevar os preços de alimentos e a inflação nos países emergentes.

O rali da bolsa brasileira em 2026 deve continuar?

Depende de fatores internos e externos: o desfecho do ciclo eleitoral brasileiro, a trajetória da política fiscal e monetária, e a manutenção do apetite global por commodities e por diversificação para fora dos ativos americanos.

Este texto foi inspirado na reportagem "Nueva era para los emergentes: estabilidad, potencia tecnológica y respaldo de la minería", publicada pelo jornal espanhol El País (Cinco Días) em 6 de setembro de 2026, assinada por Luis Alberto Peralta. Leia a reportagem original: cincodias.elpais.com. Os dados sobre o Brasil foram apurados de forma independente por O Tecido a partir de fontes nacionais listadas nas referências.

Nesta reportagem

Números-chave

MSCI Emerging Markets em 2026
+21%
S&P 500 em 2026
+13%
Superávit comercial da Coreia do Sul (maio/2026)
17% do PIB
Investimento em mineração no Brasil (2026–2030)
US$ 76,9 bi
Fluxo estrangeiro na B3 (1º tri/2026)
R$ 53,83 bi

Linha do tempo

  • Jan/2026Ibovespa sobe 12,56% no mês, melhor desempenho mensal desde 2020
  • Fev/2026Ibram eleva projeção de investimentos na mineração para US$ 76,9 bi até 2030
  • Mai/2026Superávit comercial da Coreia do Sul atinge recorde de 17% do PIB
  • Jul/2026Correção nas bolsas asiáticas de tecnologia em meio a dúvidas sobre retorno da IA
  • Set/2026MSCI Emerging Markets acumula alta de 21% no ano, superando bolsas desenvolvidas

Glossário

MSCI Emerging Markets
Índice que reúne ações de empresas de países em desenvolvimento, usado como referência global para o desempenho desses mercados.
Minerais críticos
Matérias-primas como cobre, níquel, lítio e terras raras, essenciais para semicondutores, baterias e energia renovável.
Superciclo de commodities
Período prolongado de alta nos preços de matérias-primas, geralmente ligado a mudanças estruturais na demanda global.
Selic
Taxa básica de juros da economia brasileira, definida pelo Banco Central, usada como referência para o custo do crédito no país.

Referências

  1. Peralta, Luis Alberto. Nueva era para los emergentes: estabilidad, potencia tecnológica y respaldo de la minería. El País — Cinco Días, 6 set. 2026. Disponível em: cincodias.elpais.com.
  2. Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Levantamento de investimentos do setor mineral 2026–2030.
  3. CNN Brasil. Ibovespa renova recorde 10 vezes em 2026: até quando dura o otimismo?
  4. InfoMoney. Ibovespa em 2026: o que explica a alta da bolsa.
  5. S&P Global Ratings. Avaliação de risco climático (El Niño) em economias emergentes.