A menos de 100 dias das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, autoridades eleitorais em diferentes estados passaram a tratar de um problema que não constava dos manuais de treinamento até poucos anos atrás: o crescimento vertiginoso dos mercados de previsão, plataformas em que qualquer pessoa pode comprar e vender contratos que apostam no resultado de uma eleição. Em vez de discutir logística de urnas ou cadeia de custódia de votos, funcionários eleitorais de condados americanos agora assinam juramentos declarando que não têm interesse financeiro em apostas sobre o pleito que ajudam a organizar1.
Em Delaware County, na Pensilvânia, o diretor eleitoral Jim Allen relatou à revista Wired que cerca de 2.500 pessoas envolvidas na organização das eleições no condado, entre servidores efetivos e temporários, já assinaram uma declaração afirmando não ter interesse direto ou indireto em apostas ou mercados de previsão ligados ao pleito1. O episódio ilustra um fenômeno mais amplo: plataformas como Kalshi e Polymarket, que negociam contratos sobre resultados eleitorais como se fossem ativos financeiros, se tornaram grandes o suficiente para preocupar quem administra o processo democrático americano.
Quando o mercado erra e ninguém sabe o que ele representa
O caso mais recente e didático aconteceu na primária democrata para governador de Wisconsin, em agosto. Até a véspera da votação, a Kalshi precificava a candidata progressista Francesca Hong com mais de 95% de chance de vitória; a Polymarket chegava a apontar 96%4. Horas depois, com a apuração em andamento, Hong perdeu para o executivo do condado de Milwaukee, David Crowley, por menos de um ponto percentual4. O cofundador e CEO da Kalshi, Tarek Mansour, saiu em defesa da plataforma nas redes sociais, argumentando que uma probabilidade baixa não é uma garantia e que resultados de cauda acontecem, por definição, uma parte das vezes4.
O problema, segundo pesquisadores e autoridades eleitorais, não é apenas o erro estatístico em si (as pesquisas de opinião também erraram feio na mesma corrida), mas a forma como o público interpreta esses números. Um levantamento da organização Partnership for Large Election Jurisdictions mostrou que 75% dos entrevistados não souberam explicar corretamente o que representam as probabilidades exibidas nos mercados de previsão, e 35% chegaram a confundi-las com votos já contados ou projeções oficiais de autoridades eleitorais1.
"O desafio é que muita gente não distingue um mercado que reflete a opinião de quem está apostando do processo eleitoral oficial." Dean Logan, secretário-eleitoral do condado de Los Angeles, à Wired
Ameaças a quem organiza as eleições
Dean Logan, que administra a maior jurisdição eleitoral dos Estados Unidos, relatou em um webinar da Partnership for Large Election Jurisdictions que os mercados de previsão alimentaram parte da volatilidade observada após as eleições de junho em seu condado, incluindo um nível de agressividade contra fiscais e funcionários que não havia sido visto em pleitos anteriores1. A Kalshi respondeu que condena ameaças a autoridades eleitorais "nos termos mais enfáticos", segundo comunicado enviado à Wired, e afirmou não permitir mercados sobre eventuais distúrbios em locais de votação1. A Polymarket fez a mesma afirmação.
A resposta institucional tem se espalhado. Além de Delaware County, o Arizona bloqueou seus servidores públicos de usar informações não divulgadas ao público para apostar em eleições nos mercados de previsão, por ordem do secretário de Estado Adrian Fontes1. Em Maryland, o administrador eleitoral Jared DeMarinis afirmou à Wired que seu escritório estuda exigir uma declaração semelhante à de Delaware County, alertando que a legitimação desses mercados pela cobertura da imprensa, em substituição às pesquisas tradicionais, pode exigir "esforços hercúleos" para reverter danos à confiança no processo eleitoral, caso ocorra manipulação1.
Wisconsin foi além. A comissão eleitoral do estado publicou um comunicado citando uma lei estadual com mais de 175 anos de existência para alertar que eleitores não podem, nem indiretamente, apostar no resultado de uma eleição e depois votar nela, sob pena de perder o direito ao próprio voto8. A Kalshi classificou a medida como inconstitucional8. Segundo um levantamento do Pew Research Center divulgado em junho, 23 estados americanos proíbem totalmente apostas em eleições e outros nove restringem a prática em circunstâncias específicas, somando 32 dos 50 estados com algum tipo de vedação legal, embora a maior parte dessas leis seja anterior ao surgimento dos mercados de previsão modernos8.
Dinheiro, fiscalização e o risco de informação privilegiada
O volume em jogo já é considerável. Uma análise da NBC News identificou mais de 197 milhões de dólares negociados em 1.408 mercados abertos sobre as eleições de meio de mandato nas plataformas Kalshi e Polymarket3. Uma investigação da Bloomberg Businessweek publicada em julho documentou um caso concreto de possível distorção de preços: durante a corrida ao governo da Califórnia, um único usuário da Polymarket apostou 44 mil dólares em contratos favoráveis ao candidato Matt Mahan, o que fez o preço do contrato saltar de valores baixos para 96 centavos (equivalente a 96% de probabilidade implícita) antes de outros operadores corrigirem o desequilíbrio no dia seguinte5.
Há também casos de suspeita de uso de informação privilegiada por parte de integrantes de campanhas políticas. Segundo reportagem da rádio pública americana NPR, a Kalshi afirma já ter bloqueado dezenas de operações de assessores de campanha que tentaram apostar nas próprias corridas eleitorais, embora a reportagem tenha identificado ao menos um caso que escapou do filtro da empresa6. O centro de estudos não partidário Brennan Center for Justice avalia que os mercados de previsão eleitorais têm potencial para alimentar desinformação e tentativas de influenciar resultados durante o ciclo eleitoral de 20266.
No plano federal, a Commodity Futures Trading Commission (CFTC), agência que regula derivativos e hoje também supervisiona os mercados de previsão, informou à Wired que monitora extensivamente os mercados eleitorais em busca de manipulação, fraude ou uso de informação privilegiada, da mesma forma que faz com qualquer outro mercado sob sua alçada1. Mais recentemente, a agência abriu uma apuração interna sobre os chamados "mention markets", contratos que apostam se determinada palavra será dita em um evento público, por avaliar que esse tipo de mercado pode ser mais suscetível a manipulação do que outros7.
Contraponto: o mercado se autocorrige?
Operadores e defensores dos mercados de previsão argumentam que o próprio desenho do sistema desestimula manipulação sustentada. O trader político Caleb Davies afirmou à Wired que tentativas de inflar artificialmente a cotação de um azarão tendem a ser identificadas e revertidas rapidamente por outros operadores em busca de lucro, o que tornaria a manipulação uma estratégia pouco racional do ponto de vista financeiro1. A Kalshi diz operar um sistema de vigilância que bloqueia preventivamente traders proibidos em mercados políticos, incluindo doadores de campanha e familiares de assessores1, e a Polymarket contratou a ex-agente do FBI Shana Bautista para chefiar sua área de investigações.
O presidente da CFTC, Michael Selig, também tem defendido publicamente que as bolsas reguladas de mercados de previsão não são um "faroeste", mas organizações autorreguladas supervisionadas por técnicos experientes da própria comissão, posição que o levou a contestar judicialmente diversas tentativas estaduais de restringir essas plataformas, sob o argumento de que a jurisdição sobre elas é federal e exclusiva da CFTC8.
O caminho brasileiro: fechar a porta
Enquanto nos Estados Unidos o debate gira em torno de como fiscalizar e limitar mercados de previsão que continuam operando, o Brasil optou por um caminho mais restritivo. Em abril, o Conselho Monetário Nacional aprovou a Resolução CMN nº 5.298, que proíbe expressamente a oferta de contratos de mercados de previsão vinculados a eventos não financeiros, incluindo eleições, resultados esportivos, reality shows e outros acontecimentos sem natureza econômica9. Passaram a ser permitidos apenas contratos lastreados em referenciais econômico-financeiros, como inflação, juros ou preços de commodities, sujeitos à supervisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)9.
No caso específico de apostas eleitorais, uma nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda foi além: apontou que o uso de plataformas para oferecer apostas, prêmios ou vantagens vinculadas a candidaturas ou a resultados de pleitos pode configurar ilícito eleitoral, incluindo abuso de poder econômico e captação ilícita de votos, com base na Resolução do TSE nº 23.735/202410. Na prática, o Ministério da Fazenda notificou a Anatel para bloquear o acesso a 28 plataformas de mercados de previsão que operavam de forma irregular no país, medida amparada pela mesma resolução do CMN11. Segundo o governo federal, mais de 50 países já restringiram ou proibiram esse tipo de mercado, entre eles França, Alemanha, Colômbia, Argentina e Itália11.
A diferença de estratégia regulatória entre os dois países ilustra um dilema que tende a se repetir em outras democracias à medida que essas plataformas crescem: tratar mercados de previsão eleitorais como um instrumento financeiro a ser fiscalizado, na linha adotada pelos Estados Unidos, ou como uma modalidade de aposta com potencial de interferência no processo eleitoral, a ser vedada preventivamente, como fez o Brasil.
Perguntas frequentes
O que são mercados de previsão eleitorais?
São plataformas, como Kalshi e Polymarket, em que usuários compram e vendem contratos que pagam um valor fixo caso um resultado eleitoral específico se confirme. O preço do contrato, entre zero e um dólar, é interpretado pelo mercado como a probabilidade implícita daquele resultado ocorrer.
Apostar em eleições nos Estados Unidos é legal?
A situação é fragmentada. Pelo menos 32 dos 50 estados americanos têm leis que restringem ou proíbem apostas em eleições em algum grau, mas a CFTC, reguladora federal, argumenta ter jurisdição exclusiva sobre essas plataformas e já contestou judicialmente tentativas estaduais de bloqueá-las.
Por que autoridades eleitorais estão preocupadas?
Os principais receios são a confusão do público entre probabilidade de mercado e resultado oficial, o risco de manipulação de preços em mercados de baixo volume, o uso de informação privilegiada por parte de assessores de campanha e um aumento de hostilidade contra funcionários eleitorais quando o resultado real diverge do que o mercado apontava.
O Brasil permite mercados de previsão sobre eleições?
Não. Desde maio de 2026, a Resolução CMN nº 5.298 proíbe contratos de mercados de previsão vinculados a eventos não financeiros, incluindo eleições, e o governo federal já determinou o bloqueio de dezenas de plataformas que ofereciam esse tipo de produto a usuários brasileiros.
Os mercados de previsão já erraram resultados eleitorais importantes?
Sim. Um exemplo recente foi a primária democrata para governador de Wisconsin em agosto de 2026, quando Kalshi e Polymarket davam mais de 95% de chance de vitória para a candidata Francesca Hong, que acabou derrotada por menos de um ponto percentual.