Levas inteiras de andorinhas e pardais estão sumindo do céu do Quebec. No Brasil, o mesmo roteiro se repete: 138 espécies de aves ameaçadas e duas já extintas na natureza.
Quem observa o céu com atenção em qualquer cidade brasileira talvez já tenha notado algo estranho: há menos pardais nas fiações, menos andorinhas cortando o entardecer, menos passarinhos disputando as migalhas em praças e calçadas. A sensação não é impressão. Um levantamento publicado em agosto pelo jornal quebequense Le Devoir reuniu dados que confirmam, para várias espécies da América do Norte, um recuo populacional de tirar o fôlego: até 95% de queda em algumas populações de andorinhas no Canadá desde a década de 19701. O fenômeno, mostram relatórios recentes de organizações como a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e a SAVE Brasil, não é uma particularidade canadense. É um padrão que atravessa continentes, e que já bate à porta da avifauna brasileira.
Um padrão que se repete em todo o planeta
A atualização da Lista Vermelha da IUCN, divulgada em outubro de 2025 durante o Congresso Mundial de Conservação em Abu Dhabi, encontrou o pior número já registrado em seis décadas de monitoramento: 61% das espécies de aves do mundo estão em declínio populacional2. As aves tropicais, incluindo as da América Latina, estão entre as mais afetadas, com o avanço do desmatamento e da expansão agrícola apontados como as principais causas de perda de habitat2. Um relatório anterior da aliança BirdLife International já havia colocado o Brasil na segunda posição mundial em número de espécies de aves ameaçadas, atrás apenas da Indonésia, com apenas 6% das espécies do planeta registrando crescimento populacional3.
O retrato brasileiro: 138 espécies sob ameaça
Das 1.816 espécies de aves catalogadas no território brasileiro, 138 estão hoje classificadas como ameaçadas de extinção, e duas (o mutum-do-nordeste e a ararinha-azul) já são consideradas extintas na natureza, sobrevivendo apenas em programas de reprodução em cativeiro4. A Mata Atlântica concentra parte crítica desse quadro: espécies de distribuição restrita, como o bicudinho-do-brejo-paulista, um pequeno habitante de brejos no interior paulista, veem seu único hábitat encolher junto com o avanço urbano e agrícola sobre a região4. Para Alice Reisfeld, diretora de Conservação da SAVE Brasil, a perda de hábitat é hoje a ameaça mais determinante para a avifauna do país4, um diagnóstico que ecoa quase palavra por palavra o que pesquisadores canadenses descrevem para explicar o sumiço das andorinhas em Quebec.
As mesmas causas, dos dois lados do hemisfério
O material canadense detalha um mecanismo que se repete em boa parte do mundo: aves insetívoras, que dependem de populações estáveis de insetos para se alimentar, sofreram no Canadá um declínio médio de 43% desde os anos 1970, atribuído ao uso de pesticidas e a práticas agrícolas agressivas1. Some-se a isso ameaças diretas: colisões com janelas matam, em média, mais de 25 milhões de aves por ano só no Canadá, enquanto a predação por gatos domésticos soltos elimina dezenas de milhões de indivíduos anualmente naquele país1. No Brasil, o vetor dominante tem outro nome, mas o resultado é semelhante: a destruição de brejos, campos e remanescentes florestais para abrir espaço a lavouras, pastagens e expansão urbana, um processo que a própria SAVE Brasil aponta como a causa mais recorrente do desaparecimento de espécies locais4. Estudos sobre encalhes de aves marinhas no litoral sul e sudeste do país também revelam como a pesca, a exploração de petróleo e a degradação costeira afetam espécies que dependem do litoral brasileiro durante períodos reprodutivos5.
Contraponto
Nem tudo é retrocesso. O Brasil avançou em 2026 na criação de novas unidades de conservação, como o Parque Nacional Marinho do Albardão, no litoral do Rio Grande do Sul, hoje a maior área marinha de proteção integral do país6. O governo federal reafirma o compromisso com a chamada Meta 30x30, do Acordo de Kunming-Montreal, que prevê a conservação de 30% dos territórios terrestres, hídricos e marinhos até 20307. Organizações indígenas e extrativistas, que hoje protegem cerca de 80% da biodiversidade nacional em seus territórios, vêm pressionando para que a meta reconheça formalmente esse papel na gestão das áreas conservadas8. Se a curva do declínio ainda é a tendência dominante, ela não é irreversível: espécies protegidas a tempo já mostraram capacidade de recuperação populacional em diferentes partes do mundo.
O que já está em movimento
Os relatórios da SAVE Brasil e da IUCN convergem para um ponto prático: dados sobre aves funcionam como indicador rápido da saúde ambiental, e por isso já são incorporados a relatórios de sustentabilidade corporativa, incluindo diretrizes da Global Reporting Initiative e índices de sustentabilidade empresarial9. Recomendações difundidas por organismos de conservação, tanto no Canadá quanto no Brasil, se repetem: manter gatos domésticos dentro de casa, reduzir colisões de aves com janelas apagando luzes e fechando cortinas em períodos de migração, e sobretudo pressionar por políticas públicas que ampliem a proteção efetiva de remanescentes de vegetação nativa, hoje muito aquém das metas assumidas internacionalmente.
Perguntas frequentes
Quantas espécies de aves estão ameaçadas no Brasil?
Das 1.816 espécies de aves registradas no país, 138 são classificadas como ameaçadas de extinção, e duas (mutum-do-nordeste e ararinha-azul) já estão extintas na natureza, sobrevivendo apenas em cativeiro.
Qual é a principal causa do declínio das aves no Brasil?
A perda e a degradação de hábitat, impulsionadas pela expansão agrícola, pela urbanização e pelo desmatamento, são apontadas pela SAVE Brasil como o fator dominante, especialmente em biomas como a Mata Atlântica.
O declínio das aves no Canadá tem relação com o que acontece no Brasil?
Sim. Ainda que as espécies e os ecossistemas sejam diferentes, ambos os países registram o mesmo mecanismo: destruição de hábitats naturais, queda de populações de insetos e efeitos das mudanças climáticas, resultando em quedas populacionais de até 95% em algumas espécies canadenses e ameaça de extinção para 138 espécies brasileiras.
O que é a Meta 30x30 e o que ela tem a ver com aves?
É o compromisso internacional, firmado por 196 países no âmbito do Acordo de Kunming-Montreal, de conservar 30% dos territórios terrestres, hídricos e marinhos até 2030. Como as aves são indicadores sensíveis da saúde ambiental, o cumprimento dessa meta é considerado central para conter seu declínio.