Durante décadas, a imagem do risco adolescente no Brasil teve cheiro de cigarro escondido, garrafa passando de mão em mão e o primeiro baseado atrás da quadra da escola. Essa imagem envelheceu. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, divulgada em março, registrou entre 2019 e 2024 queda no consumo recente de álcool, no consumo abusivo e na experimentação de drogas ilícitas entre estudantes de 13 a 17 anos1. Seria uma boa notícia sem asterisco, se a mesma pesquisa e outros levantamentos nacionais não mostrassem outra coisa acontecendo em paralelo.
Na mesma edição da PeNSE, 29,6% dos estudantes disseram já ter experimentado cigarro eletrônico1, e três em cada dez relataram sentir tristeza sempre ou na maior parte do tempo3. Fora da sala de aula, o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, da Unifesp, identificou que mais da metade dos adolescentes que apostam corre risco de desenvolver transtorno do jogo4. A pergunta que se impõe é se a juventude brasileira ficou mais saudável ou se apenas mudou o objeto da compulsão.
O que os números dizem, e o que não dizem
A queda no consumo de substâncias precisa ser lida contra a trajetória anterior, e ela não era de declínio. Entre 2012 e 2019, a experimentação de bebida alcoólica entre escolares subiu de 52,9% para 63,2%, puxada sobretudo pelas meninas, que passaram de 55% para 67,4%2. A virada aparece apenas na edição de 2024, a primeira realizada depois da pandemia. O consumo de álcool nos 30 dias anteriores à pesquisa caiu de 28,1% para 20,4%, o consumo abusivo recuou entre meninos e meninas, e a experimentação de drogas ilícitas ficou em 8,3%, com 8,7% na rede pública e 5,7% na privada1.
É uma queda relevante, mas é um único ponto depois de uma década de alta, medido justamente no intervalo em que a covid reorganizou a vida social dos adolescentes, reduziu festas e encontros e ampliou o tempo em casa. Tratar o resultado como tendência consolidada seria um erro de leitura. A próxima edição da pesquisa dirá se o país entrou de fato em um novo patamar ou se registrou um efeito circunstancial.
O cigarro eletrônico contraria de forma mais direta a narrativa da geração abstêmia. Quase três em cada dez estudantes já experimentaram o dispositivo1, embora sua venda seja proibida no país. A nicotina não saiu da adolescência brasileira. Mudou de formato, de sabor e de canal de distribuição.
Da substância ao design
O que une álcool, apostas e o feed infinito não é a substância, mas o mecanismo. A literatura sobre adição descreve há décadas o poder da recompensa variável: quando o prêmio chega em intervalos imprevisíveis, o comportamento se repete com mais insistência do que quando a recompensa é certa. Máquinas caça-níqueis foram desenhadas sobre esse princípio. A atualização da timeline, a notificação que pode ou não trazer uma curtida e a caixa de recompensas paga de um videogame operam pela mesma lógica, e a fronteira entre jogo eletrônico e jogo de azar ficou mais porosa a cada nova mecânica de monetização.
No Brasil, onde as apostas de quota fixa foram regulamentadas nos últimos anos, esse mecanismo ganhou escala industrial. O Lenad III estimou em 10,9 milhões o número de pessoas com 14 anos ou mais que apostam de forma arriscada, 6,8% da população nessa faixa, e em cerca de 1,4 milhão as que têm padrão compatível com transtorno do jogo. Os adolescentes são só 4% dos apostadores identificados, mas 84,1% deles apostam online, e a proporção com risco de desenvolver transtorno chega a 55,4%, contra 37,7% entre adultos4. Um levantamento divulgado neste ano pela Frente Parlamentar Mista de Educação, com 1.912 estudantes, encontrou alunos que fizeram a primeira aposta aos 11 anos e quase metade dos entrevistados do 3º ano do ensino médio com experiência em apostas5. O Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) chegou a identificar canais no YouTube voltados ao público infantil promovendo apostas ilegais4.
A droga exigia um fornecedor, um lugar e uma turma. A aposta e o feed exigem apenas um celular desbloqueado.
Essa diferença muda o problema de natureza. O consumo de substâncias na adolescência sempre foi, em larga medida, social e visível: acontecia em festas, deixava cheiro, alterava o comportamento de forma perceptível para pais e professores. As compulsões digitais são solitárias e silenciosas. Segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, 92% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos usam internet, 28% começaram antes dos 6 anos (em 2016 eram 10%) e, entre 15 e 17 anos, praticamente todos têm perfil em alguma rede social6. O comportamento de risco saiu da rua e entrou no quarto, onde nenhum adulto sente cheiro de nada.
Tristeza em escala
O terceiro elemento do quadro é o sofrimento psíquico. A PeNSE 2024 ouviu 118 mil estudantes em mais de 4 mil escolas e encontrou três em cada dez adolescentes que se dizem tristes sempre ou na maioria das vezes. Uma proporção semelhante relatou já ter tido vontade de se machucar de propósito, 42,9% disseram se sentir irritados ou nervosos por qualquer coisa e 18,5% afirmaram que a vida não vale a pena3. Para 26,1% dos estudantes, ninguém se preocupa com eles na maior parte do tempo; entre as meninas, o número sobe para 33,3%1.
O recorte de gênero atravessa a pesquisa inteira. As meninas lideram os indicadores de sofrimento e também o consumo recente de álcool, com 23,5% contra 17,2% dos meninos1, uma inversão do padrão histórico em que o comportamento de risco era predominantemente masculino. Um dado lateral da TIC Kids Online ilustra para onde parte desse sofrimento está sendo canalizado: 10% das crianças e adolescentes que usam IA generativa já recorreram a ela para conversar sobre emoções ou problemas pessoais6.
A tentação é juntar as três curvas em uma única história: as telas substituíram as drogas e produziram a ansiedade. É uma narrativa elegante. Os dados disponíveis não a sustentam integralmente.
Correlação não é causalidade, e vício não é qualquer excesso
A hipótese de que as redes sociais causaram a piora da saúde mental juvenil tem defensores barulhentos e evidência mais frágil do que parece. Uma análise de grandes bases de dados publicada em 2019 por Amy Orben e Andrew Przybylski encontrou associação estatística entre uso de tecnologia digital e bem-estar adolescente que explicava, no máximo, 0,4% da variação observada7. Em 2024, a psicóloga Candice Odgers argumentou na revista Nature que a literatura não permite afirmar que as redes provocaram uma epidemia de transtornos mentais, e que a causalidade reversa (jovens já em sofrimento usando mais as telas) é uma explicação igualmente plausível para boa parte das correlações8.
Há também uma questão de categoria. Entre os comportamentos citados, apenas o transtorno do jogo (apostas) e o transtorno do jogo eletrônico têm reconhecimento diagnóstico formal, respectivamente no DSM-5 e na CID-119. "Vício em redes sociais" não é diagnóstico clínico. Usar a palavra adição de forma elástica pode patologizar comportamentos comuns e desviar recursos de quem precisa de tratamento. Por fim, a queda no consumo de substâncias entre escolares brasileiros tem explicações próprias, como ações de prevenção, maior supervisão familiar e o efeito da pandemia sobre a sociabilidade. A hipótese da substituição é plausível, mas continua sendo hipótese.
O que isso pede do poder público
A resposta regulatória brasileira acelerou. Em novembro de 2024, o STF referendou decisão que suspendeu em todo o país a publicidade de apostas dirigida a crianças e adolescentes10. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o chamado ECA Digital, sancionado em setembro de 2025, entrou em vigor em março deste ano com exigência de verificação de idade confiável e vinculação de contas de menores de 16 anos a responsáveis5. Em julho, o Ministério da Fazenda passou a classificar como abusiva qualquer publicidade de apostas voltada a menores de 18 anos e restringiu anúncios em ambientes frequentados predominantemente por esse público4.
O ponto frágil está na medição. O país tem peças valiosas: a PeNSE acompanha substâncias e saúde mental nas escolas, a TIC Kids Online mede o uso de internet, e o Lenad dimensiona apostas na população a partir dos 14 anos. Mas elas medem coisas diferentes, em amostras diferentes e com periodicidades diferentes. Não há, até aqui, uma série nacional que acompanhe no mesmo grupo de estudantes o consumo de substâncias, as apostas e o uso problemático de telas com escalas padronizadas. Sem isso, não é possível verificar se as curvas de fato se cruzam nos mesmos adolescentes, e o debate continuará oscilando entre anedota e alarme.
O segundo ponto é a rede de cuidado. Grupos de apoio a jogadores relatam a chegada de adolescentes de 14 anos acompanhados por psiquiatras5. A porta de entrada natural no SUS seriam os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenis (CAPSi), estruturados historicamente em torno de transtornos mentais graves e dependência química. Adaptar protocolos, formar equipes para reconhecer o transtorno do jogo em adolescentes e articular escola, família e saúde é trabalho que a regulação de publicidade, sozinha, não resolve.
A pergunta que importa
Discutir se a geração atual é mais ou menos saudável que a dos anos 1980 rende boas manchetes e pouca política pública. A diferença estrutural é outra. As drogas ilícitas eram combatidas pelo Estado contra mercados clandestinos. As compulsões que crescem hoje são distribuídas por empresas legais, com orçamento publicitário, métricas de engajamento e incentivos econômicos alinhados à permanência do usuário. Isso desloca o foco da prevenção: do comportamento individual do adolescente para o desenho dos produtos que ele usa. A boa notícia sobre o álcool e as drogas é real. Ela não autoriza ninguém a declarar vitória antes de olhar para o que ocupou o espaço vazio.
Perguntas frequentes
Os adolescentes brasileiros estão usando menos álcool e drogas?
Segundo a PeNSE 2024, do IBGE, sim. O consumo de álcool nos últimos 30 dias caiu de 28,1% em 2019 para 20,4% em 2024, e a experimentação de drogas ilícitas ficou em 8,3%. A queda é recente e sucede uma década de alta, enquanto a experimentação de cigarro eletrônico chegou a 29,6%.
Uso excessivo de redes sociais é considerado vício?
Não como diagnóstico formal. Os manuais clínicos reconhecem o transtorno do jogo (apostas), no DSM-5, e o transtorno do jogo eletrônico, na CID-11. O uso problemático de redes sociais é medido em pesquisas por escalas de comportamento, mas não é uma doença catalogada.
Menores de 18 anos podem apostar em bets no Brasil?
Não. A lei proíbe apostas por menores, o STF suspendeu a publicidade de apostas dirigida a crianças e adolescentes em 2024, e o ECA Digital, em vigor desde março de 2026, exige verificação de idade confiável. Ainda assim, pesquisas mostram adolescentes apostando, em sua maioria por plataformas online.
As redes sociais causam ansiedade e depressão em adolescentes?
A evidência mostra associação, mas não comprova causalidade de forma consistente. Pesquisadores como Candice Odgers, Amy Orben e Andrew Przybylski apontam efeitos pequenos nas grandes bases de dados e a possibilidade de causalidade reversa, em que jovens já em sofrimento passam a usar mais as telas.
Onde buscar ajuda para um adolescente em sofrimento ou com problemas com apostas?
O CVV atende gratuitamente pelo 188, a qualquer hora. A rede pública conta com Unidades Básicas de Saúde e Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenis (CAPSi). Para problemas com jogo, grupos como Jogadores Anônimos oferecem apoio a partir da adolescência.
Se você ou alguém próximo precisa conversar
CVV (Centro de Valorização da Vida): ligação gratuita para o 188, 24 horas, ou chat em cvv.org.br. SUS: Unidades Básicas de Saúde e CAPSi acolhem adolescentes em sofrimento psíquico. Emergência: SAMU 192. Jogo e apostas: grupos de Jogadores Anônimos e serviços especializados em saúde mental.
Este artigo tomou como ponto de partida a divulgação da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2024 pelo IBGE1. A análise, o cruzamento com outros levantamentos nacionais e as conclusões são de responsabilidade de O Tecido.