Caderno Política · Liberdade de imprensa · Eleições 2026
- O site independente Tapajós de Fato, de Santarém (PA), decidiu não cobrir as eleições de 2026 depois de anos de ameaças que seguem sem autoria identificada.
- É o segundo recuo seguido: em 2024, a redação já havia suspendido a cobertura das eleições municipais.
- A Coalizão em Defesa do Jornalismo contou 4.400 ataques online a jornalistas e veículos entre 30 de agosto e 12 de setembro, alta de 67% sobre a quinzena anterior.
- O Brasil subiu para a 52ª posição no ranking da Repórteres Sem Fronteiras, mas ainda ocupa o 81º lugar no indicador de segurança.
- Na Região Norte, 193 dos 450 municípios não têm nenhum veículo jornalístico local.
Santarém, no oeste do Pará, chega à reta final da campanha com uma ausência que não aparece em nenhuma pesquisa de intenção de voto. O Tapajós de Fato, site independente que desde 2020 cobre conflitos fundiários, contaminação por agrotóxicos e violações de direitos indígenas na bacia do rio que lhe dá nome, decidiu não acompanhar as eleições deste ano. A razão foi exposta sem rodeios por um de seus fundadores, Marcos Wesley Pedroso, ao The Guardian: a equipe teme pela própria vida e pela segurança das famílias.1
A decisão foi revelada primeiro por uma rede de veículos independentes amazônicos, em reportagem de Daniel Camargos para InfoAmazonia, Agência Pública e Repórter Brasil. Segundo esse levantamento, a redação passou parte do ano definindo pautas e buscando financiamento para a cobertura eleitoral, mas abandonou o projeto antes da primeira reportagem.2 O site continua no ar e segue publicando sobre meio ambiente. A política eleitoral, porém, saiu da pauta, num momento em que o país se prepara para o primeiro turno de 4 de outubro, que define presidente, governadores, deputados federais e estaduais e dois terços do Senado.
Uma sequência de intimidações sem autoria
O histórico relatado pela equipe descreve uma escalada. As intimidações ganharam força em 2021, quando o site investigou a venda ilegal de terras no projeto de assentamento Lago Grande, e depois passaram a incluir ameaças de morte por telefone e por mensagem, conforme registrou o Portal dos Jornalistas.3
Durante a eleição presidencial de 2022, os pneus da caminhonete usada nas reportagens foram cortados. Dias depois, segundo o relato publicado pelo Guardian, a cabeça de um gato foi deixada perto do estacionamento, ao lado de um bilhete com o nome de Pedroso e o aviso de que ele seria o próximo.1 Cerca de cinco integrantes da equipe passaram as semanas seguintes em hotéis, por não se sentirem seguros em casa.2 Ainda assim, o veículo cobriu aquele pleito. Em 2024, o cenário mudou: a insegurança levou à suspensão da cobertura municipal, e 2026 repete a decisão.
O episódio mais recente foi descrito ao jornal britânico. Em julho, câmeras de segurança registraram ciclistas rondando a casa de Pedroso, assobiando e filmando o carro dele, minutos antes de outro veículo colidir com o automóvel. O fundador diz acreditar que a intenção era atraí-lo para uma emboscada do lado de fora.1 Pedroso acabou deixando Santarém em razão das ameaças, informou o Nexo Jornal.2
Um dado atravessa todos os episódios: nenhum deles tem autoria esclarecida. Os casos foram levados à Polícia Civil e ao Ministério Público, mas não há conclusão sobre responsáveis nem prova de que os atos estejam conectados.2 Ao Guardian, Pedroso explicou que a equipe decidiu tornar as ameaças públicas justamente depois de anos de denúncias às autoridades que não produziram resultado.1
"Temos medo de morrer e de colocar em risco a segurança das nossas famílias."
Marcos Wesley Pedroso, cofundador do Tapajós de Fato, em declaração ao The Guardian
Campanha de 2026 registra escalada de ataques à imprensa
O caso paraense ganha outra dimensão quando lido ao lado dos números nacionais. A Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), que reúne Abraji, Fenaj, Artigo 19, Ajor, Repórteres Sem Fronteiras, Comitê para a Proteção de Jornalistas, Instituto Vladimir Herzog e outras entidades, iniciou em agosto um monitoramento da violência contra comunicadores durante a campanha, com acompanhamento de X, Instagram e TikTok.4
Entre 30 de agosto e 12 de setembro, a coalizão contabilizou 4.400 ataques online contra jornalistas, veículos e a imprensa em geral no X e no Instagram, um aumento de 67% em relação às duas semanas anteriores, segundo dados apresentados ao Guardian pela coordenadora jurídica da Abraji, Letícia Kleim.1 Em nota de repúdio, a Abraji detalhou que os ataques atingiram 86 jornalistas e 109 veículos, contra 46 profissionais e 91 veículos na quinzena anterior, com a disputa presidencial concentrando a maior parte dos episódios ligados à eleição.5
O recorte de gênero é outro marcador. Levantamento publicado pelo Portal Catarinas com base no monitoramento da CDJor aponta que mulheres concentraram a maior parte das agressões online nas primeiras semanas de campanha; no X, foram alvo de 500 de 750 ataques registrados no período analisado.6 O Ministério da Justiça e Segurança Pública, por sua vez, instalou em junho um grupo de trabalho dedicado a acompanhar violência física, ataques digitais e assédio judicial contra jornalistas no processo eleitoral.10
Kleim ressaltou ao Guardian que, com a campanha em curso, ainda não é possível afirmar se 2026 supera 2022 em volume de ataques, e lembrou que o ambiente de quatro anos atrás era particularmente hostil por causa da postura do então presidente em relação à imprensa.1
O paradoxo do ranking: melhora nacional, fragilidade local
O caso do Tapajós de Fato ocorre no mesmo ano em que o Brasil registra seu melhor desempenho recente em liberdade de imprensa. No Ranking Mundial da Repórteres Sem Fronteiras de 2026, o país subiu para a 52ª posição entre 180 nações, contra a 63ª em 2025 e a 111ª em 2022, e ultrapassou os Estados Unidos pela primeira vez, segundo a CNN Brasil.7 A RSF atribuiu o avanço à adoção de protocolos para investigar crimes contra profissionais de imprensa, à ausência de assassinatos de jornalistas desde 2022 e ao fim das hostilidades do governo federal contra a imprensa.7
O retrato agregado, contudo, esconde a geografia do risco. Conforme análise da Abraji, o Brasil ainda aparece apenas em 81º lugar no indicador de segurança, e o monitoramento da entidade identificou 130 novos casos de assédio judicial contra jornalistas entre 2024 e setembro de 2025.7 O país permanece na faixa classificada como "problemática".
Quando uma redação local se cala, quem perde é o eleitor
A retirada de um veículo como o Tapajós de Fato pesa mais na Amazônia do que pesaria numa capital do Sudeste. A sétima edição do Atlas da Notícia, censo do Projor com o Volt Data Lab, registrou 1.264 veículos jornalísticos na Região Norte, crescimento de 14%. Mesmo assim, 193 dos 450 municípios nortistas são desertos de notícias, sem nenhum veículo local, e 144 são quase-desertos, com um ou dois veículos. Só 113 contam com mais de três.8 Em extensão, 42,9% do território da região não tem cobertura jornalística local.8
Nesse ambiente, um site independente pode ser uma das poucas fontes a confrontar candidatos com temas como garimpo, desmatamento, disputas por terra e direitos dos povos tradicionais, justamente a pauta que o Tapajós de Fato levou aos entrevistados em 2022.2 Kleim resumiu ao Guardian o efeito: silenciar o mensageiro afeta não só a comunidade atendida, mas a democracia como um todo, que deixa de receber informação produzida de dentro da região.1 O próprio Pedroso reconheceu ao jornal que a escolha não foi fácil e que, no fim, quem perde são as comunidades que dependiam da cobertura.1
A memória do Vale do Javari
A decisão da redação paraense também dialoga com um caso que marcou o jornalismo na Amazônia. O indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips, colaborador do Guardian, foram mortos a tiros em 5 de junho de 2022, em Atalaia do Norte (AM), quando visitavam comunidades próximas à Terra Indígena Vale do Javari. Em fevereiro de 2026, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região atendeu a pedido do Ministério Público Federal e transferiu de Tabatinga para Manaus o júri dos dois acusados de executar os crimes, sem data definida à época.9 Em junho, a Justiça Federal no Amazonas pronunciou outro réu no processo.9 Mais de quatro anos depois, o julgamento ainda não se concluiu.
O Comitê Chico Mendes, organização batizada em homenagem ao ambientalista assassinado em 1988, divulgou nota sobre o Tapajós de Fato na qual afirma que não se pode aceitar como normal uma Amazônia em que o medo define o que pode ou não ser noticiado.1
O que observar nas próximas semanas
- Relatório da CDJor: a coalizão prevê um balanço analítico ao fim de cada turno, o que permitirá comparar 2026 com 2022.
- Andamento das investigações no Pará: a identificação de autores seria o primeiro resultado concreto após anos de registros sem conclusão.
- Júri do caso Bruno e Dom em Manaus: a definição de data é um teste da capacidade do Estado de responsabilizar crimes contra quem informa na Amazônia.
- Atuação do GT Eleitoral do Ministério da Justiça: o grupo tem a tarefa de identificar padrões de violência e articular respostas durante o pleito.
Perguntas frequentes
O que é o Tapajós de Fato?
É um site de jornalismo independente criado em 2020 em Santarém, no oeste do Pará. Cobre temas socioambientais da bacia do rio Tapajós, como conflitos fundiários, garimpo, desmatamento, contaminação por agrotóxicos e direitos de povos indígenas e tradicionais.
Por que o Tapajós de Fato não vai cobrir as eleições de 2026?
A equipe tomou a decisão após anos de ameaças, que incluem pneus cortados, um bilhete de ameaça de morte deixado com a cabeça de um animal e uma colisão contra o carro de um dos fundadores. Nenhum dos casos teve autoria identificada. O site continua publicando sobre meio ambiente, mas não fará cobertura eleitoral.
Quantos ataques contra jornalistas foram registrados na campanha de 2026?
A Coalizão em Defesa do Jornalismo registrou 4.400 ataques online contra jornalistas, veículos e a imprensa no X e no Instagram entre 30 de agosto e 12 de setembro de 2026, alta de 67% em relação à quinzena anterior. No mesmo período, 86 jornalistas e 109 veículos foram alvo de hostilidade, segundo a Abraji.
Qual é a posição do Brasil no ranking de liberdade de imprensa em 2026?
O Brasil ocupa a 52ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2026 da Repórteres Sem Fronteiras, avanço em relação à 63ª posição de 2025 e à 111ª de 2022. No indicador específico de segurança dos jornalistas, porém, o país está em 81º lugar.
O que são desertos de notícias e por que importam nas eleições?
Desertos de notícias são municípios sem nenhum veículo jornalístico local. Segundo o Atlas da Notícia 2025, 193 dos 450 municípios da Região Norte estão nessa condição. Sem imprensa local, eleitores têm menos acesso a informação verificada sobre candidatos e temas regionais.