Caderno Tecnologia O Tecido Inteligência Artificial & Regulação

Quatro horas. Foi esse o tempo que o desenvolvedor francês Guillaume Meyer levou para publicar, no GitHub, um método capaz de remover a marca-d'água invisível que a Anthropic passou a inserir nos textos gerados pelo Claude. O código viralizou, acumulou mais de 20 mil marcações em posts na rede X e já reúne mais de cem colaboradores, segundo reportagem da revista americana Wired1. O episódio expõe, em tempo recorde, um dos dilemas centrais da nova onda regulatória sobre inteligência artificial: rotular conteúdo sintético é tecnicamente possível, mas garantir que o rótulo resista ao uso real da tecnologia é outra história.

A watermark do Claude começou a valer em modelos lançados a partir de 2 de agosto de 2026 e é aplicada globalmente, não apenas a usuários europeus2. A empresa confirmou que a mudança responde a uma obrigação legal específica: o artigo 50 da Lei de Inteligência Artificial da União Europeia (AI Act), que exige que provedores de sistemas capazes de gerar conteúdo sintético, como texto, áudio, imagem e vídeo, tornem esse conteúdo identificável por meios técnicos3. A Anthropic assinou, em julho de 2026, o Código de Prática sobre Transparência de Conteúdo Gerado por IA da União Europeia, ao lado de cerca de 190 outras organizações signatárias, entre provedores de modelos e empresas de tecnologia4.

Como funciona a marca invisível

A técnica adotada pela Anthropic é uma variação do SynthID-Text, método desenvolvido pelo Google DeepMind e publicado na revista científica Nature em 2024, que por sua vez retoma uma proposta apresentada pelo cientista da computação Scott Aaronson em 20225. O princípio é sutil: sempre que o modelo tem duas ou mais palavras igualmente plausíveis para completar uma frase, como escolher entre "nublado" e "cinzento" para descrever o tempo, o sistema direciona essa escolha de acordo com uma chave criptográfica, em vez de sortear a palavra de forma aleatória. O padrão resultante é imperceptível para quem lê o texto, mas detectável por quem possui a chave5.

A empresa afirma que a marcação não acrescenta tokens extras nem caracteres ocultos e que testes internos, incluindo um experimento controlado em parte do tráfego do Gemini realizado pelo próprio Google DeepMind, não encontraram diferença estatística na qualidade ou na criatividade dos textos marcados em comparação aos não marcados5. Ainda assim, a Anthropic reconhece limites relevantes: textos curtos, muito factuais ou fortemente reescritos após a geração produzem um sinal fraco ou nenhum sinal detectável, e a marca não informa quem operou o modelo, nem distingue autoria de edição pontual6.

A corrida paralela pela remoção

Enquanto a Anthropic ainda trabalha na liberação pública de uma API de detecção, a comunidade de desenvolvedores já testa maneiras de contornar a marca. Segundo a Wired, o método de Meyer usa um modelo de linguagem sem watermarking para reescrever o texto, trocando sinônimos e reorganizando trechos, uma estratégia que depende da disponibilidade contínua de modelos concorrentes sem marcação própria1. Outros dois casos citados pela publicação ilustram a variedade de abordagens: o engenheiro Erik Hughes construiu, em cerca de 15 minutos e com ajuda do próprio Claude, uma ferramenta que remove caracteres invisíveis, reordena frases e substitui palavras por sinônimos; já o pesquisador Leon Chlon, da Universidade de Oxford, descreve um método baseado em tradução automática para um idioma estruturalmente distinto do inglês, como o árabe, e depois de volta, processo que dilui o padrão estatístico da marca1.

"Não sou contra a transparência, mas acho a marca-d'água uma solução com riscos importantes."Guillaume Meyer, à revista Wired, sobre falsos positivos e o uso indevido da marcação como prova de autoria

A preocupação de Meyer, relatada à Wired, é que a detecção só produz uma probabilidade, nunca uma certeza, e que tratar esse indício como prova definitiva pode levar a acusações infundadas contra candidatos a emprego ou pesquisadores que apenas usaram ferramentas de IA para revisão leve de texto, como ele próprio faz ao escrever em francês e revisar com apoio de assistentes de linguagem1. A própria Anthropic confirma essa limitação em nota técnica: a marca indica apenas que o Claude provavelmente participou da produção do texto, sem revelar se a participação foi autoral ou apenas uma correção pontual, e sem conseguir identificar textos escritos por outros modelos de IA, mesmo que também utilizem watermarking, porque cada sistema emprega uma chave própria6.

Contraponto

Nem todos os especialistas veem a fragilidade da marca como um fracasso do projeto. Wayne Pan, cofundador e diretor de tecnologia da startup Haimaker, incorporou a ferramenta de remoção de Meyer à própria plataforma por discordar da marcação invisível, mas reconhece que nenhuma técnica de watermarking resiste a todas as formas de manipulação1. Para a Anthropic, o objetivo declarado nunca foi criar um mecanismo à prova de falhas, mas oferecer "melhores ferramentas de identificação" em um cenário no qual, segundo a empresa, distinguir texto humano de texto sintético já é tecnicamente difícil por outros meios7.

Em nota enviada à Wired, a Anthropic afirmou que a marcação não altera o significado, a qualidade ou a legibilidade das respostas do Claude e que uma API de detecção de texto está a caminho, para que usuários e plataformas possam verificar o conteúdo por conta própria1.

O que isso significa para o Brasil

O caso interessa diretamente ao debate público brasileiro. O Projeto de Lei 2338/2023, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e ainda em tramitação na Câmara dos Deputados, prevê dispositivos de transparência e identificação de conteúdo gerado por sistemas de inteligência artificial em seus artigos 19 e 20, em linha com o modelo europeu8. Paralelamente, tramitam na Câmara projetos apensados voltados especificamente à rotulagem de conteúdo sintético, alguns propondo selo ou marca-d'água obrigatórios, outros criando uma lei própria de rotulagem que alteraria o Marco Civil da Internet9.

Enquanto a legislação geral não avança, o Brasil já aplica regra semelhante em um campo específico: o eleitoral. As normas do Tribunal Superior Eleitoral para o pleito de 2026 exigem sinalização de conteúdo sintético em propaganda política8. Um levantamento do Observatório IA nas Eleições, conduzido pela Data Privacy Brasil em parceria com o Aláfia Lab, identificou 137 conteúdos sintéticos de teor político circulando entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, dos quais ao menos 100 sem qualquer sinalização de que haviam sido produzidos por inteligência artificial8. O número dá dimensão prática ao problema que a Anthropic tenta endereçar em escala global: regras de rotulagem existem, mas sua eficácia depende de mecanismos técnicos que, como mostra o caso do Claude, podem ser neutralizados horas depois de entrarem em vigor.

Perguntas frequentes

O que é a marca-d'água invisível do Claude?

É um padrão estatístico inserido nas escolhas de palavras que o Claude faz durante a geração de texto, baseado na técnica SynthID-Text do Google DeepMind. O padrão não altera o sentido do texto e só é identificável por quem possui a chave de detecção da Anthropic.

Por que a Anthropic passou a marcar os textos do Claude?

Para cumprir o artigo 50 da Lei de Inteligência Artificial da União Europeia, que exige que conteúdo sintético seja identificável por meios técnicos, e o Código de Prática sobre Transparência assinado pela empresa em julho de 2026.

É possível remover essa marca-d'água?

Desenvolvedores já publicaram ferramentas que reduzem ou eliminam o sinal por meio de reescrita com outro modelo de linguagem, substituição de sinônimos ou tradução para outro idioma e retorno ao original. A própria Anthropic reconhece que edição substancial ou textos curtos podem não carregar uma marca detectável.

A detecção da marca prova que um texto foi escrito por IA?

Não. Segundo a Anthropic, a detecção indica apenas uma probabilidade de que o Claude participou da produção do texto, sem confirmar autoria integral nem descartar edição humana relevante.

O Brasil tem uma regra equivalente?

Ainda não em caráter geral. O PL 2338/2023 prevê dispositivos de transparência sobre conteúdo gerado por IA, mas segue em tramitação na Câmara dos Deputados. A exigência já vigora, porém, na propaganda eleitoral, por norma do TSE para o pleito de 2026.

Nota editorial (verificar antes da publicação): confirmar se a API de detecção da Anthropic já foi liberada publicamente até a data de publicação, já que o texto trata de uma etapa "em desenvolvimento" no momento da apuração (agosto de 2026); e verificar o andamento do PL 2338/2023 na Comissão Especial da Câmara, que pode ter avançado desde a apuração desta matéria.

Nota de atribuição: esta reportagem foi inspirada na apuração original "Coders Say They Already Found Workarounds to Claude's Invisible Watermarks", publicada pela revista Wired em agosto de 2026 e disponível em wired.com. O texto foi complementado com apuração e fontes independentes por O Tecido.

Em números

2 ago 2026Data em que a obrigação de transparência do artigo 50 do AI Act passou a valer na União Europeia
~190Organizações signatárias do Código de Prática europeu sobre transparência de conteúdo gerado por IA
€15 miMulta máxima prevista no AI Act por descumprimento, ou 3% do faturamento global anual, o que for maior
4 horasTempo entre o anúncio da Anthropic e a publicação da primeira ferramenta de remoção, segundo a Wired
137Conteúdos sintéticos de teor político identificados no Brasil entre dez/2025 e fev/2026 pelo Observatório IA nas Eleições

Linha do tempo

2022

Scott Aaronson propõe, ainda na OpenAI, um método de marcação de texto por manipulação de aleatoriedade na escolha de palavras.

2024

Google DeepMind publica o método SynthID-Text na revista Nature.

Jul 2026

Anthropic assina o Código de Prática da União Europeia sobre transparência de conteúdo gerado por IA.

2 ago 2026

Entra em vigor a obrigação de marcação do artigo 50 do AI Act; Claude passa a marcar texto globalmente.

Ago 2026

Primeiras ferramentas de remoção da marca-d'água são publicadas por desenvolvedores independentes.

Glossário

Watermarking
Inserção de um padrão detectável, mas imperceptível ao leitor, no conteúdo gerado por um sistema de IA.
SynthID-Text
Método do Google DeepMind que orienta a escolha estatística de palavras durante a geração de texto para criar um sinal identificável.
Artigo 50 do AI Act
Dispositivo da lei europeia de IA que exige identificação técnica de conteúdo sintético gerado por sistemas de IA.
PL 2338/2023
Projeto de lei brasileiro que propõe o marco regulatório da inteligência artificial, incluindo regras de transparência sobre conteúdo gerado por IA.

Referências

  1. Wired. "Coders Say They Already Found Workarounds to Claude's Invisible Watermarks." Agosto de 2026. wired.com
  2. Euronews. "EU compliance, delivered globally: Anthropic to watermark Claude's output worldwide." euronews.com
  3. Technology.org. "Anthropic Watermarks Claude Text for EU Rules." technology.org
  4. Search Engine Journal. "Anthropic To Mark Claude Text & Files Under EU AI Act Code." searchenginejournal.com
  5. Anthropic. "How Claude's text watermarking works." anthropic.com
  6. Anthropic Help Center. "How Claude marks AI-generated content." support.claude.com
  7. TechCrunch. "Anthropic shares more details about how Claude's new watermarks will work." techcrunch.com
  8. Barbieri Advogados. "Marcação de conteúdo gerado por IA: o que muda em 2026." barbieriadvogados.com
  9. Câmara dos Deputados. Tramitação apensada ao PL 2338/2023 sobre rotulagem de conteúdo sintético. camara.leg.br