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Caderno Opinião
Opinião · Paternidade & comportamento

Trocamos os antigos manuais de "como ser pai" por manuais de "como ser homem". O problema é que ser pai nunca foi sobre masculinidade — é sobre presença. E presença não se resolve em auditório, se resolve em agenda.

Neste último final de semana, o ator Juliano Cazarré reuniu cerca de 600 homens em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, para três dias de palestras sobre masculinidade, fé, liderança e paternidade. Os pacotes iam de pouco menos de dois mil a quase cinco mil reais, dependendo da experiência escolhida — churrasco, pizza e vinho, ou um kit especial para quem quisesse a trilha completa. A repercussão foi imediata, dividida entre aplausos e acusações de retrocesso. Mas o que me interessa aqui não é o placar da polêmica. É o diagnóstico que sustenta o evento, e que ouço repetido, com variações, em rodas de amigos, em comentários de rede social, em conversa de churrasco: a ideia de que o homem brasileiro está "enfraquecido" e que a solução passa por recuperar uma masculinidade perdida.

Eu discordo do diagnóstico. Não porque ache que está tudo bem em casa — está longe disso. Discordo porque o problema nunca foi masculinidade. É paternidade. E são coisas diferentes.

Isso me lembra os manuais que existiam décadas atrás: "como ser mãe", "como ser pai", cartilhas de comportamento doméstico distribuídas em maternidades e revistas femininas. Hoje trocamos o rótulo. Não se vende mais "como ser pai" — vende-se "como ser homem", como se recuperar uma virilidade supostamente perdida resolvesse, por tabela, a ausência na hora do dever de casa. Ser pai não tem relação direta com masculinidade. Tem relação com se preocupar de fato com filhos e filhas — estar lá, prestar atenção, abrir mão de coisas em nome deles. Isso não é uma pauta política. É uma pauta comportamental.

Não se vende mais "como ser pai" — vende-se "como ser homem", como se recuperar uma virilidade perdida resolvesse, por tabela, a ausência na hora do dever de casa.

Segundo relatos da cobertura do encontro, uma das palestrantes chegou a associar programas de transferência de renda como o Bolsa Família a uma suposta diminuição do papel do homem provedor. É um argumento que ouço com frequência crescente em ambientes conservadores, e que merece ser tratado com cuidado, não com desprezo: a preocupação real por trás dele é o enfraquecimento do vínculo paterno em famílias vulneráveis. Mas a causalidade proposta — de que um benefício de renda mínima esvazia a figura do pai — inverte a ordem dos fatores. O Brasil tem uma das taxas de ausência paterna mais altas do mundo há décadas, muito antes de qualquer programa social existir, e ela está concentrada exatamente nas famílias mais pobres, que são as que mais precisam de transferência de renda para sobreviver. Culpar a política pública por um problema estrutural que a antecede é confortável. Não é preciso.

Contraponto

É justo reconhecer o outro lado do argumento: para parte dos organizadores e público desse tipo de encontro, o objetivo declarado não é atacar política social, mas oferecer autoajuda, disciplina pessoal e comunidade a homens que se sentem sem rumo — um problema real, com dados de saúde mental masculina, suicídio e isolamento social que sustentam a demanda. Nesse sentido, o encontro cumpre uma função que igrejas, clubes e sindicatos cumpriam no passado e que boa parte da vida urbana contemporânea desmontou. A crítica que faço aqui não é ao desejo de pertencimento ou de propósito. É à confusão entre "ser mais homem" e "ser mais pai" — e à tentação de politizar uma pauta que deveria ser, antes de tudo, uma escolha de agenda.

A desigualdade não é desculpa para quem não a tem

O Brasil é um país desigual, e isso pesa diretamente sobre a paternidade. Há pais e mães que saem de casa antes do amanhecer e voltam depois que os filhos já dormiram, porque o transporte público consome duas ou três horas do dia e o salário não permite escolher outro emprego. Há crianças criadas por irmãos mais velhos, por avós, por vizinhos, porque não sobra ninguém em casa durante o horário comercial. Há pais ausentes por abandono, por vício, por comportamento abusivo — famílias inteiras carregando o peso de decisões que não foram delas. Escrever sobre isso como se fosse um problema de caráter individual seria injusto e desonesto.

Mas este texto não é para essas famílias. É para um público específico: pais com grau de instrução e condição financeira que lhes dá escolha real sobre como usar o tempo — e que, ainda assim, escolhem o trabalho, as redes sociais, os eventos de fim de semana, antes dos filhos. São, não por acaso, muitos dos que mais discursam sobre masculinidade e sobre o "enfraquecimento" do homem brasileiro. E aqui a notícia não é boa: para esse grupo, a culpa não é da cultura, não é da empresa que exige demais, não é do sistema que empurra todo mundo para crescer na carreira a qualquer custo. É uma decisão. Diária, repetida, disfarçada de necessidade.

Para quem tem escolha real sobre o próprio tempo, a ausência não é destino. É prioridade — só que mal colocada.

Tenho um casal de amigos — ele médico, ela bancária — que ilustra bem o outro caminho. Os dois abriram mão, deliberadamente, de crescer mais rápido na carreira para ter tempo de sobra um para o outro e, principalmente, para o filho. Ela recusou uma promoção que exigiria jornada maior, para manter um horário que lhe permitisse buscar o filho na escola. Ele fechou a agenda de consultas da tarde pelo mesmo motivo: pegar o menino, sentar junto para fazer lição de casa. Não é que trabalhem pouco — nos horários em que estão trabalhando, dão o máximo, exatamente porque sabem que aquele é o tempo dedicado a isso, e só a isso. Com certeza estão entre os melhores profissionais em suas áreas, pois, além de altamente capacitados, têm a questão da atitude — isto é, de direcionar a própria vida, de abrir mão de algumas coisas, o que não é fácil e exige uma capacidade de reflexão e discernimento acima da média. O que mudou foi a régua: pararam de medir sucesso pelo tamanho do salário e passaram a medir pela qualidade do tempo em casa.

Somos amigos há mais de trinta anos. Já discutimos política, várias vezes, sem que eu soubesse ao certo qual é a orientação real de cada um dos dois — porque isso nunca foi o ponto. Ser um bom pai não tem espectro político. Tem atitude de pai.

O que fica

Não preciso de um auditório para lembrar disso, nem de um manual novo com capa de masculinidade recuperada. O que falta, para quem tem condição de escolher, não é mais virilidade. É menos desculpa.

Ewerton Lopes
Editor de O Tecido
Nota editorial: Este texto de opinião foi motivado pela cobertura do encontro "O Farol e a Forja", promovido pelo ator Juliano Cazarré entre os dias 24 e 26 de julho de 2026 em São Paulo, publicada pela Folha de S.Paulo: f5.folha.uol.com.br — "Como foi o encontro de Juliano Cazarré sobre masculinidade que atraiu 600 homens em SP". As opiniões expressas são pessoais do autor e não representam posição institucional de O Tecido, que mantém compromisso com o não-partidarismo editorial.
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