Quando o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, colocou lado a lado a ex-presidente do órgão antitruste americano (FTC) Lina Khan e o veterano da máquina pública Anthony Shorris à frente da agência de desenvolvimento econômico da cidade, a EDC, ele expôs um dilema que atravessa praticamente toda a esquerda ocidental em 2026[1]. O problema é simples de enunciar e difícil de resolver: como fazer redistribuição de renda sem sufocar o crescimento econômico que sustenta essa mesma redistribuição no médio prazo.
A dupla escolhida por Mamdani ilustra bem a aposta. Khan construiu reputação nacional como uma das reguladoras antitruste mais agressivas da história recente dos Estados Unidos, tendo processado gigantes como Amazon, Meta e Google durante o governo Biden[2]. Shorris, ex-primeiro vice-prefeito sob Bill de Blasio e sócio da consultoria McKinsey, é visto como uma ponte com o empresariado da cidade[3]. O próprio Mamdani descreveu a dupla como "a versão econômica do Dream Team olímpico de 1992"[4].
Redistribuir venceu a eleição, mas não basta para governar
O artigo de opinião publicado pelo jornal espanhol El País em 21 de agosto, assinado por Rick McGahey, argumenta que o discurso eleitoral vitorioso de Mamdani em 2025 foi construído quase inteiramente sobre redistribuição: congelamento de aluguéis, ônibus públicos gratuitos, supermercados municipais, cuidado infantil universal e aumento de impostos sobre os mais ricos[1]. Segundo a análise, esse pacote ajudou a eleger o democrata socialista, mas isoladamente não resolve a questão do emprego de qualidade e da capacidade produtiva da cidade no longo prazo[1].
O texto situa o caso nova-iorquino dentro de um padrão mais amplo. Na Alemanha, os social-democratas viram sua popularidade cair a índices de um dígito em alguns estados apesar de suas propostas redistributivas. Na França, a aliança de esquerda perdeu terreno para a extrema direita de Marine Le Pen justamente em confiança econômica. Na Espanha, a coalizão governista até conseguiu crescimento, mas sofre desgaste por não resolver o preço da moradia[1].
"Nenhum governo consegue tornar a vida acessível ao cidadão apenas com impostos e regulação. É preciso também um programa que fomente o crescimento."
O "produtivismo" de Dani Rodrik
A saída proposta no debate internacional tem nome: produtivismo. O economista turco-americano Dani Rodrik, de Harvard, defende havia anos uma reorientação da política econômica em direção à produção, ao trabalho e ao enraizamento local, em contraposição ao financeirismo e à globalização sem amarras[5]. Para Rodrik, trata-se de criar empregos de qualidade em larga escala não necessariamente na indústria, cujo potencial de geração de vagas é hoje limitado pela automação e pela concorrência internacional, mas em setores de serviços como saúde, logística, hotelaria e cuidado com crianças e idosos[1].
Rodrik também cunhou o diagnóstico da "desindustrialização prematura", fenômeno pelo qual países emergentes, entre eles o Brasil, perdem peso industrial no PIB antes de completar sua transição para economias de renda alta, ao contrário do que ocorreu com Coreia do Sul ou Taiwan em décadas anteriores[6]. Economistas da linha novo-desenvolvimentista brasileira, como José Luis Oreiro, da Universidade de Brasília, retomam esse argumento para defender que apenas a industrialização sustenta ganhos de produtividade de longo prazo, ainda que setores de serviços possam gerar avanços pontuais[7].
O espelho brasileiro: crescer e distribuir ao mesmo tempo
O dilema descrito para Nova York, Berlim, Paris e Madri não é estranho ao debate econômico brasileiro. Historicamente, o desempenho da economia tende a ser fator decisivo nas eleições presidenciais do país, com eleitores recompensando governos em períodos de prosperidade e punindo-os em crises, como ocorreu na reeleição de Fernando Henrique Cardoso após o Plano Real e na derrota de candidatos governistas em anos de recessão[8]. O próprio Lula viveu os dois lados dessa equação: venceu a reeleição com folga em 2006, em meio a crescimento e expansão de programas sociais, e retornou à Presidência em 2022 por margem apertada, em cenário de polarização recorde[8].
Para 2026, o programa de governo protocolado pelo presidente no Tribunal Superior Eleitoral mantém o arcabouço fiscal criado para substituir o antigo teto de gastos e evita anunciar uma agenda explícita de corte de despesas, apostando na continuidade de políticas como a reindustrialização via Nova Indústria Brasil, com foco em inteligência artificial, digitalização e minerais críticos[9]. A narrativa de campanha migrou da promessa de "reconstrução", central em 2022, para a defesa de um legado que inclui a saída do Brasil do Mapa da Fome, o controle da inflação e a retomada de investimentos em infraestrutura[10].
Levantamentos recentes indicam desemprego no menor patamar em uma década e inflação ao consumidor em torno de 5% ao ano, ainda acima da meta do Banco Central, enquanto o PIB voltou a crescer em ritmo moderado[11]. Analistas ponderam, contudo, que a dívida pública e o volume de investimento seguem como pontos de contraponto às cinco entregas mais citadas pelo governo: emprego, combate à fome, queda do desmatamento, permanência escolar e crescimento do PIB[12].
A crítica ao modelo Mamdani-Khan
Nem todos veem a aposta nova-iorquina como equilibrada. Artigos publicados por veículos de orientação mais liberal na economia americana descrevem a nomeação de Khan como um sinal de hostilidade ao empresariado local, citando a saída de contribuintes de alta renda de Nova York para estados como Flórida, Texas e Tennessee, num movimento que já teria retirado bilhões de dólares em receita tributária da cidade antes mesmo da posse de Khan na EDC[13]. Do outro lado do espectro, grupos empresariais como a Competitiveness Coalition classificaram a escolha como um risco para a missão original da agência, que é atrair investimento privado e inovação[4].
Contraponto
A leitura crítica argumenta que combinar um regulador antitruste histórico com a gestão de uma agência de fomento pode gerar insegurança jurídica para investidores, num momento em que a cidade já concentra a carga tributária e regulatória mais pesada do país, segundo veículos favoráveis ao mercado[13]. Já defensores da nomeação, incluindo a própria Khan, sustentam que a EDC tem "capacidade enorme de melhorar materialmente a vida dos nova-iorquinos" justamente por controlar terrenos, financiamento e incentivos públicos que hoje priorizariam grandes negócios em vez de pequenas empresas e trabalhadores[3].
O que está em jogo
O caso de Nova York interessa ao Brasil menos pelo nome dos protagonistas e mais pelo padrão que revela: em praticamente todas as democracias analisadas, plataformas de esquerda vitoriosas nas urnas enfrentam o mesmo teste de sustentabilidade econômica depois de empossadas. Redistribuir sem crescer tende a esbarrar em mercados de títulos públicos, fuga de capital e desgaste de popularidade, como mostram os casos alemão, francês e britânico citados pela análise do El País[1]. Crescer sem redistribuir, por sua vez, é o modelo que alimentou o descontentamento social que elegeu o próprio Mamdani e figuras equivalentes em outras partes do mundo.
Para o leitor brasileiro que acompanha o ciclo eleitoral de 2026, a lição prática é que o debate entre "arcabouço fiscal" e "crescimento com distribuição" não é uma peculiaridade nacional, mas parte de um enredo internacional que também está sendo escrito, com desfechos ainda incertos, em Nova York, Manchester e Madri.
Perguntas frequentes
Quem são Lina Khan e Anthony Shorris?
Lina Khan é a ex-presidente da Comissão Federal de Comércio (FTC) dos Estados Unidos, conhecida por processos antitruste contra Amazon, Meta e Google. Ela foi nomeada presidente do conselho da Corporação de Desenvolvimento Econômico (EDC) de Nova York. Anthony Shorris, ex-primeiro vice-prefeito da cidade e sócio da McKinsey, assumiu a presidência executiva da mesma agência.
O que é o "produtivismo" defendido por Dani Rodrik?
É um modelo de política econômica que prioriza a criação de empregos de qualidade em larga escala, especialmente em serviços como saúde, logística e cuidado, em vez de depender apenas de finanças, consumo e globalização. Rodrik argumenta que essa reorientação pode unir apoio de diferentes espectros políticos.
Por que o caso de Nova York é relevante para o debate político brasileiro?
Porque o mesmo dilema entre redistribuição e crescimento aparece no programa de governo brasileiro para 2026, que mantém o arcabouço fiscal e aposta na reindustrialização como forma de sustentar avanços sociais sem comprometer a estabilidade macroeconômica.
Quais países enfrentam desafios semelhantes?
A análise original do El País cita Alemanha, França, Espanha e Reino Unido como exemplos de lideranças de esquerda que tiveram dificuldade em conciliar redistribuição de renda com crescimento econômico sustentável.