Caderno Profissões Trabalho & Inclusão

Nos últimos dez anos, o Brasil formou mais pessoas com deficiência do que em qualquer outro período de sua história recente. A escolaridade superior cresceu, a presença nas universidades aumentou e a Lei de Cotas, criada em 1991, segue puxando contratações formais ano após ano. O problema é que esse avanço educacional não está se traduzindo, no mesmo ritmo, em acesso a cargos de maior responsabilidade e remuneração. Um estudo recente da Fundação Randstad, divulgado pelo jornal espanhol El País, mostra que a Espanha vive exatamente esse paradoxo — e os dados brasileiros, embora produzidos por outras metodologias, desenham um retrato semelhante.

Segundo o levantamento espanhol, 82% das pessoas com deficiência em idade laboral já possuem estudos médios ou superiores, e a educação superior cresceu 53% na última década naquele país. Ainda assim, apenas 23% ocupam postos de alta qualificação, mesmo quando 32% têm diploma universitário. Do outro lado, quem tem apenas estudos básicos representa 7% dos ocupados, mas concentra 22% das ocupações elementares — um desencontro entre preparo e oportunidade que a diretora de Alianças Estratégicas da Fundação Randstad, Marta Valer, resume como um problema de acesso, não de talento (El País).

O que os números brasileiros mostram

No Brasil, a fotografia mais recente também revela dois movimentos que caminham em direções opostas. Pelo lado formal, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) informou que, em junho de 2025, o país tinha 634.650 pessoas com deficiência ou reabilitadas pela Previdência Social empregadas com carteira assinada — sendo que 93,58% delas estavam em empresas obrigadas por lei a cumprir a reserva de vagas. Só no primeiro semestre de 2025, mais de 63 mil contratações desse público foram registradas, a maioria concentrada no Sudeste. Ainda assim, apenas 54% das vagas previstas pela Lei de Cotas (Lei nº 8.213/1991) estavam efetivamente preenchidas, segundo o mesmo balanço do MTE.

O retrato geral da população, medido pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, é ainda mais desigual. O Brasil tem 18,6 milhões de pessoas com deficiência com dois anos ou mais — 8,9% da população nessa faixa etária — e a diferença na taxa de ocupação entre quem tem e quem não tem deficiência ultrapassa 34 pontos percentuais: 60,7% contra 26,6%, segundo dados de 2022 sistematizados pela Agência Brasil. Ou seja, pouco mais de um quarto das pessoas com deficiência em idade de trabalhar estava efetivamente ocupado.

"Não podemos conformarnos com incorporar a una persona con discapacidad a un puesto de trabajo y dar el proceso por terminado." Marta Valer, Fundación Randstad, em entrevista ao El País

A pesquisadora do Ipea Liliane Bernardes, ouvida pela Agência Brasil, atribui parte dessa distância a um mecanismo estrutural: pessoas com deficiência costumam ser vistas como "mais dispendiosas ou menos produtivas" do que os demais trabalhadores, o que reforça sua marginalização mesmo onde a legislação existe. Ela também aponta que boa parte das empresas prioriza a contratação de deficiências leves, que exigem menos adaptação, deixando de fora quem tem deficiências mais severas — um recorte que a Lei de Cotas, por si só, não resolve.

Um teto de vidro dentro do próprio emprego

O desafio não termina na porta de entrada. Uma pesquisa do Radar da Inclusão, divulgada pela revista HSM Management, ouviu profissionais com deficiência já empregados e encontrou um padrão de estagnação: 63% nunca foram promovidos, apenas 12% ocupam cargos de média liderança e somente 2% chegam à alta liderança. Para 94% dos entrevistados, as empresas contratam pessoas com deficiência apenas para cumprir a cota legal, e 89% afirmam que essas contratações não vêm acompanhadas de condições adequadas de trabalho — o que ajuda a explicar por que a inclusão formal nem sempre se converte em desenvolvimento de carreira.

Esse é, no fundo, o mesmo fenômeno descrito pela Fundação Randstad na Espanha: o acesso ao primeiro emprego deixou de ser o principal gargalo em muitos contextos, dando lugar a um problema mais silencioso, o de permanecer parado no mesmo posto por anos, sem trilha de crescimento.

A inteligência artificial como filtro — e como ferramenta

A automação dos processos seletivos acrescenta uma camada nova a esse debate. Em depoimento ao blog especializado em acessibilidade MWPT, o arquiteto Alexandre Ohkawa relatou ser filtrado por sistemas de triagem automatizada antes mesmo da entrevista humana, respondendo a perguntas formuladas para perfis executivos que não correspondiam à sua candidatura — um exemplo de como algoritmos de recrutamento mal calibrados podem replicar, em escala, vieses capacitistas já existentes no mercado.

Ao mesmo tempo, há iniciativas que tentam inverter esse uso. A startup brasileira Egalite, segundo reportagem do Projeto Draft, aplicou inteligência artificial em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Fundação Pacto de Productividad para tornar processos de contratação de pessoas com deficiência mais objetivos no Chile, com planos de expansão da tecnologia como consultoria para outros países. O contraste ilustra um ponto que também aparece no estudo da Fundação Randstad: a tecnologia não é neutra por definição — o resultado depende de como, e para quem, ela é desenhada.

Contraponto

Nem todos concordam que a Lei de Cotas seja a ferramenta certa para resolver esse problema. Segundo a pesquisa do Radar da Inclusão, 95% dos profissionais entrevistados consideram a lei fundamental para a empregabilidade — mas uma parcela significativa do setor empresarial argumenta, em fóruns de recursos humanos, que multas e obrigações legais tendem a gerar contratações defensivas, feitas para evitar sanção, em vez de processos de recrutamento genuinamente meritocráticos e voltados a cargos de maior complexidade.

Para essa corrente, o caminho mais eficaz passaria por incentivos fiscais a programas de capacitação e ascensão profissional, e não apenas pela fiscalização do cumprimento de cotas. Já auditores fiscais do trabalho, como Rafael Giguer, do MTE, defendem que a fiscalização segue sendo o instrumento mais eficaz disponível: desde 2009, mais de 139 mil auditorias já resultaram em cerca de 537 mil contratações de pessoas com deficiência ou reabilitadas.

O mercado que muda mais rápido do que a inclusão

O estudo da Fundação Randstad acrescenta um dado que reposiciona todo o debate: quase 39% das competências hoje exigidas pelas empresas devem mudar até 2030. O número coincide, de forma quase exata, com a projeção do Fórum Econômico Mundial no relatório Future of Jobs 2025, que também estima que 39% das habilidades centrais do mercado de trabalho global sofrerão alguma transformação até o fim da década, com destaque para pensamento analítico, letramento digital e uso de inteligência artificial.

O risco descrito pela fundação espanhola é que boa parte das pessoas com deficiência ainda está concentrada justamente nas ocupações onde essa transformação avança mais devagar — tarefas mais repetitivas e sujeitas à automação. No Brasil, os dados do MTE mostram uma dinâmica parecida com a espanhola: crescimento tanto em ocupações técnicas quanto em ocupações elementares, o que sugere um mercado se movendo em duas velocidades diferentes para o mesmo grupo de trabalhadores.

Marta Valer resiste a uma leitura fatalista. Para ela, a questão não é se determinadas funções vão desaparecer, mas se as pessoas terão acesso contínuo à formação necessária para acompanhar essa mudança — o que reposiciona o debate da inclusão laboral: menos sobre garantir o primeiro emprego, mais sobre sustentar trajetórias de desenvolvimento profissional ao longo do tempo.

Esta reportagem tem como ponto de partida a matéria "Los empleos del futuro ponen a prueba la inclusión laboral de las personas con discapacidad", de Nacho Meneses, publicada pelo jornal El País em 6 de agosto de 2026 (acesse o texto original). O conteúdo foi adaptado com reportagem independente sobre o cenário brasileiro e internacional, sem tradução ou reprodução integral do artigo de origem.