Mais de 550 médicos de Quebec, de todas as especialidades e regiões da província, decidiram entrar na reta final da campanha eleitoral com uma mensagem direta aos candidatos: parem de responsabilizar os imigrantes pelas falhas dos serviços públicos. A carta aberta, encabeçada pela médica especialista Sophie Zhang e pela médica de família Andrée-Anne Duchesneau, foi publicada pelo jornal La Presse1 e chega a oito dias da votação de 5 de outubro, que definirá o próximo governo quebequense.
O texto não cita nomes, mas o alvo é reconhecível. Segundo o Le Devoir2, a manifestação foi lida como resposta ao discurso do Parti Québécois (PQ), que lidera as pesquisas e transformou a redução da imigração em um dos eixos centrais de sua plataforma.
O que dizem os médicos
A carta parte de uma constatação: ao longo da campanha, a imigração foi associada, em momentos diferentes, ao aumento da criminalidade, à crise de moradia, à superlotação das escolas e à sobrecarga do sistema de saúde. Para os signatários, nenhum político apresentou dados objetivos que sustentassem essas associações. A deterioração da rede de saúde, argumentam, é consequência direta de décadas de reformas desconectadas da realidade e de cortes sucessivos de recursos, e não da chegada de novos moradores.
O argumento mais forte do texto é também o mais cuidadosamente formulado. Os médicos afirmam que os recém-chegados provavelmente dão mais ao sistema do que tiram dele, e sustentam a tese com o peso dos imigrantes na força de trabalho da saúde: médicos, enfermeiras, préposés aux bénéficiaires (cuidadores de pacientes), farmacêuticos e fisioterapeutas. Se essas pessoas deixassem a rede, ou se não houvesse quem as substituísse no futuro, o sistema, já frágil, desmoronaria.
“Contribuem muito provavelmente mais ao nosso sistema de saúde do que o utilizam.”
Carta de mais de 550 médicos quebequenses · La Presse, setembro de 2026 (tradução livre)
Há ainda um trecho de testemunho clínico que dá à carta um peso diferente do de um manifesto político. Os signatários relatam comentários abertamente racistas ouvidos durante consultas, insultos dirigidos a recepcionistas e pacientes que se recusam a ser atendidos por médicos residentes por causa da aparência. Na leitura do grupo, o tom adotado pelos líderes políticos não cria esses comportamentos, mas contribui para normalizá-los.
A imigração no centro da disputa eleitoral
A carta dos médicos não surge no vácuo. No terceiro dia de campanha, em 29 de agosto, o líder do PQ, Paul St-Pierre Plamondon, apresentou seu plano migratório diante de uma escola secundária na cidade de Quebec com 24 salas modulares e afirmou que o prédio transbordava por causa do número de alunos vindos da imigração, conforme relatou o Le Devoir3. A escolha do cenário provocou reação imediata dos adversários.
As propostas dos partidos, sistematizadas pela La Presse4, mostram o tamanho da divergência. O PQ limitaria a imigração permanente a 35 mil pessoas por ano, cerca de 10 mil a menos que o patamar atual, e cortaria pela metade a imigração temporária. O Parti Libéral (PLQ) trabalha com uma faixa de 45 mil a 70 mil admissões permanentes, e o Québec Solidaire (QS) propõe elevar o teto para 70 mil e restabelecer integralmente o Programa de Experiência Quebequense (PEQ).
Questionado neste domingo sobre a carta, St-Pierre Plamondon minimizou o episódio. Segundo o Le Devoir2, ele enquadrou a iniciativa entre as intervenções de grupos de interesse típicas do fim de campanha e afirmou que, entre os médicos, ao menos 500 votariam com o QS e outros 500 com o PQ na questão migratória, sem apresentar evidências dessa estimativa.
O movimento médico também não é isolado. Em agosto, entidades empresariais, entre elas a Federação das Câmaras de Comércio de Quebec, já haviam publicado na La Presse5 um apelo para que os partidos deixassem de tratar a imigração econômica como instrumento de disputa partidária.
O que os dados mostram
A dependência que os médicos descrevem é documentada. Um estudo da Statistique Canada6 baseado no Censo de 2021 mostra que 44,8% dos auxiliares de enfermagem, auxiliares de saúde e préposés aux bénéficiaires do país eram imigrantes, a maior proporção entre as profissões de saúde analisadas. Entre os trabalhadores de 25 a 34 anos nessas funções, imigrantes recentes e residentes temporários somavam 23,8%, o que indica que a renovação dessa força de trabalho já depende de quem acabou de chegar.
O mesmo levantamento revela um dado incômodo: 47,1% dos imigrantes recentes que trabalhavam como auxiliares ou préposés tinham diploma universitário, contra 6,3% dos trabalhadores nascidos no Canadá nas mesmas funções6. Em outras palavras, parte da mão de obra que sustenta os cuidados de longa duração é formada por profissionais qualificados que não conseguem exercer a função para a qual estudaram.
Um documento preparado pelo Ministério da Imigração do Canadá (IRCC)7 para o Parlamento, em novembro de 2025, estima que imigrantes permanentes e temporários representavam cerca de um terço dos trabalhadores do setor de saúde em 2024, com presença especialmente marcada entre auxiliares de enfermagem e préposés, farmacêuticos e enfermeiros auxiliares.
A pandemia tornou essa realidade visível. Em 2020, solicitantes de refúgio que trabalhavam nas residências de longa permanência (CHSLD) ganharam o apelido de “anjos da guarda”. O governo federal criou em dezembro daquele ano uma via especial de residência permanente para eles, e, até maio de 2021, havia recebido 3.825 pedidos, envolvendo 8.850 pessoas, segundo o IRCC8.
Sobre o outro lado da equação, o uso dos serviços, a pesquisa canadense descreve o chamado efeito do imigrante saudável. Estudos da Statistique Canada9 indicam que os imigrantes chegam, em média, com saúde melhor que a da população nascida no país, em parte por causa da seleção médica exigida no processo migratório. A mesma literatura, porém, mostra que essa vantagem diminui com o tempo de residência.
O que a carta não resolve
- Contribuir não anula a pressão. Os defensores de cortes argumentam que a questão não é se imigrantes trabalham na saúde, mas se o ritmo de crescimento populacional, puxado pela imigração temporária, supera a capacidade de expansão de escolas, moradia e atendimento. O PQ sustenta que essa capacidade foi amplamente ultrapassada, segundo a revista L’actualité10.
- A opinião pública pende para a redução. St-Pierre Plamondon cita sondagem Léger segundo a qual 83% dos quebequenses rejeitam aumentar os limites de imigração e 52% defendem reduzi-los. Uma política migratória restritiva, portanto, não é posição marginal no eleitorado.
- A tese central é uma estimativa. A própria carta usa a expressão “muito provavelmente” ao afirmar que imigrantes contribuem mais do que usam. Não há, no texto, um cálculo de balanço entre contribuição e uso, e o efeito do imigrante saudável se dissipa com os anos.
- A dependência também é um problema de política pública. Uma leitura crítica, vinda de outro ângulo, observa que depender de profissionais sobrequalificados em funções mal remuneradas reflete falhas no reconhecimento de diplomas e nas condições de trabalho, e não apenas a generosidade de quem chega.
O espelho brasileiro
O Brasil conhece de perto o custo de retirar abruptamente profissionais estrangeiros de um sistema público de saúde. Em novembro de 2018, Cuba encerrou sua participação no Programa Mais Médicos após declarações do então presidente eleito. Levantamento do Conasems, divulgado pela Agência Brasil11, apontou que ao menos 285 municípios e 36 distritos sanitários indígenas ficaram sem médico em equipes de saúde da família.
Uma pesquisa recente da FGV EAESP12 analisou dados mensais de milhares de municípios entre 2017 e 2019 e encontrou queda nas consultas para doenças crônicas, que exigem acompanhamento contínuo. O estudo não identificou aumento de internações ou mortes no curto prazo, já que os serviços se reorganizaram priorizando urgências. O resultado é instrutivo para Quebec: o dano de uma saída em massa não aparece necessariamente no pronto-socorro, mas na atenção primária que deixa de acontecer.
O paralelo tem limites. O Mais Médicos era um programa de cooperação internacional com médicos contratados via Organização Pan-Americana da Saúde, enquanto o debate quebequense trata de fluxos migratórios amplos. Mas a lógica é a mesma: quando a força de trabalho estrangeira ocupa lacunas estruturais, discuti-la apenas como custo ignora a pergunta sobre quem a substituiria. Para os brasileiros que consideram Quebec como destino, inclusive profissionais de saúde, o resultado de 5 de outubro também definirá as regras de entrada nos próximos anos.
Por que isso importa
A carta dos médicos tem o mérito de deslocar a discussão do volume para a composição. A Federação dos Médicos Omnipraticantes de Quebec (FMOQ) estima que faltam mais de 2 mil médicos de família na província, segundo o Le Devoir13. Qualquer plano de redução dos fluxos migratórios precisará explicar como essa lacuna, e a das funções de cuidado de longa duração, será preenchida.
Do outro lado, os defensores de limites mais baixos têm razão ao lembrar que a capacidade de acolhimento não é infinita e que o eleitorado quebequense demonstra desconforto com o ritmo recente. O ponto em que os dois campos raramente se encontram é justamente o mais técnico: seleção por perfil profissional, reconhecimento de diplomas e integração. É ali, e não na disputa sobre quem é culpado pela crise, que a próxima legislatura terá de trabalhar.
Perguntas frequentes
O que pede a carta dos médicos publicada na La Presse?
Mais de 550 médicos de Quebec pedem que os políticos parem de atribuir à imigração as falhas crônicas dos serviços públicos, argumentando que imigrantes e solicitantes de refúgio são indispensáveis para o funcionamento do sistema de saúde.
Qual é o peso dos imigrantes no sistema de saúde do Canadá?
Segundo a Statistique Canada, 44,8% dos auxiliares de enfermagem, auxiliares de saúde e préposés aux bénéficiaires eram imigrantes em 2021. Para o IRCC, imigrantes permanentes e temporários eram cerca de um terço dos trabalhadores do setor em 2024.
O que propõe o Parti Québécois sobre imigração?
Limitar a imigração permanente a 35 mil pessoas por ano e reduzir pela metade a imigração temporária, sob o argumento de que a capacidade de acolhimento da província foi ultrapassada.
Imigrantes usam mais o sistema de saúde?
A literatura sobre o efeito do imigrante saudável indica que recém-chegados tendem a ter saúde melhor e uso igual ou menor dos serviços, mas essa vantagem diminui com o tempo de residência.
Existe um paralelo brasileiro?
Sim. A saída dos médicos cubanos do Mais Médicos, em 2018, deixou 285 municípios sem médico nas equipes de saúde da família, e estudo da FGV EAESP identificou queda nas consultas para doenças crônicas.
Este artigo tem como ponto de partida a carta aberta “Sans immigration, tout s’écroule en santé”, assinada pelas médicas Sophie Zhang e Andrée-Anne Duchesneau e por cerca de 570 colegas, publicada pelo jornal La Presse. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido integralmente; as ideias foram resumidas e contextualizadas com fontes independentes. Todos os direitos do texto original pertencem à La Presse.