Uma equipe internacional de astrônomos concluiu o maior mapa bidimensional já produzido do céu, um retrato digital com 5,6 trilhões de pixels que reúne cerca de 4 bilhões de objetos celestes, entre estrelas, galáxias, buracos negros e asteroides. A nova versão do levantamento, batizada de DESI Legacy Imaging Surveys DR11, cobre aproximadamente 75% de toda a esfera celeste e está disponível gratuitamente para qualquer pessoa explorar pela internet1.

O projeto é conduzido pelo Dark Energy Spectroscopic Instrument (DESI), instalado no telescópio Nicholas U. Mayall, no Observatório Nacional de Kitt Peak, no deserto do Arizona. Embora este novo mapa tenha levado cinco anos para ficar pronto, ele se apoia em outros 13 anos de observações anteriores e no trabalho de mais de 160 cientistas, que já publicaram acima de 1.800 artigos científicos usando esses dados1.

"Quando você está trabalhando com objetos astronômicos hoje, geralmente começa abrindo o Legacy Imaging Viewer para ver o que está observando", afirmou David Schlegel, pesquisador do Lawrence Berkeley National Laboratory e um dos coordenadores do levantamento1.

O que muda na 11ª versão do mapa

Diferente das dez edições anteriores, que dependiam exclusivamente de processadores convencionais (CPUs), a construção da DR11 utilizou pela primeira vez processamento em placas gráficas (GPUs) no supercomputador Perlmutter, do Centro Nacional de Pesquisa Científica em Energia (NERSC), ligado ao Departamento de Energia dos Estados Unidos. Segundo o próprio NERSC, foram consumidas cerca de 100 mil horas de nó de GPU e 15 mil horas de nó de CPU para reduzir mais de 263 mil exposições de telescópio em um único mosaico coerente23.

O resultado final ultrapassa 120 terabytes de produtos de dados, envolvendo a fusão de imagens obtidas em 2.285 noites distintas, cada uma com condições atmosféricas próprias que precisaram ser calibradas separadamente2.

Um mapa que serve de bússola para outros telescópios

Tecnicamente, o levantamento funciona como uma fotografia profunda do céu: ele registra a posição e o brilho de bilhões de fontes de luz, mas não mede diretamente a distância de cada objeto. Essa etapa fica a cargo do próprio instrumento DESI, que usa 5 mil sensores de fibra óptica para captar o espectro de luz de milhões de galáxias e calcular a que distância elas estão, permitindo reconstruir a estrutura tridimensional do cosmos3.

Essa combinação já rendeu um marco anterior: em abril deste ano, o DESI concluiu seu levantamento original de cinco anos com um catálogo de mais de 47 milhões de galáxias e quasares, muito acima da meta inicial de 34 milhões, além de 20 milhões de estrelas da Via Láctea45. Esse mapa tridimensional cobre 11 bilhões de anos de história cósmica e é usado para investigar como a energia escura, a força que acelera a expansão do universo, se comportou ao longo do tempo.

A nova imagem 2D da DR11 seleciona os alvos que o DESI observa em detalhe e também deve orientar outros grandes projetos que estão surgindo, como o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, da Nasa, recém lançado, e o Observatório Vera C. Rubin, que iniciará seu próprio levantamento de céu profundo nos próximos anos16.

A pista de que a energia escura pode não ser constante

Um dos motivadores centrais desse esforço é o modelo cosmológico padrão, conhecido como Lambda CDM, que trata a energia escura como uma constante responsável por acelerar de forma uniforme a expansão do universo. Análises publicadas ao longo de 2025 e 2026 combinando os três primeiros anos de dados do DESI com observações de supernovas e da radiação cósmica de fundo indicaram algo diferente: sinais de que essa força pode estar perdendo intensidade com o passar do tempo17.

Esse trabalho, aliás, rendeu à colaboração DESI o prêmio Lancelot M. Berkeley de 2026, concedido pela Sociedade Astronômica Americana, reconhecendo dois artigos que analisaram oscilações acústicas de bárions a partir de observações de mais de 14 milhões de galáxias e quasares8.

Contraponto

Nem todos os cosmólogos tratam essa hipótese como definitiva. Parte da comunidade científica lembra que os indícios de uma energia escura variável ainda dependem de combinações estatísticas entre conjuntos de dados diferentes, cada um com suas próprias fontes de incerteza sistemática, e que resultados semelhantes já surgiram e depois perderam força em ciclos anteriores da cosmologia observacional. A própria colaboração DESI é cautelosa quanto a isso: a análise definitiva, usando os cinco anos completos de observações, só deve ser publicada em 2027, justamente para reduzir o risco de uma conclusão precipitada baseada em amostras parciais1.

Ciência aberta: qualquer pessoa pode navegar pelo céu

Um dos aspectos mais celebrados por astrônomos é o caráter público do levantamento. Os dados podem ser acessados pelo visualizador on-line Legacy Survey Sky Viewer, que permite ampliar imagens de galáxias distantes, aglomerados e nebulosas com o mesmo material bruto usado pelos pesquisadores profissionais29.

"As explorações do nosso universo sempre começam com imagens do céu noturno. Esses dados são fundamentais para investigar a história de expansão do universo e a formação da nossa galáxia. Mas o céu pertence a todos, e este levantamento dá a qualquer pessoa a chance de se maravilhar com suas belezas", disse Arjun Day, codiretor dos Legacy Surveys e astrônomo da National Science Foundation dos Estados Unidos1.

O que vem a seguir

Os próximos passos da colaboração incluem treinar ferramentas de inteligência artificial para acelerar a análise do volume de dados em escala de petabytes, já que boa parte desse material segue inexplorado. A expectativa é que a análise cosmológica completa dos cinco anos de operação do DESI, prevista para 2027, ofereça o retrato mais detalhado já obtido sobre o passado e o presente do universo14.

Perguntas frequentes

O que é o DESI Legacy Imaging Surveys?

É um levantamento fotográfico do céu em luz visível e infravermelho próximo, usado para selecionar os alvos observados pelo Dark Energy Spectroscopic Instrument (DESI), instrumento dedicado a estudar a energia escura.

Qual o tamanho do novo mapa divulgado?

O mapa tem 5,6 trilhões de pixels, cobre cerca de 75% do céu e cataloga aproximadamente 4 bilhões de objetos celestes.

Qualquer pessoa pode acessar o mapa?

Sim. Os dados são públicos e podem ser explorados gratuitamente pelo visualizador on-line Legacy Survey Sky Viewer.

O que essa pesquisa tem a ver com a energia escura?

Dados relacionados ao mesmo projeto indicam que a energia escura, força que acelera a expansão do universo, pode não ser constante ao longo do tempo, o que desafiaria o modelo cosmológico padrão.

Quando sairão os resultados definitivos do DESI sobre energia escura?

A colaboração prevê publicar a análise completa dos cinco anos de dados em 2027, com observações seguindo até 2028.

Referências

  1. WIRED. Astronomers Have Completed the Largest Map of Space. Yes, You Can Play With It. Disponível em: https://www.wired.com/story/astronomers-complete-largest-map-of-space-yes-you-can-play-with-it/
  2. Berkeley Lab News Center. Scientists Release Biggest 2D Map of the Universe.
  3. NERSC. Scientists Release Biggest 2D Map of the Universe.
  4. O Cafezinho. DESI conclui maior mapa tridimensional do universo e desafia modelo padrão da energia escura.
  5. Correio Braziliense. As novas pistas sobre a misteriosa energia escura no maior mapa 3D já criado do universo.
  6. NOIRLab. Scientists Release Biggest 2D Map of the Universe.
  7. Olhar Digital. Mistério da energia escura ganha reviravolta.
  8. University of Portsmouth. DESI team wins prestigious 2026 Berkeley Prize.
  9. Universe Today; Phys.org. The DESI Legacy Imaging Survey Releases the Largest 2D Map of the Universe.

Ewerton Lopes — Curador Editorial