Caderno Política · Eleições 2026 · Análise

Em resumo

  • O primeiro turno da eleição presidencial acontece em 4 de outubro de 2026; um eventual segundo turno está marcado para 25 de outubro.
  • Pelo Datafolha de 22 e 23 de setembro, Lula tem 40% e Flávio Bolsonaro, 36% no primeiro turno; no segundo, 47% a 45%, empate técnico.
  • Os dois candidatos registram a mesma rejeição, 45%, o que transforma a disputa num voto contra tanto quanto num voto a favor.
  • O caso Banco Master alcançou a campanha de Flávio e o Supremo Tribunal Federal, ampliando a desconfiança nas instituições.
  • Imprensa e centros de análise estrangeiros veem na eleição um teste para a democracia brasileira, para a influência dos EUA na região e para o futuro da Amazônia.

Faltam três dias para o primeiro turno, e a eleição presidencial brasileira chega à reta final com uma combinação rara: a escolha entre os dois principais candidatos é nítida, mas o desfecho continua imprevisível. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva, 80 anos, do PT, tenta um quarto mandato. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro, do PL, filho mais velho e herdeiro político de Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos por tentativa de golpe de Estado após a derrota de 2022.

A disputa deixou de ser um assunto doméstico. Em editorial publicado em 30 de setembro, o britânico The Guardian sustentou que a decisão dos eleitores brasileiros "afetará todos nós"[1]. O argumento do jornal passa por três eixos que também aparecem em análises de outros centros: a saúde das instituições democráticas, a relação com os Estados Unidos de Donald Trump e o destino da floresta amazônica. Vale examinar cada um com dados próprios, e com as ressalvas que um editorial estrangeiro, por definição opinativo, não precisa fazer.

Um empate que os números não desatam

A série do Datafolha mostra um movimento lento, mas consistente. Em julho, Lula tinha oito pontos de vantagem no primeiro turno. No fim de setembro, a diferença caiu para quatro. Na pesquisa realizada em 22 e 23 de setembro, com 2.002 entrevistas e margem de erro de dois pontos, o presidente aparece com 40% e o senador com 36%; na simulação de segundo turno, o placar de 47% a 45% configura empate técnico[2]. Os dois também aparecem empatados na rejeição, com 45% cada.

45% 40% 35% 30% 25% 22-23 jul18-20 ago1-2 set8-10 set15-16 set22-23 set 4036 4032 Lula (PT) Flávio Bolsonaro (PL)
Intenção de voto estimulada no primeiro turno, em %. Fonte: Datafolha (contratação Folha de S.Paulo e TV Globo), pesquisas presenciais com cerca de 2.000 entrevistas e margem de erro de 2 pontos. Elaboração: O Tecido.

Há duas leituras possíveis para esse quadro, e ambas são relevantes. A primeira é que Flávio consolidou o eleitorado do pai mais rápido do que se previa: segundo reportagem da Americas Quarterly, ainda em abril o Datafolha lhe atribuía 48% do voto evangélico, segmento que representa cerca de 30% do eleitorado[4]. A segunda é que a soma dos candidatos de centro e de direita, como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), tende a migrar majoritariamente para o senador num eventual segundo turno, o que relativiza a liderança de Lula no primeiro.

A memória de 2022 também pesa. Naquele ano, Lula venceu por 50,9% a 49,1%, depois de as pesquisas terem subestimado o voto em Jair Bolsonaro, lembra o diretor do programa de América Latina da Chatham House, Christopher Sabatini[3]. Margens tão estreitas tornam qualquer previsão frágil.

O peso do caso Banco Master

Até o primeiro semestre, o principal desafio de Lula parecia ser a economia: crescimento em desaceleração, frustração com a renda e a segurança pública no topo das preocupações. O escândalo do Banco Master, liquidado pelo Banco Central sob suspeita de fraudes que deixaram um rombo estimado em R$ 52 bilhões, mudou o eixo da campanha[5].

O caso atingiu os dois lados do tabuleiro. Em maio, conforme relatou o Guardian, Flávio Bolsonaro foi gravado pedindo ao ex-controlador do banco, Daniel Vorcaro, quase US$ 27 milhões para financiar um filme sobre o pai; o senador nega irregularidades[1]. A Agência Pública registrou que relatórios do Coaf apontam uma transferência de US$ 1,6 milhão de Vorcaro, em setembro de 2025, ao fundo que administra o orçamento da produção[5].

Em setembro, o escândalo chegou ao Supremo Tribunal Federal. O ministro André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal com mensagens atribuídas a Vorcaro e endereçadas, segundo os investigadores, ao ministro Alexandre de Moraes, relator do processo que condenou Jair Bolsonaro, e liberou o material para análise do plenário[6]. Moraes nega ter mantido a conversa, e o tribunal informou que as mensagens estariam associadas a outros contatos da agenda do banqueiro. A apuração segue em aberto.

O efeito político é ambíguo. O episódio alimenta a percepção de que "todos são iguais", sentimento que costuma beneficiar quem desafia o governo. E fornece munição à tese bolsonarista, sem respaldo nas provas do processo, de que a condenação de Jair Bolsonaro teria sido armada.

Quando a maioria rejeita os dois favoritos, a eleição deixa de ser uma escolha de projeto e passa a ser um cálculo sobre quem o eleitor teme mais.Análise O Tecido

Instituições sob estresse: urna, Supremo e confiança do eleitor

A pergunta que mais preocupa observadores estrangeiros não é quem vence, mas se o resultado será aceito. Flávio afirmou publicamente que respeitará o desfecho das urnas. Ao mesmo tempo, promete anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023 e a libertação do pai[3]. O Guardian observa que anos de ataques da família ao sistema eletrônico de votação tornam provável a contestação de uma vitória apertada de Lula[1].

Os dados de opinião pública confirmam a fratura. Levantamento da Chatham House com a Convergent Opinion indica que apenas 45% dos eleitores de Jair Bolsonaro em 2022 confiam que a eleição deste ano estará livre de interferência política, contra 78% dos eleitores de Lula[3]. Em escala mais ampla, o Pew Research Center mostra que só 37% dos brasileiros estão satisfeitos com o funcionamento da democracia, ante 66% em 2013[7].

Há ainda a disputa pelo próprio Supremo. Segundo o Guardian, Flávio se comprometeu a indicar ministros conservadores e contrários ao aborto, que teriam papel decisivo em futuras disputas eleitorais[1]. No campo econômico, o senador tem falado em privatizações, corte de gastos e redução de impostos, ainda sem detalhamento, conforme a Americas Quarterly[4].

Washington no palanque

Poucas eleições brasileiras tiveram a política externa tão presente na campanha. Em julho, os Estados Unidos impuseram novas tarifas de 25% sobre parte dos produtos brasileiros; no mesmo mês, o governo negou vistos a dois enviados americanos sob a acusação de que pretendiam interferir no pleito. A Casa Branca respondeu revogando o visto do embaixador brasileiro em Washington[3]. Na Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, Lula alertou contra ingerência estrangeira na eleição.

Para o Guardian, a pressão americana muitas vezes saiu pela culatra, ao permitir que Lula se apresentasse como defensor da soberania nacional[1]. A Chatham House acrescenta que uma vitória de Flávio ampliaria o grupo de governos sul-americanos alinhados a Trump e provavelmente reduziria o papel do Brasil no BRICS e em fóruns multilaterais como G20 e COP[3].

Amazônia: o eleitor global que não vota

É no clima que o argumento de que a eleição "afeta todos" ganha contornos mensuráveis. Durante o governo Bolsonaro, o desmatamento na Amazônia atingiu o pico recente de 13.038 km² em 2021. Desde então, a taxa caiu por quatro anos seguidos, até 5.796 km² no ciclo encerrado em julho de 2025, o menor patamar em 11 anos segundo o Prodes/Inpe[8].

202113.038 km² 20246.518 km² 20255.796 km²
Taxa anual de desmatamento na Amazônia Legal (ciclos de agosto a julho). Fonte: Prodes/Inpe. Elaboração: O Tecido.

A queda tem múltiplas causas, incluindo fiscalização reforçada e programas com municípios prioritários, e não é garantida por nenhum governo. Mas a direção da política ambiental depende, em grande parte, de quem ocupa o Planalto. A floresta funciona como estoque de carbono de interesse planetário, e é por isso que governos e investidores estrangeiros acompanham a apuração de domingo com atenção.

O que observar no domingo

Três sinais vão ajudar a ler a noite de 4 de outubro. O primeiro é a distância entre Lula e Flávio: uma vantagem pequena do presidente pode não bastar diante da provável transferência de votos dos candidatos de direita no segundo turno. O segundo é o comportamento das lideranças derrotadas e do Centrão, bloco que controla a maioria da Câmara e ainda não se comprometeu com nenhum dos lados. O terceiro, e mais importante para a estabilidade democrática, é o tom dos discursos após a divulgação do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Com 13 candidatos na disputa e dois deles concentrando quase 80% das intenções de voto, o Brasil repete um padrão regional: Peru e Colômbia também tiveram segundos turnos apertados neste ano[3]. A diferença é de escala. O que for decidido aqui terá reflexos na maior democracia da América Latina, na décima maior economia do mundo e na maior floresta tropical do planeta.

Perguntas frequentes

Quando acontece a eleição presidencial de 2026?

O primeiro turno é no domingo, 4 de outubro de 2026. Se nenhum candidato obtiver maioria dos votos válidos, o segundo turno será em 25 de outubro.

Quem lidera as pesquisas?

No Datafolha de 22 e 23 de setembro, Lula tem 40% e Flávio Bolsonaro, 36% no primeiro turno. No segundo, 47% a 45%, empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos.

O que é o caso Banco Master?

Investigação sobre fraudes no banco liquidado pelo Banco Central e sobre as relações de seu ex-controlador, Daniel Vorcaro, com políticos e magistrados. O caso atingiu a campanha de Flávio Bolsonaro e o STF.

Por que a imprensa estrangeira acompanha a eleição?

Porque o resultado afeta o alinhamento do Brasil com os EUA, seu papel no BRICS e em fóruns multilaterais e a proteção da Amazônia, com efeitos sobre o clima global.

Flávio Bolsonaro prometeu aceitar o resultado?

Sim, publicamente. Ao mesmo tempo, defende anistia aos condenados pelo 8 de janeiro e a libertação do pai, condenado por tentativa de golpe.

Este artigo tomou como ponto de partida o editorial "The Guardian view on Lula v the Bolsonaros: the decision of Brazilian voters will affect us all", publicado pelo The Guardian em 30 de setembro de 2026. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido; as referências a ele estão creditadas ao longo do texto e a análise foi complementada com fontes independentes e dados de instituições brasileiras.