Enquanto o desemprego brasileiro atinge o menor patamar da série histórica do IBGE, bancos somam lucros bilionários e eliminam milhares de postos de trabalho. Os números mostram que a inteligência artificial ainda está longe de comandar esses cortes — mas já entra, cada vez mais, na conta.
Em fevereiro deste ano, o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região divulgou um número que soa contraditório à primeira vista: em 2025, ano em que o mercado de trabalho brasileiro criou 1,28 milhão de empregos formais e o desemprego caiu ao menor nível da série histórica do IBGE, os bancos eliminaram 8.910 postos de trabalho no país[2][3]. Não foi um acidente isolado. Desde 2020, o setor já fechou cerca de 26 mil vagas, mesmo acumulando lucros bilionários trimestre após trimestre[3]. É a versão brasileira de um fenômeno que hoje atravessa bancos, telecomunicações e empresas de tecnologia em todo o mundo: companhias batendo recordes de faturamento ao mesmo tempo em que reduzem suas equipes — e a inteligência artificial, sendo a explicação mais fácil de dar à imprensa, nem sempre é a verdadeira.
A coincidência de calendário chama atenção. No mesmo mês em que o Dieese publicava o balanço do emprego bancário de 2025, o IBGE anunciava que a taxa de desocupação havia recuado a 5,1% no trimestre encerrado em dezembro — o menor nível desde o início da série histórica da PNAD Contínua, em 2012[2]. O país tinha, então, 103 milhões de pessoas ocupadas e um contingente recorde de 38,9 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado[2]. Ao longo de 2026, esse patamar seguiu se confirmando: em janeiro, o indicador chegou a 5,4%, o menor para o mês em 14 anos; em maio, 5,6%[9][10]. O mercado de trabalho brasileiro, em outras palavras, nunca esteve tão aquecido — exceto dentro dos bancos.
O contraste é ainda mais nítido quando se olha para dentro do setor. Itaú, Santander e Bradesco — os três maiores bancos privados do país — registraram lucro conjunto de R$ 87 bilhões em 2025, alta de 16,4% em relação a 2024[3]. Ainda assim, segundo dados apresentados pelo Comando Nacional dos Bancários em julho de 2026, somente no último ano encerrado em maio, o Santander eliminou 6.196 postos de trabalho, o Itaú 4.620, o Bradesco 3.017 e o Banco do Brasil 1.498 — um total de 15.331 vagas fechadas por apenas quatro instituições[4]. Em perspectiva mais longa, entre janeiro de 2015 e maio de 2026, o setor bancário reduziu seus postos de trabalho em cerca de 93,3 mil, ao mesmo tempo em que encolheu em 42% sua rede de agências físicas[4]. A Caixa Econômica Federal foi a única exceção relevante: gerou 1.185 empregos líquidos em 2025, amenizando o saldo negativo do setor como um todo[3].
Essa reestruturação também não é neutra do ponto de vista social: dados do movimento sindical mostram que, entre 2020 e maio de 2026, mulheres ocuparam 79% dos postos eliminados no setor, o que reduziu sua participação na categoria bancária de 49% para menos de 47% entre 2024 e 2025[4]. O episódio mais visível dessa onda foi o corte promovido pelo Itaú em setembro de 2025, que gerou forte mobilização sindical, com denúncias de falta de diálogo prévio e sobrecarga sobre os funcionários remanescentes — um movimento que, segundo relatos de trabalhadores, voltou a se intensificar no início de 2026[6].
A tese europeia: cortar para depois investir em IA
O pano de fundo internacional para esse tipo de contradição foi bem descrito pelo jornal El País, em sua editoria de economia Cinco Días: grandes empresas de setores como bancos, telecomunicações e tecnologia estão reduzindo quadros não porque a inteligência artificial já tenha substituído funções em escala, mas porque precisam "ficar mais leves" financeiramente diante dos investimentos bilionários que a adoção da IA vai exigir nos próximos anos[1]. O argumento central da reportagem é que a implantação efetiva de sistemas realmente "pensantes" mal começou fora das companhias genuinamente tecnológicas — o que está em curso, hoje, é a digitalização acumulada de décadas, somada à pressão dos mercados por disciplina de custos[1].
Os exemplos citados pelo El País ajudam a entender a escala do fenômeno na Europa e nos Estados Unidos. O Santander espanhol fechou um plano de prejubilações que pode envolver até 5.000 dos 35.000 funcionários do banco no país, com condições generosas — entre 74% e 76% do salário para quem tem 55 anos ou mais[1]. A Telefónica, que tinha 290 mil funcionários no mundo há 15 anos, hoje soma pouco mais de 82 mil, após sucessivos planos de demissão; o mais recente, na Espanha, custou cerca de € 454 mil por funcionário desligado, mas deve gerar economia de € 600 milhões anuais a partir de 2028[1]. No setor automotivo, a Volkswagen projeta 100 mil demissões globais e o fechamento de quatro fábricas na Alemanha, movida menos pela IA do que pela transição para o carro elétrico e pela concorrência chinesa[1].
Contraponto — a IA como bode expiatório?
Nem todos os analistas aceitam a narrativa de que a inteligência artificial é apenas um pretexto contábil. A consultoria americana Challenger, Gray & Christmas estima que cerca de 25% dos cortes no setor de tecnologia sejam diretamente atribuíveis à IA[1], e levantamentos do início de 2026 apontam que, das mais de 45 mil demissões registradas globalmente no setor apenas no primeiro trimestre, cerca de 9,2 mil (pouco mais de 20%) foram vinculadas explicitamente à adoção de ferramentas de automação[7]. Executivos como Jack Dorsey, da Block, chegaram a declarar publicamente que cortes recentes não tiveram motivação financeira, mas refletiram a crescente capacidade dos sistemas de IA de executar tarefas antes feitas por humanos[8]. Já Jensen Huang, da Nvidia, e Sam Altman, da OpenAI, minimizam o risco de um "apocalipse do emprego" e afirmam que a demanda por engenheiros segue alta[1]. O debate, portanto, segue em aberto: a IA já substitui gente hoje, ou continua sendo, majoritariamente, uma justificativa conveniente para decisões que têm outras causas?
No Brasil, a IA corporativa ainda engatinha
Se no exterior a proporção de cortes atribuíveis à automação já é mensurável, no Brasil o quadro sugere que a inteligência artificial pesa ainda menos nas decisões de corte de pessoal — simplesmente porque sua adoção corporativa segue incipiente. Segundo a pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br/NIC.br, divulgada em junho de 2026, o uso de IA nas empresas brasileiras cresceu de 13% em 2024 para 17% em 2025[5]. O avanço é mais expressivo entre as grandes empresas, onde a adoção saltou de 38% para 50% no mesmo período, mas entre as pequenas — que representam 87% do universo pesquisado — o índice ainda está em apenas 15%[5].
Outro levantamento, conduzido pela Abiacom em parceria com a Brazil Panels e divulgado em janeiro de 2026, reforça esse diagnóstico: 72% das empresas brasileiras ainda estão em estágio iniciante ou experimental de adoção de IA, com baixa maturidade estratégica[6]. Curiosamente, o uso informal da tecnologia — o chamado Shadow AI, quando funcionários recorrem a ferramentas de IA sem aprovação da empresa — já atinge 47,4% dos profissionais entrevistados, um indício de que a adoção "de baixo para cima" corre na frente da adoção estratégica das companhias[6]. Um retrato mais otimista, da pesquisa global da KPMG com a Universidade de Melbourne, mostra que 86% dos trabalhadores brasileiros afirmam que suas empresas já utilizam IA de alguma forma, e 71% notaram ganhos de eficiência — mas mesmo esse estudo trata do uso cotidiano da ferramenta, não da automação de funções inteiras[9].
O paralelo com o setor bancário brasileiro é revelador. Se a IA de fato comandasse as demissões no Itaú, no Santander Brasil ou no Bradesco, seria de esperar uma adoção tecnológica muito mais madura do que os 50% registrados até entre as grandes empresas do país[5]. O próprio presidente-executivo do Santander, Héctor Grisi, desvinculou publicamente o plano de prejubilações do banco na Espanha da implantação de inteligência artificial, classificando como "muito cedo" para calibrar esse impacto sobre o emprego[1] — uma cautela que se aplica, com ainda mais força, à realidade brasileira. O que explica os cortes bancários no Brasil, então, parece ser o mesmo mecanismo descrito pelo El País para a Europa: décadas de digitalização acumulada, fechamento de agências físicas, pressão de acionistas por disciplina de custos — e, cada vez mais, a necessidade de liberar caixa para financiar futuros investimentos em automação[1].
O que vem pela frente
Isso não significa que o risco seja irrelevante — apenas que ainda não se materializou em escala no país. Uma sondagem de meados de 2026 mostrou que, embora 55% das empresas planejem demissões, 92% também pretendem contratar, o que sugere reorganização de equipes mais do que redução líquida da força de trabalho[7]. As competências mais buscadas nesse novo ciclo passam justamente por familiaridade com ferramentas de IA, hoje citada por 31% das empresas como critério relevante de contratação[7]. Para o Brasil, isso projeta um cenário de dois tempos: no curto prazo, os cortes seguem respondendo majoritariamente a fatores estruturais — consolidação bancária, fechamento de agências, digitalização de processos —, mas a corrida por qualificação em IA já começou a redesenhar quem entra e quem sai das equipes, mesmo antes de a automação assumir tarefas inteiras.
A pergunta que fica, tanto na Europa quanto no Brasil, não é mais apenas se os empregos serão substituídos por máquinas, mas que tipo de emprego vai sobrar — e quem vai pagar, no curto prazo, a conta de uma transição que ainda está apenas começando.