Tecnologia · Resultados Corporativos

No último trimestre, quatro gigantes da tecnologia dos Estados Unidos somaram juntas mais de 160 bilhões de dólares em ganhos contábeis originados de participações acionárias em outras empresas de inteligência artificial. Alphabet, Amazon, Microsoft e Nvidia registraram esse valor na linha de "outras receitas" de seus balanços, impulsionados sobretudo pela valorização de fatias que mantêm na OpenAI, na Anthropic e na SpaceX. O fenômeno, que já provoca desconforto entre analistas de Wall Street, também chegou de forma indireta às carteiras de investidores brasileiros que compram BDRs dessas companhias na B3.

Os números aparecem em reportagem do Financial Times assinada por Ramsay Hodgson e Emily Herbert, que descreve como esses ganhos de papel, decorrentes da reavaliação contábil de participações societárias, têm distorcido a leitura tradicional dos balanços do setor justamente no momento em que investidores tentam medir a real saúde financeira do boom da inteligência artificial.

O que está por trás da linha de "outras receitas"

Diferentemente da receita operacional, que reflete vendas de produtos e serviços, a linha de "outras receitas" nos balanços dessas empresas capta, em grande parte, a variação no valor de mercado de investimentos em ações de terceiros. Quando uma companhia como o Google detém participação em uma startup de IA e essa startup se valoriza, a diferença entra no resultado contábil mesmo que nenhum dinheiro tenha efetivamente trocado de mãos.

De acordo com a reportagem do Financial Times, a receita de outras fontes da Alphabet mais que dobrou para 97,9 bilhões de dólares no trimestre encerrado em 30 de junho, na comparação com os três meses anteriores. Na Amazon, o valor mais que triplicou, para 53,4 bilhões de dólares. A Nvidia, que detém uma carteira relevante de participações acionárias, revelou possuir cerca de 123 milhões de ações da SpaceX ao fim de junho e reportou 7,7 bilhões de dólares em outras receitas no período seguinte, valor inferior ao trimestre anterior, quando a empresa havia registrado ganhos expressivos com ações da Intel.

"A pergunta que fica é se o crescimento que essas empresas reportam vem de demanda real ou se é, de alguma forma, enganoso." Ben Snider, estrategista-chefe de ações dos EUA no Goldman Sachs, à Financial Times

Esse tipo de análise já vinha aparecendo em outras publicações internacionais. Levantamento da consultoria S&P Capital IQ mostra que a receita combinada de "outra renda" reportada por Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft e Nvidia saltou de valores próximos de zero, entre 2016 e 2024, para mais de 160 bilhões de dólares no trimestre mais recente, um salto abrupto que coincide com o boom de investimentos cruzados entre big techs e startups de IA.

A circularidade que preocupa analistas

O termo "circularidade" tem sido usado com frequência crescente para descrever a rede de investimentos entre gigantes da tecnologia e as startups de inteligência artificial que elas mesmas financiam, e que depois compram capacidade computacional dessas mesmas gigantes. Segundo dados compilados por veículos financeiros brasileiros, as chamadas Sete Magníficas somaram 315,6 bilhões de dólares em lucro líquido no segundo trimestre deste ano, dos quais 42% vieram de ganhos com investimentos, e não das operações centrais dos negócios2. Sem esses ganhos contábeis, o lucro agregado do grupo praticamente não teria crescido em relação ao trimestre anterior.

Um caso emblemático é o da própria Alphabet. A participação da empresa na SpaceX, iniciada com um investimento de 900 milhões de dólares em 2015, foi reavaliada para cerca de 94 bilhões de dólares após a abertura de capital da companhia de Elon Musk em junho deste ano, respondendo pela maior parte dos quase 99 bilhões de dólares em ganhos não realizados que ajudaram a elevar o lucro líquido trimestral da controladora do Google a 112,1 bilhões de dólares3. Na Amazon, cerca de 53 bilhões de dólares dos 63 bilhões em lucro líquido do trimestre vieram de um ganho não caixa relacionado à sua participação na Anthropic3.

EmpresaOutras receitas (trimestre)Origem principal
AlphabetUS$ 97,9 biParticipação na SpaceX
AmazonUS$ 53,4 biParticipação na Anthropic
NvidiaUS$ 7,7 biParticipação na SpaceX

Contraponto

Nem todos os analistas veem o fenômeno como um sinal de alerta. Para parte do mercado, essas participações representam apostas estratégicas de longo prazo em tecnologias centrais para o próprio negócio das big techs, e sua valorização reflete o crescimento real do setor de IA, não uma manipulação contábil. A Nvidia, por exemplo, segue reportando a maior parte do seu lucro a partir de receita operacional genuína: no trimestre fiscal mais recente, a empresa faturou 81,6 bilhões de dólares em vendas, com margem bruta não contábil de 75%, resultado descolado dos ganhos com participações societárias5. A discussão, portanto, é menos sobre a legitimidade dos investimentos e mais sobre a necessidade de investidores separarem o resultado operacional do ganho contábil ao avaliar a saúde de cada empresa.

O que isso significa para o investidor brasileiro

O debate pode parecer distante da realidade brasileira, mas não é. Alphabet, Amazon, Microsoft e Nvidia estão entre os BDRs (Brazilian Depositary Receipts) mais negociados na B3, o que significa que investidores brasileiros que compram esses recibos também ficam expostos à volatilidade gerada por ganhos contábeis não realizados6. A própria SpaceX passou a ter recibo negociado na Bolsa brasileira, sob o ticker SPCX34, desde sua estreia simultânea em Wall Street em junho deste ano7.

No campo regulatório, o Brasil segue regras semelhantes às aplicadas nos Estados Unidos para esse tipo de contabilização. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tornou obrigatório, para companhias abertas brasileiras, o Pronunciamento Técnico CPC 48, equivalente à norma internacional IFRS 9, que trata da mensuração de instrumentos financeiros a valor justo8. Assim como ocorre com as big techs americanas, empresas brasileiras que mantêm participações societárias relevantes também precisam reconhecer, em seu resultado, as variações de valor justo desses ativos, mesmo antes de qualquer venda efetiva. A diferença está na escala: nenhuma companhia listada na B3 opera hoje com uma carteira de participações em startups de IA equivalente à das gigantes americanas.

Por que isso importa agora

Para quem acompanha o mercado de tecnologia, entender essa distinção entre lucro operacional e ganho contábil deixou de ser um detalhe técnico e passou a ser essencial. Relatórios trimestrais que misturam receita de produtos e serviços com reavaliações de participações societárias podem inflar temporariamente a percepção de solidez financeira de uma empresa, algo que ganha peso especial em um momento de forte especulação em torno da inteligência artificial e de comparações frequentes com bolhas de mercado anteriores.

Perguntas frequentes

O que são as "outras receitas" nos balanços das big techs?

É uma linha contábil que registra, entre outros itens, ganhos ou perdas não realizados com a valorização de participações acionárias que a empresa mantém em outras companhias. Não envolve necessariamente entrada de caixa.

Quanto as big techs ganharam com participações em IA no último trimestre?

Segundo o Financial Times, mais de 160 bilhões de dólares somados entre Alphabet, Amazon, Microsoft e Nvidia, em grande parte relacionados a fatias na OpenAI, na Anthropic e na SpaceX.

Por que analistas chamam isso de "circularidade"?

Porque as mesmas empresas que investem em startups de IA costumam vender a essas startups capacidade computacional e serviços de nuvem, criando um ciclo em que parte da receita e do lucro do setor circula entre um número reduzido de participantes.

Investidores brasileiros de BDRs são afetados?

Sim, de forma indireta. Como o preço do BDR acompanha a cotação da ação original no exterior, oscilações causadas por ganhos ou perdas contábeis não realizados também se refletem no valor negociado na B3.

Existe regra equivalente no Brasil para esse tipo de contabilização?

Sim. O CPC 48, tornado obrigatório pela CVM para companhias abertas, segue a mesma lógica da norma internacional IFRS 9 e exige o registro de variações de valor justo de instrumentos patrimoniais no resultado da empresa.

Nota editorial: este artigo foi produzido a partir de reportagem original do Financial Times, "Big Tech profits get $160bn boost from gains on stakes in other AI companies", de autoria de Ramsay Hodgson e Emily Herbert, disponível em ft.com. O conteúdo foi reelaborado de forma original, com apuração e fontes adicionais, para o público brasileiro. Dados secundários citados a partir de terceiros, especialmente valores trimestrais específicos, devem ser verificados junto às fontes primárias antes da publicação final.