2 de setembro de 2026
O TecidoCaderno Livrosmaio de 2026
Política · Ciências Sociais · Resenha

A Lógica Secreta
da Repressão

Dois cientistas políticos alemães revelam que o terror de Estado não é obra de fanáticos — é obra de funcionários mediocres em busca de promoção.

Redação O TecidoCaderno Livros — edição impressa e digital
TítuloMaking a Career in Dictatorship
AutoresAdam Scharpf & Christian Gläßel
EditoraOxford University Press
IdiomaInglês (sem tradução disponível)

Por muito tempo, a ciência política se preocupou em explicar por que ditadores chegam ao poder e como as elites permanecem leais ao regime. A pergunta mais incômoda — a dos que sujam as mãos, que executam as ordens, que conduzem os interrogatórios — foi deixada em segundo plano. Supunha-se que a resposta era óbvia: eram fanáticos ou estavam com medo. O novo livro Making a Career in Dictatorship: The Secret Logic Behind Repression and Coups dos cientistas políticos alemães Adam Scharpf e Christian Gläßel demonstra, com dados rigorosos e alcance comparativo surpreendente, que a resposta é muito menos dramática — e muito mais perturbadora.

A tese central do livro pode ser resumida em uma frase incômoda: o que moveu os agentes do terror de Estado foi, em grande medida, a pressão de carreira. Não a ideologia. Não o medo de ser perseguido. Mas o mesmo impulso que leva qualquer trabalhador mediano a aceitar uma tarefa degradante para garantir uma promoção.

"O que parece comportamento extraordinário — violência coercitiva — é frequentemente resultado de motivações de carreira bastante mundanas."

Jennifer Gandhi — Professora, Yale University

O livro parte de uma base de dados extraordinária: registros individuais de milhares de oficiais do exército argentino durante a Guerra Suja dos anos 1970 e 1980, quando a ditadura militar desapareceu forçosamente milhares de pessoas. Scharpf e Gläßel identificaram um padrão marcante: eram os oficiais com carreiras estagnadas — os que haviam ficado para trás nas promoções, os que não se destacavam nos critérios habituais da hierarquia militar — os que engrossavam as fileiras da polícia secreta. O serviço na repressão funcionava como um atalho, um "desvio" fora da hierarquia normal, capaz de desbloquear promoções que nunca chegariam pelos caminhos convencionais.

Os autores chamam esse grupo de "career-pressured", isto é, indivíduos pressionados pela estagnação profissional. Eles não eram, em sua maioria, extremistas convictos nem vítimas de coerção. Eram funcionários mediocres que encontraram na brutalidade do Estado uma porta de entrada para o sucesso que o mérito ordinário lhes negava. A tortura e o desaparecimento de inocentes tornaram-se, nesse contexto, instrumentos de ascensão social.

O argumento ecoa, de modo perturbador, a famosa análise de Hannah Arendt sobre a "banalidade do mal" — a ideia, formulada a partir do julgamento de Adolf Eichmann, de que grandes atrocidades podem ser perpetradas por burocratas sem qualidades extraordinárias. Making a Career in Dictatorship vai além da intuição filosófica e oferece evidências empíricas robustas que a sustentam. Como observam os próprios autores, "preocupações individuais mundanas frequentemente impulsionam fenômenos coletivos de larga escala".

"Oficiais sob intensa pressão de carreira podem ser incentivados a participar de repressão em massa e golpes militares, alimentando assim as dinâmicas autocráticas."

Adam Scharpf & Christian Gläßel

A teoria, contudo, não se limita à Argentina. Os autores a testam em estudos de caso sobre a Alemanha de Hitler, a União Soviética de Stalin e a Gâmbia de Jawara, além de uma análise quantitativa global de regimes autoritários desde 1945. O padrão se repete: a pressão de carreira alimenta comportamentos extremos. E ela opera nos dois sentidos — tanto na repressão (a serviço do regime vigente) quanto nos golpes de Estado (a serviço do regime que está por vir). Oficiais pressionados ou tentam demonstrar lealdade ao ditador atual participando da repressão, ou tentam se credenciar perante um regime sucessor participando de um golpe.

Scharpf é professor associado no Departamento de Ciência Política da Universidade de Copenhague, onde pesquisa lealdade e comprometimento em regimes políticos, especialmente autocracias. Gläßel é pesquisador do Centro de Segurança Internacional da Hertie School, em Berlim, e coordena o projeto "A Anatomia do Aparato de Segurança Autoritário", financiado pela Fundação Alemã de Pesquisa. Juntos, produziram uma obra que a Oxford University Press descreve como sem precedente na literatura sobre política autoritária.

Para leitores brasileiros, o livro chega com ressonância particular. O Brasil atravessou sua própria ditadura militar entre 1964 e 1985, com um aparato de repressão, tortura e desaparecimentos que guarda paralelos inquietantes com o caso argentino estudado no livro. Embora os autores não se debrucem diretamente sobre o Brasil, as perguntas que formulam são as mesmas que a sociedade brasileira ainda enfrenta em seu processo de memória e justiça: quem foram as pessoas que executaram as ordens? O que as motivou? Eram monstros ou eram, simplesmente, funcionários?

A resposta, segundo Scharpf e Gläßel, é que raramente precisamos invocar o mal radical para explicar o horror coletivo. Às vezes, basta uma ficha de avaliação de desempenho ruim e a perspectiva de uma promoção. Essa conclusão não absolve ninguém — ela aprofunda a responsabilidade ao torná-la estrutural. E torna urgente a pergunta: que estruturas, hoje, produzem os mesmos incentivos?

Making a Career in Dictatorship ainda não possui tradução para o português, mas está disponível em inglês na Amazon, nas versões impressa e digital. Uma leitura indispensável para quem deseja entender não apenas o passado das ditaduras, mas os mecanismos que as fazem funcionar — e que, potencialmente, continuam operando em outros contextos.

O que dizem os especialistas
"Uma análise inovadora e original das maneiras pelas quais considerações de carreira explicam os comportamentos dos atores mais consequentes da política autoritária: o aparato de segurança."
Erica Frantz — Michigan State University · autora de How Dictatorships Work
"Uma demonstração magistral de um mecanismo importante e relativamente negligenciado; ao fazê-lo, os autores nos ajudam a compreender melhor os padrões passados e os riscos futuros."
Jennifer Gandhi — Yale University · autora de Political Institutions under Dictatorship
"Um marco intelectual. Usa a análise inovadora das entranhas do regime autocrático na Argentina para formular novas e ousadas afirmações sobre como a autocracia funciona — ou colapsa."
James A. Robinson — Universidade de Chicago · coautor de Why Nations Fail

Adquira o livro

Making a Career in Dictatorship:
The Secret Logic Behind Repression and Coups

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Disponível em inglês · Oxford University Press · edições impressa, e-book e audiobook

O Tecido — Caderno LivrosPublicado em maio de 2026
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