Caderno Política
Publicado em 27 de julho de 2026 Leitura de 9 min Política & Tecnologia

Um número, sozinho, raramente conta uma história completa, mas às vezes ele é a história. Nos primeiros seis meses de 2026, a OpenAI quase dobrou o que gasta para influenciar decisões em Washington, chegando a 2,22 milhões de dólares em despesas declaradas de lobby. A Anthropic foi além: quase triplicou seu investimento no mesmo período, para 3,53 milhões de dólares. Google e Microsoft também elevaram seus gastos a patamares não vistos desde 2020. A informação, levantada a partir de declarações obrigatórias feitas ao governo americano, foi publicada pelo Financial Times em reportagem assinada por Michael Taffe.

O motivo do salto é conhecido: as maiores empresas de inteligência artificial do mundo disputam, simultaneamente, várias frentes regulatórias. Regras sobre a liberação de novos modelos, controle de exportação de tecnologia sensível, construção e abastecimento energético de data centers, e a própria definição de quem responde legalmente quando um sistema de IA causa dano. Segundo a reportagem do FT, o pano de fundo mais recente dessa disputa foi a decisão do governo americano, no mês passado, de usar controles de exportação para barrar temporariamente o lançamento do modelo Fable, da Anthropic, citando preocupações de segurança cibernética — um episódio que a própria Anthropic confirmou publicamente e que ilustra como, mesmo em um ambiente favorável às empresas, decisões pontuais do Executivo têm reconfigurado o tabuleiro regulatório do setor.

“É uma tecnologia com controle de exportação como os semicondutores, uma obra de infraestrutura como telecomunicações, uma relação de compras como a de defesa e uma questão de responsabilidade civil como a das plataformas — tudo ao mesmo tempo. Nenhum manual isolado cobre isso.” Joseph Hoefer, diretor de IA da consultoria Monument Advocacy, à reportagem do Financial Times

O que chama atenção não é apenas o valor, mas o que ele revela sobre a maturidade da máquina de influência que essas empresas vêm construindo. Segundo especialistas ouvidos pelo FT, entre eles Amba Kak, do AI Now Institute e ex-conselheira de IA da Comissão Federal de Comércio americana durante o governo Biden, a ofensiva de lobby tem sido tanto uma tentativa de barrar regulação quanto de moldar uma política industrial favorável ao setor. Na avaliação dela, o resultado prático tem sido uma regulação mais “suave”, baseada em sinais e decisões administrativas caso a caso, e não em regras gerais aplicáveis a todo o setor.

O espelho brasileiro

No Brasil, a disputa regulatória sobre inteligência artificial segue um roteiro semelhante, com um detalhe que muda tudo: aqui, simplesmente não existe uma lei que obrigue empresas a declarar quanto gastam para influenciar parlamentares. O país negocia, desde 2023, o Marco Legal da Inteligência Artificial, consolidado no PL 2338/2023. O texto foi aprovado por unanimidade no Senado em dezembro de 2024, mas sua votação final na Câmara dos Deputados foi adiada sucessivas vezes, entre outros motivos por impasses sobre direitos autorais e sobre o tratamento de sistemas de alto risco, segundo reportagens da imprensa especializada.

Enquanto o texto tramita, a presença de representantes de big techs no Congresso Nacional tem sido registrada com uma frequência que normalmente escaparia ao público, não fosse o trabalho de jornalismo investigativo. Um levantamento da agência de checagem Aos Fatos identificou que lobistas de grandes empresas de tecnologia visitaram o Congresso brasileiro pelo menos 83 vezes entre maio de 2025 e outubro do mesmo ano, período em que a comissão especial que analisa o PL 2338 esteve instalada. Em pelo menos um caso documentado pela reportagem, um deputado recebeu em seu gabinete o representante de políticas públicas da OpenAI para a América Latina e, no mesmo dia, defendeu publicamente na comissão uma regulação mais branda para o setor.

O contraponto: lobby não é sinônimo de captura

Defensores da atividade, como a vice-presidente da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig), Roberta Rios, argumentam que representação de interesses é prática legítima em qualquer democracia madura e que o problema brasileiro não é a existência do lobby, mas a ausência de regras claras de transparência sobre ele — o mesmo diagnóstico usado, historicamente, para justificar a regulamentação da atividade em países da OCDE.

Parlamentares que defendem posições mais brandas sobre IA, por sua vez, argumentam que regras excessivamente rígidas podem afastar investimento estrangeiro e travar a capacidade do país de desenvolver tecnologia própria, e que ouvir representantes do setor regulado é parte normal do processo legislativo, não evidência automática de influência indevida.

A assimetria informacional entre os dois países não é um detalhe técnico. Nos Estados Unidos, a Lei de Divulgação de Lobby (Lobbying Disclosure Act) obriga empresas e escritórios de representação a declarar trimestralmente quanto gastam, com quem se reuniram e sobre quais temas. É esse arcabouço que permite ao Financial Times, e a qualquer cidadão, saber exatamente que a Anthropic contratou a Ballard Partners como sua principal representante em Washington, ou que a Miller Strategies foi a firma que mais faturou com contratos da OpenAI em 2026. No Brasil, não existe equivalente. O Projeto de Lei 2914/2022, que regulamenta a representação de interesses e cria um Cadastro Nacional de Representantes de Interesses, tramita há quase duas décadas em suas diferentes versões, desde que foi apresentado originalmente em 2007 pelo então deputado Carlos Zarattini, e segue sem sanção.

“O Brasil é um dos pouquíssimos países do mundo que não tem uma legislação sobre esse tema. E não tem por quê? Porque nós criamos uma narrativa e um preconceito contra a palavra lobby.” Deputado Lafayette de Andrada (Republicanos-MG), relator do PL 2914/2022, em discurso na Câmara dos Deputados

Sem lei de transparência, o que existe no Brasil são investigações pontuais. Uma delas, publicada pela Agência Pública em parceria com veículos internacionais, mostrou que o Google contratou o ex-presidente Michel Temer para atuar como interlocutor contra a regulação de plataformas digitais, e que executivos de big techs chegaram a ser investigados pela Polícia Federal, em 2023, por suposta pressão indevida sobre parlamentares durante a tramitação do PL das Fake News. A mesma apuração indicou que associações que reúnem Google, Meta, Amazon, Apple e Microsoft mantêm operações estruturadas de "relações institucionais" no país, ainda que a atividade não seja registrada de forma centralizada.

Duas moedas, um mesmo jogo

Do lado americano, a reportagem do Financial Times observa que as grandes empresas de IA não formam um bloco unido: divergem sobre segurança de modelos, sistemas de código aberto e o papel adequado da regulação federal. A Anthropic, por exemplo, passou a incluir o Departamento do Tesouro americano entre os órgãos que lobbyava pela primeira vez neste trimestre, justamente no momento em que o secretário do Tesouro, Scott Bessent, reiterava ameaças de sanções contra laboratórios chineses de IA acusados de treinar seus modelos com resultados extraídos de sistemas americanos.

No Brasil, a fragmentação de interesses também existe, mas se manifesta de outra forma: entidades internacionais como o Information Technology Industry Council (ITI), que representa Google, Meta, Apple, Microsoft e Amazon, enviaram representantes a audiências públicas no Congresso para sugerir a supressão de artigos do PL 2338 que estabelecem direitos a usuários afetados por sistemas de IA, argumentando que tais dispositivos pressupõem riscos "que nem sempre existem". A avaliação não é unânime nem mesmo entre atores do setor produtivo nacional: entidades como a Confederação Nacional da Indústria e institutos de pesquisa em tecnologia e sociedade participaram das mesmas audiências defendendo posições distintas, incluindo a manutenção de mecanismos de participação social no texto.

O paralelo entre os dois países termina, porém, no ponto em que talvez importasse mais: o acesso do público à informação. Enquanto qualquer jornalista americano pode consultar, em poucos minutos, os registros federais de lobby de qualquer empresa listada na bolsa, replicar esse exercício no Brasil depende de reconstruir o quebra-cabeça a partir de registros de visita ao Congresso, agendas oficiais de gabinetes e investigações jornalísticas isoladas, quando elas existem. É essa lacuna que o PL 2914/2022, hoje em tramitação no Senado após aprovação na Câmara, promete, ao menos no papel, começar a fechar.

Enquanto isso não acontece, o Marco Legal da Inteligência Artificial segue sua tramitação em meio a um calendário legislativo apertado, disputando espaço com pautas econômicas e o início do período pré-eleitoral. A pergunta que fica, tanto em Washington quanto em Brasília, não é se empresas de tecnologia vão continuar tentando influenciar as regras do jogo que elas mesmas ajudam a criar. É se o público, em cada um dos dois países, terá as ferramentas para acompanhar como isso é feito.

Reportagem original de O Tecido, com apuração de fontes brasileiras. Inspirada na reportagem "AI companies spend record sums on Washington lobbying", de Michael Taffe, publicada pelo Financial Times em 2026 e disponível em ft.com. Todos os direitos sobre o conteúdo original do FT pertencem ao veículo; nenhum trecho foi reproduzido ou traduzido integralmente.