Caderno Livros · Leitura e cérebro

Este artigo parte de reportagem da revista britânica New Scientist, publicada em 15 de setembro de 2026 e assinada por Clarissa Brincat, sobre revisão científica conduzida pela Universidade de Cambridge. O texto não é tradução: trechos atribuídos à reportagem estão creditados e linkados, e a análise do contexto brasileiro foi feita com fontes independentes.1

Ler um livro pelo simples gosto de ler está associado, de forma consistente, a um cérebro mais preparado para envelhecer, a crianças com melhor atenção e memória e a adultos menos estressados e menos solitários. Essa é a síntese de uma revisão liderada pela neurocientista Barbara Sahakian, da Universidade de Cambridge, publicada na revista Psychological Medicine e noticiada pela New Scientist.1 A notícia chega num momento desconfortável para o Brasil: pela primeira vez desde 2007, o país tem mais não leitores do que leitores.

O que a revisão de Cambridge encontrou

Segundo a reportagem da New Scientist, a equipe de Sahakian reuniu resultados de cinco levantamentos populacionais e oito estudos de acompanhamento de longo prazo, somando dezenas de milhares de participantes.1 Boa parte desses trabalhos relacionou o hábito de ler por prazer a um volume maior de substância cinzenta, o tecido cerebral ligado ao pensamento e à memória, e a uma comunicação mais eficiente entre regiões do cérebro.

Para a pesquisadora, esse seria um caminho plausível pelo qual a leitura constrói reserva cognitiva, a capacidade do cérebro de resistir ao envelhecimento e de se adaptar a danos, fortemente moldada pelo estilo de vida. O psicolinguista Falk Huettig, do Instituto Max Planck de Psicolinguística, que não participou da pesquisa, resumiu a ideia à revista com uma imagem direta: ler funciona como "um treino cognitivo".1

Os achados se distribuem ao longo da vida. Na infância, a leitura por prazer aparece ligada a melhor atenção, memória, função executiva e desempenho escolar, além de menos problemas de saúde mental. Em idosos, associa-se a menor risco de declínio cognitivo. Em todas as idades, o conjunto de estudos aponta para menos estresse, mais empatia, mais bem-estar e menos solidão.1

A pista que veio da infância

A revisão de 2026 amplia um trabalho anterior do mesmo grupo. Em 2023, Sahakian e colegas das universidades de Cambridge, Warwick e Fudan analisaram mais de 10 mil adolescentes da coorte americana ABCD. Quem começou a ler por prazer cedo chegou à adolescência com melhores resultados em testes cognitivos, melhor saúde mental e diferenças mensuráveis na estrutura cerebral, como informou a própria Universidade de Cambridge.2 O estudo identificou um ponto ótimo de cerca de 12 horas semanais de leitura, sem ganhos adicionais acima disso. É um dado que desmonta a lógica da maratona: a regularidade parece pesar mais do que o volume.

Ficção como ensaio da vida real

A reportagem destaca uma hipótese especialmente interessante para quem lê romances. A ficção expõe o leitor a narrativas que permitem ao cérebro ensaiar respostas a situações que ele ainda não viveu, refinando sua capacidade de previsão. O vínculo com personagens também ajudaria a explicar a redução da sensação de solidão. Já a não ficção, segundo Sahakian, tende a estimular outras áreas cerebrais.1

A recomendação final da pesquisadora não é sobre gênero literário, mas sobre motivação: quem lê porque gosta lê com mais frequência e por mais tempo, e é essa constância que sustenta os efeitos observados.1

O que a ciência descreve não é o efeito de um livro, mas o efeito de um hábito. E hábitos dependem de tempo, acesso e exemplo, três coisas distribuídas de forma desigual no Brasil.

Ler e viver mais

A associação com longevidade tem respaldo anterior. Um estudo da Escola de Saúde Pública de Yale publicado em 2016 na Social Science & Medicine acompanhou 3.635 pessoas com mais de 50 anos por até 12 anos. Depois de controlar fatores como renda, escolaridade, saúde e depressão, leitores de livros apresentaram risco de morte cerca de 20% menor do que não leitores, vantagem maior do que a observada entre leitores de jornais e revistas, segundo o artigo de Avni Bavishi, Martin Slade e Becca Levy.4 Os autores atribuíram parte do efeito ao engajamento cognitivo exigido pela leitura longa e lenta.

O recuo global da leitura

O paradoxo é que a evidência se acumula enquanto o hábito encolhe. Nos Estados Unidos, pesquisadores da University of Florida e da University College London analisaram dados de mais de 236 mil pessoas e constataram que a parcela da população que lê por prazer em um dia comum caiu de 28% em 2004 para 16% em 2023, uma queda de cerca de 40%, conforme divulgou a UCL.3 A definição usada era ampla e incluía livros digitais e audiolivros, o que torna a queda ainda mais significativa.

Indicadores de leitura (%) 28 EUA 2004 16 EUA 2023 leem por prazer num dia comum 47 Leitores 53 Não leitores Brasil, 2024
Fontes: American Time Use Survey, analisado por UF e UCL em iScience (2025); Retratos da Leitura no Brasil, 6ª edição, Instituto Pró-Livro (2024). As métricas não são diretamente comparáveis: a americana mede leitura diária por prazer; a brasileira considera leitor quem leu ao menos parte de um livro nos três meses anteriores.

Brasil: um país que deixou de ser majoritariamente leitor

A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, divulgada em novembro de 2024, registrou que 53% dos brasileiros não leram nem parte de um livro, de qualquer gênero e em qualquer formato, nos três meses anteriores à entrevista.5 É a primeira vez na série histórica que os não leitores superam os leitores. Em relação à edição anterior, o país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores, e a queda atingiu todas as faixas de idade, renda e escolaridade.

A justificativa mais citada continua sendo a falta de tempo. Mas o dado mais revelador, à luz da revisão de Cambridge, é outro: a proporção de brasileiros que dizem não gostar de ler passou a superar a dos que dizem gostar. Se o benefício cognitivo depende da leitura por prazer, como enfatiza Sahakian, o problema brasileiro não é apenas de acesso ao livro. É de formação do gosto.

A pesquisa também mostra onde esse gosto nasce. Entre leitores, a proporção dos que tiveram pais que sempre liam para eles é o dobro da registrada entre não leitores.5 O achado converge com o estudo da coorte ABCD: o que acontece nos primeiros anos de vida deixa marcas duradouras, tanto no hábito quanto, aparentemente, na estrutura do cérebro.

Onde entra a política pública

O Brasil já tem instrumentos formais. A Lei 13.696/2018 instituiu a Política Nacional de Leitura e Escrita, e a Lei 15.100/2025 restringiu o uso de celulares nas escolas de educação básica.7 A segunda medida libera atenção, mas não cria leitores por si só. A evidência reunida por Cambridge sugere que o desenho de programas deveria mirar menos a leitura obrigatória e mais a leitura escolhida: acervos diversos, tempo livre de leitura na rotina escolar, mediadores capacitados e incentivo à leitura em família desde a primeira infância.

Contraponto: o que a evidência ainda não autoriza dizer

Os estudos reunidos são, em sua maioria, observacionais. Mostram associação, não causalidade. Pessoas que leem por prazer tendem a ter mais escolaridade, mais renda e mais tempo livre, fatores que também protegem o cérebro. Os pesquisadores controlam parte dessas variáveis, mas não todas, e a causalidade reversa é possível: cérebros mais saudáveis podem simplesmente ler mais.

Há também um histórico de cautela no tema. Um estudo muito citado de 2013, publicado na Science, afirmava que a leitura de ficção literária melhorava a capacidade de compreender estados mentais alheios; tentativas posteriores de replicação, incluindo um grande projeto publicado na Nature Human Behaviour em 2018, não reproduziram o efeito.6 Isso não invalida a relação entre leitura e empatia observada em estudos de longo prazo, mas recomenda prudência com promessas de efeito imediato.

Por fim, há um limite prático: prazer não se prescreve. Transformar a leitura em mais uma meta de produtividade pode corroer exatamente o elemento que, segundo a própria revisão, sustenta os benefícios.

O que fica

A revisão de Cambridge não descobre que ler faz bem; isso é intuição antiga. O que ela faz é organizar a evidência de que a leitura por prazer funciona como um fator de proteção ao longo de toda a vida, da infância à velhice. Para um país em que a maioria já não lê, a conclusão desloca o tema do campo cultural para o da saúde pública e da educação. A pergunta deixa de ser quantos livros o Brasil vende e passa a ser quantos brasileiros têm, de fato, a chance de gostar de ler.

Perguntas frequentes

Ler por prazer melhora a memória?

Estudos reunidos pela Universidade de Cambridge associam a leitura por prazer a melhor memória e atenção, especialmente na infância, e a menor risco de declínio cognitivo em idosos. A maioria das pesquisas é observacional, o que indica associação, não causa comprovada.

Quanto tempo de leitura é recomendado para crianças?

Um estudo de 2023 com mais de 10 mil adolescentes americanos identificou o maior benefício com cerca de 12 horas de leitura por prazer por semana, sem ganhos adicionais acima disso. Começar cedo pesou mais do que ler muito.

O que é reserva cognitiva?

É a capacidade do cérebro de resistir ao envelhecimento e de compensar danos, construída ao longo da vida por fatores como educação, atividade intelectual e hábitos como a leitura.

Ficção ou não ficção: qual faz mais bem?

A ficção pode ajudar o cérebro a ensaiar respostas a situações de vida e reduzir a solidão pelo vínculo com personagens; a não ficção estimula outras áreas. Para os pesquisadores, o fator decisivo é ler aquilo de que se gosta, porque isso aumenta a frequência e a duração da leitura.

Quantos brasileiros leem livros?

Segundo a 6ª edição da Retratos da Leitura no Brasil (2024), 47% da população é leitora e 53% não leu nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. É a primeira vez que os não leitores são maioria desde o início da série, em 2007.

Referências

  1. Brincat, Clarissa. Reading for pleasure boosts memory, empathy and mental health. New Scientist, 15 set. 2026. newscientist.com. Estudo original: Psychological Medicine, DOI 10.1017/S0033291726105625.
  2. Sun, Yun-Jun; Sahakian, Barbara J. et al. Early-initiated childhood reading for pleasure: associations with better cognitive performance, mental well-being and brain structure in young adolescence. Psychological Medicine, 2023.
  3. EpiArts Lab (University of Florida e University College London). Estudo sobre tendências de leitura por prazer nos Estados Unidos, 2003 a 2023. iScience, 2025.
  4. Bavishi, Avni; Slade, Martin D.; Levy, Becca R. A chapter a day: Association of book reading with longevity. Social Science & Medicine, 2016.
  5. Instituto Pró-Livro. Retratos da Leitura no Brasil, 6ª edição, 2024.
  6. Kidd, David C.; Castano, Emanuele. Reading literary fiction improves theory of mind. Science, 2013; e Camerer, Colin F. et al. Evaluating the replicability of social science experiments in Nature and Science between 2010 and 2015. Nature Human Behaviour, 2018.
  7. Brasil. Lei nº 13.696/2018 (Política Nacional de Leitura e Escrita) e Lei nº 15.100/2025 (uso de aparelhos eletrônicos portáteis nas escolas).
Evelyn Cordeiro
Fundadora do Inspiravalley e do canal Pensadoria no YouTube