Caderno Ciência · Neurociência e Filosofia da Mente

O telefonema chegou num momento pouco conveniente. Felipe De Brigard estava num retiro de trabalho, cercado de colegas, quando uma voz perguntou se ele podia conversar em local reservado e sugeriu que inventasse uma desculpa sobre impostos para se afastar. Do outro lado da linha estava a Fundação MacArthur, que acabara de incluí-lo entre os contemplados com a chamada "bolsa dos gênios". O episódio foi contado pelo próprio pesquisador em entrevista à Scientific American, conduzida pela jornalista Allison Parshall.1 E veio acompanhado de uma ressalva que resume sua obra inteira: a lembrança daquele dia, admite ele, provavelmente não é fiel ao que aconteceu.

Professor de filosofia e de psicologia e neurociência na Universidade Duke, nos Estados Unidos, e nascido em Bogotá, De Brigard foi anunciado em 29 de setembro entre os 20 integrantes da classe de 2026 da fundação. Cada um recebe US$ 800 mil ao longo de cinco anos, sem contrapartidas, segundo a cobertura da rádio pública WFAE e a lista divulgada pela agência AP.2 Pouco antes, em agosto, ele havia dividido com a filósofa Sarah Robins o Prêmio Lebowitz, concedido pela Associação Americana de Filosofia e pela sociedade Phi Beta Kappa, com um debate sobre o que distingue a memória das demais capacidades cognitivas.3 Segundo a Scientific American, ele é apenas o segundo filósofo a receber a bolsa MacArthur nas últimas três décadas.1

O reconhecimento chega a uma linha de pesquisa com consequências que ultrapassam o laboratório. A tese central é que a memória humana não funciona como uma câmera que grava experiências num disco rígido mental. O cérebro guarda fragmentos, gestos, o sentido geral de um episódio. Quando recordamos, ele reconstrói o restante. E a maquinaria usada nessa reconstrução é, em boa parte, a mesma que usamos para imaginar o futuro e, mais surpreendente, para imaginar o que poderia ter sido.

O paciente K.C. e a virada de 2007

A origem dessa ideia remonta ao psicólogo canadense Endel Tulving, que nos anos 1980 acompanhou um paciente identificado como K.C., portador de amnésia causada por lesão no hipocampo. Quando solicitado a recordar um evento da própria vida, K.C. não encontrava nada. Quando lhe perguntavam o que faria no Natal seguinte, a resposta era o mesmo vazio. Sua imaginação não estava destruída de modo geral; o que faltava era a capacidade de se situar numa trajetória pessoal, para trás ou para a frente no tempo.

A intuição de Tulving ganhou sustentação experimental em 2007, quando três grupos independentes (na Universidade Harvard, no University College London e na Universidade Washington em St. Louis) publicaram estudos mostrando que lembrar o passado e imaginar o futuro ativam redes cerebrais amplamente sobrepostas, com o hipocampo no centro. De Brigard era então estudante de pós-graduação e, como relata à revista americana, ficou intrigado com uma assimetria: a memória trata do que de fato aconteceu, enquanto a imaginação do futuro lida com múltiplas possibilidades.1

Sua pergunta foi se o mesmo mecanismo também seria necessário para pensar no que poderia ter acontecido no passado. Ele batizou essa capacidade de pensamento contrafactual episódico. Os experimentos de seu grupo indicaram que sim: o hipocampo é recrutado quando imaginamos possibilidades alternativas que dizem respeito a nós mesmos.1

Hipocampo rede episódica comum Recordar o que aconteceu Projetar o que pode acontecer Contrafactual o que poderia ter sido
Esquema simplificado: as pesquisas citadas indicam que lembrar episódios pessoais, imaginar o próprio futuro e imaginar passados alternativos compartilham uma rede neural centrada no hipocampo. Ilustração: O Tecido.

Por que lembrar e imaginar dividem a mesma engrenagem

Na entrevista, De Brigard apresenta duas razões para essa arquitetura.1 A primeira é de economia. Nenhum cérebro consegue armazenar cada detalhe de cada experiência; preencher lacunas com a hipótese mais provável no momento da recordação torna a memória mais rápida e flexível. O custo é a possibilidade de erro: o preenchimento pode inserir detalhes que nunca estiveram lá.

A segunda razão é preditiva. Ao imaginar versões alternativas do que já aconteceu ou do que pode acontecer, o organismo se prepara para a incerteza. De Brigard recorre a uma formulação do filósofo Karl Popper: produzimos hipóteses para que elas morram em nosso lugar. Se essas simulações estão ligadas aos mecanismos da memória, podem ser guardadas e reutilizadas.

Daí deriva uma observação sobre a ficção. Histórias de realidades alternativas, como o romance distópico de Philip K. Dick adaptado para a série The Man in the High Castle, ou a comédia romântica De Caso com o Acaso (Sliding Doors), seriam ensaios de pensamento contrafactual. Para o filósofo, há inclusive uma dimensão moral nisso. Um jurado convidado a imaginar o que um réu poderia ter feito de diferente simula melhor a situação de alguém cuja vida se parece com a sua. Diante de uma experiência radicalmente distinta, a leitura passa a ser o melhor substituto da vivência.1

Quando a reconstrução vira prova: o caso brasileiro

A natureza reconstrutiva da memória deixou de ser tema exclusivo de laboratório no Brasil. Em dezembro de 2022, o Conselho Nacional de Justiça aprovou por unanimidade a Resolução nº 484, que estabeleceu diretrizes para o reconhecimento de pessoas em procedimentos e processos criminais.7 O texto resultou de um grupo de trabalho instituído em 2021 e se apoia explicitamente na produção científica sobre psicologia do testemunho e falsas memórias. Entre seus considerandos, a resolução registra dados sobre reconhecimentos equivocados no país, incluindo a sobrerrepresentação de pessoas negras entre os apontados erroneamente.

As regras traduzem em procedimento o que a ciência descreve. O reconhecimento passa a ser tratado como prova irrepetível, porque cada nova exposição ao suspeito pode contaminar a lembrança da vítima ou testemunha. O alinhamento deve reunir preferencialmente ao menos quatro pessoas sem relação com o fato investigado. Em outubro de 2024, o CNJ publicou um manual de procedimentos de 88 páginas para uso em delegacias e fóruns, conforme reportou a Agência Pública.8 O documento admite que etapas já adotadas no Reino Unido e nos Estados Unidos, e recomendadas pela comunidade científica, não eram seguidas no Brasil.

O país tem tradição própria nesse campo. O grupo da psicóloga Lilian Milnitsky Stein, na PUCRS, consolidou a pesquisa nacional sobre falsas memórias e suas aplicações clínicas e jurídicas, e o neurocientista Iván Izquierdo, que fez carreira em Porto Alegre, defendeu por décadas que o esquecimento é parte constitutiva do funcionamento normal da memória, e não uma falha dela. O trabalho de De Brigard dialoga com essa linhagem ao acrescentar um passo: se a memória já é reconstrução, a fronteira entre lembrar e imaginar é mais porosa do que o senso comum supõe.

Se toda lembrança é reconstruída, a pergunta deixa de ser se a memória erra e passa a ser em que condições podemos confiar nela.

Perdoar não é esquecer

É nesse ponto que a pesquisa encontra sua aplicação mais sensível. A maior parte da bolsa MacArthur, segundo o próprio De Brigard, financiará o projeto sobre memória e perdão que ele conduz na Colômbia com vítimas da violência política.1 O estudo, que já havia recebido quase US$ 1 milhão da Fundação John Templeton, trabalha com três grupos: vítimas diretas do conflito armado na região de Montes de María, no norte do país; moradores de Bogotá afetados de forma indireta; e uma amostra de comparação nos Estados Unidos.

A expressão popular "perdoar e esquecer" sugere que o perdão apaga a lembrança. Os dados apontam em outra direção. Em quatro estudos com 1.479 participantes, publicados no Journal of Experimental Psychology: General, a equipe liderada por Gabriela Fernández-Miranda comparou duas hipóteses.4 Pela primeira, chamada de desvanecimento episódico, perdoar tornaria a memória menos vívida e detalhada. Pela segunda, o desvanecimento emocional, o perdão alteraria principalmente a carga afetiva da lembrança. Os resultados sustentaram apenas a segunda: ofensas perdoadas eram recordadas com o mesmo grau de detalhe, mas com menor intensidade e valência menos negativa.

Os pesquisadores levantam uma explicação possível, descrita pela Fundação Templeton: ao perdoar, a pessoa passaria menos tempo remoendo o episódio, o que permitiria agir o chamado viés de desvanecimento afetivo, a tendência já documentada de memórias negativas perderem força emocional com o tempo.5

O contexto colombiano dá peso prático à distinção. Dez anos após o acordo de paz de 2016, ex-combatentes retornam às mesmas comunidades onde vitimaram moradores. Para De Brigard, a sociedade não deve esquecer o que aconteceu, e a pesquisa indica que o perdão não exige esse esquecimento. Ele faz, porém, questão de uma ressalva: o perdão não é bom em todas as circunstâncias, não é obrigatório, e há ofensas que considera imperdoáveis. O projeto respeita participantes que buscam alívio emocional sem querer perdoar.1

Há também uma revisão conceitual em curso. A maior parte da ciência do perdão nasceu da terapia de casais, com protocolos como o REACH, do psicólogo Everett Worthington. Perdoar um cônjuge, porém, é diferente de perdoar o comandante paramilitar que matou um irmão, com quem nunca houve relação e com quem não se deseja ter nenhuma. Dois coinvestigadores colombianos do projeto, Pablo Abitbol e Santiago Amaya, propõem que o perdão em contexto de pós-conflito envolve três partes, e não duas: vítima, perpetrador e comunidade.1

Um espelho para o debate brasileiro

A distinção entre lembrar os fatos e reprocessar as emoções oferece uma ferramenta analítica para discussões brasileiras sobre memória coletiva. As palavras "anistia" e "amnésia" compartilham a mesma raiz grega, ligada ao não lembrar, e o país vive há décadas o debate sobre o alcance da Lei da Anistia de 1979 e sobre o legado da Comissão Nacional da Verdade, que entregou seu relatório final em 2014. As posições a respeito seguem divergentes no Judiciário, no meio político e na sociedade.

A pesquisa de De Brigard não arbitra essa controvérsia, e seria impróprio usá-la para isso. O que ela oferece é uma separação útil entre dois planos frequentemente confundidos: o registro institucional e factual do que ocorreu, que diz respeito à verdade histórica, e o processamento emocional individual, que diz respeito a cada vítima e não pode ser imposto de fora.

Consciência, agência e inteligência artificial

A entrevista também toca a comparação entre cérebros e sistemas de inteligência artificial. De Brigard conta que, duas décadas atrás, estava convencido de que neurônios computavam como microchips biológicos. Hoje é mais cauteloso, em parte por influência da filósofa Mazviita Chirimuuta e de seu livro The Brain Abstracted, que discute como idealizações científicas podem ser muito úteis mesmo quando literalmente falsas. Para ele, modelos computacionais da recuperação de memórias são valiosos, mas provavelmente não descrevem o que os neurônios de fato fazem.1

Sobre a hipótese de consciência em máquinas, o filósofo diz não ter posição firmada. Sua preocupação mais imediata é com agência: sistemas que agem com autonomia crescente exigem regras e formas de interação novas, sejam ou não conscientes. Ele recorre a uma analogia com as touradas de sua infância na Colômbia. Mesmo que se descobrisse que os touros não sentem dor, o espetáculo não se tornaria menos monstruoso.1 A questão moral, sugere, não depende inteiramente de resolver o problema da experiência subjetiva.

Perguntas frequentes

O que é pensamento contrafactual episódico?

É a capacidade de imaginar como um episódio da própria vida poderia ter acontecido de outro modo. As pesquisas de Felipe De Brigard indicam que ela depende do hipocampo, a mesma estrutura usada para recordar experiências pessoais e projetar o futuro.

Por que a memória humana não é uma gravação fiel?

Porque o cérebro guarda fragmentos e o sentido geral das experiências e, ao recordar, preenche lacunas com o que é mais provável. O atalho dá rapidez e flexibilidade, mas abre espaço para distorções e falsas memórias.

Perdoar significa esquecer?

A evidência disponível indica que não. Em quatro estudos com 1.479 participantes, ofensas perdoadas foram lembradas com o mesmo detalhe, mas com menor intensidade emocional. A hipótese é que o perdão envolve reavaliação emocional da memória.

Qual a relação disso com a Justiça brasileira?

A natureza reconstrutiva da memória fundamenta a Resolução CNJ nº 484/2022, que padronizou o reconhecimento de pessoas em processos criminais para reduzir condenações baseadas em falsos reconhecimentos.

De Brigard acredita que a IA é consciente?

Ele diz não ter posição definida e considera mais urgente discutir a agência de sistemas de IA, que exige regulação independentemente da questão da consciência.

Este artigo se baseia na entrevista "How the brain uses memory to imagine what might have been", de Allison Parshall, publicada pela Scientific American, complementada por fontes independentes. Os trechos atribuídos à publicação foram resumidos e parafraseados; o crédito integral pertence à Scientific American e à autora.