Caderno Economia · Mercados globais

Durante quase três décadas, o iene foi o dinheiro mais barato do planeta. Investidores do mundo inteiro tomavam empréstimos em moeda japonesa a juros próximos de zero e aplicavam os recursos onde o retorno era maior: títulos do Tesouro americano, ações de tecnologia, renda fixa em países emergentes como o Brasil. Essa engrenagem, conhecida como carry trade, nunca foi tão testada quanto agora. Em 18 de setembro, o Banco do Japão (BoJ) elevou sua taxa básica em 0,25 ponto percentual, para 1,25% ao ano, o nível mais alto desde 1995, em decisão tomada por 7 votos a 22.

O movimento veio dois dias depois de o Federal Reserve subir os juros americanos pela primeira vez desde 2023, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano4. A coincidência de calendário não é trivial. Em reportagem da série The Big Read, os jornalistas Leo Lewis e David Keohane, do Financial Times, descrevem um cenário em que o BoJ pode acelerar o aperto monetário além do que o mercado espera, fortalecendo o iene bem acima do patamar atual de cerca de ¥157 por dólar e minando a lógica que sustenta a operação especulativa1. É esse o risco que passou a ocupar mesas de câmbio de Tóquio a São Paulo.

Como funciona o carry trade de iene

A lógica é simples de enunciar e difícil de desmontar. O investidor capta recursos em uma moeda de juros baixos, converte para uma moeda de juros altos e aplica em ativos que rendem mais. O lucro é o diferencial entre o custo do empréstimo e o rendimento da aplicação. O FT ilustra o mecanismo com um exemplo didático: tomar ienes a 1%, vender a moeda japonesa por dólares, aplicar em ativos americanos que rendem 5% e embolsar a diferença de 4 pontos ao quitar o empréstimo1.

O ponto frágil está na volta. Para encerrar a posição, o investidor precisa recomprar ienes. Se a moeda japonesa se valorizou no período, o custo da recompra pode apagar todo o ganho com juros. E quando muitos investidores alavancados tentam sair ao mesmo tempo, a própria corrida para comprar ienes empurra a moeda para cima, o que obriga outros a sair também. É um circuito que se autoalimenta.

A OPERAÇÃO 1. Capta em ienesempréstimo a jurojaponês baixo(hoje 1,25% a.a.) 2. Convertevende ienes e compradólares, reais ououtra moeda 3. AplicaTreasuries, ações,renda fixa atreladaà Selic 4. Embolsao diferencial dejuros, se o câmbioficar estável O DESMONTE GatilhoBoJ sobe juros, háintervenção ou oiene se valoriza Perda cambialrecomprar ienes ficamais caro que oganho com juros Venda forçadafundos alavancadosvendem ativos paradevolver os ienes Efeito dominóa compra de ienesvaloriza a moeda eforça novas saídas
Figura 1. O ciclo do carry trade e a espiral do desmonte. Elaboração: O Tecido, com base no mecanismo descrito pelo Financial Times e pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS).

Um histórico de desmontes: de 1998 a 2024

Quando a operação se desfaz, os estragos costumam ir além do mercado de câmbio. O FT lembra que o desmonte do carry trade de iene foi fator central na quebra do fundo Long Term Capital Management, em 1998, e teve papel decisivo no chamado "quant meltdown" de 2007, episódio visto por muitos analistas como prenúncio da crise financeira global do ano seguinte1.

O caso mais recente e mais bem documentado é o de agosto de 2024. Na primeira metade de julho daquele ano, rumores de intervenção das autoridades japonesas começaram a reverter uma longa fase de fraqueza do iene. Segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS), essa virada alterou os incentivos de especuladores alavancados1,9. Dias depois de uma alta de juros do BoJ, em 5 de agosto de 2024, o índice Nikkei caiu 12,4% em um único pregão, a maior queda desde 1987, e a turbulência se espalhou para bolsas e moedas de países emergentes9. O episódio passou a ser estudado por reguladores justamente pela velocidade com que uma posição considerada rotineira contaminou mercados sem relação direta com o Japão.

2026: intervenção conjunta, Fed em alta e um BoJ dividido

O ano de 2026 acumulou pressões inéditas sobre o iene. A guerra no Oriente Médio encareceu o petróleo, do qual o Japão depende quase integralmente, e o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi manteve planos de gasto expressivos enquanto o BoJ subia juros de forma gradual. Para Karen Fishman, do Goldman Sachs, a fraqueza da moeda é essencialmente consequência dessa combinação de política fiscal expansionista com aperto monetário lento8.

O ponto de ruptura veio no fim de julho. A moeda japonesa chegou a ¥163,73 por dólar, nível mais fraco em quase quatro décadas, e em 31 de julho Tóquio e Washington realizaram uma intervenção coordenada de compra de ienes, a primeira operação conjunta desse tipo desde 1998. No dia seguinte, a cotação já estava em ¥157,575. Os dois governos anunciaram estar prontos para agir novamente se necessário, e analistas avaliaram que o respaldo americano tende a dar efeito mais duradouro a intervenções que, feitas isoladamente, costumam ter fôlego curto6. Dados do Ministério das Finanças japonês indicam que as intervenções do período somaram 15,4 trilhões de ienes, cerca de US$ 96,5 bilhões, o maior volume já registrado7.

Setembro trouxe a outra metade da equação. O Fed elevou os juros por unanimidade, e a maioria dos dirigentes sinalizou ao menos mais uma alta ainda em 20264,15. Dois dias depois, o BoJ fez sua sexta alta desde que abandonou os juros negativos, em março de 2024, desta vez com intervalo de apenas três meses em relação à anterior2,3. Os conselheiros Toichiro Asada e Ayano Sato votaram contra2. A reação do mercado foi reveladora: como a decisão estava precificada e o presidente Kazuo Ueda não se comprometeu com novas altas, o iene se desvalorizou e o dólar voltou a superar ¥1573.

TAXAS BÁSICAS APÓS AS DECISÕES DE SETEMBRO DE 2026 (% AO ANO) Japão (BoJ) 1,25% EUA (Fed) 3,75% a 4% Brasil (Copom) 13,75% Diferencial Brasil x Japão: 12,5 p.p. · EUA x Japão: 2,5 a 2,75 p.p.
Figura 2. O diferencial de juros que sustenta o carry trade. Fontes: Banco do Japão, Federal Reserve e Banco Central do Brasil. Elaboração: O Tecido.

O cenário de risco: um BoJ mais rápido que o esperado

A leitura predominante após 18 de setembro é de gradualismo. O voto dividido e o tom cauteloso de Ueda sugerem um banco central sem pressa, e a inflação subjacente japonesa desacelerou para 1,7% em agosto3. É exatamente essa zona de conforto que o FT questiona. Se o BoJ precisar acelerar, seja por pressão do petróleo, seja por novos episódios de desvalorização descontrolada, o iene pode se fortalecer muito além dos níveis atuais1. Nesse caso, o diferencial de juros deixa de compensar o risco cambial, e posições montadas com alavancagem precisam ser desfeitas às pressas.

O mercado já deu uma amostra no início de setembro. Depois de comentários duros de Ueda e do conselheiro Hajime Takata, o iene subiu mais de 2% em um único dia, puxado por uma onda de desmonte de posições financiadas na moeda japonesa15. O movimento durou pouco, mas mostrou a sensibilidade da operação a sinais de política monetária.

O carry trade não termina quando os juros japoneses sobem. Ele termina quando a volatilidade do iene passa a custar mais do que o diferencial de juros paga.Síntese editorial · O Tecido

O Brasil na rota do carry trade

Com a Selic em dois dígitos há anos, o Brasil é um dos destinos clássicos dessa rota. Em 16 de setembro, o Copom reduziu a taxa básica para 13,75% ao ano, quinto corte consecutivo, e o comunicado mencionou explicitamente a incerteza sobre a condução da política monetária em economias avançadas e a maior volatilidade de ativos, que exige cautela de países emergentes10. Mesmo após o corte, a diferença entre os juros brasileiros e japoneses supera 12 pontos percentuais13.

Essa atratividade se traduziu em fluxo ao longo do ano. Até abril, uma versão comum da estratégia, que toma ienes emprestados para comprar uma cesta formada por real, peso colombiano e lira turca, acumulava ganho de cerca de 12% em 2026, o melhor início de ano em três anos, e bancos como Citi e Goldman Sachs recomendavam posições compradas em real11. Gestores ouvidos pelo portal Seu Dinheiro atribuem o apetite à combinação de juros altíssimos com um câmbio relativamente estável12.

O outro lado dessa entrada de recursos é o risco de saída. Os dólares que chegam via carry trade precisam ser convertidos em reais, o que aumenta a oferta de moeda estrangeira e ajuda a segurar o câmbio. No desmonte, o caminho se inverte: o investidor vende ativos brasileiros, compra dólares para repatriar e pressiona a cotação para cima13. Em agosto de 2024, moedas latino-americanas de juros altos estiveram entre as mais afetadas pela turbulência9. Para o Brasil, um desmonte desordenado teria efeitos que vão além do câmbio: pressão inflacionária via importados, menos espaço para o Copom seguir cortando juros e maior volatilidade na bolsa, que depende de forma relevante do capital estrangeiro.

Contraponto

Por que o desmonte pode não acontecer

Há argumentos sólidos contra o cenário de ruptura. O primeiro é aritmético: com o BoJ a 1,25%, o iene continua sendo uma das moedas de financiamento mais baratas do mundo, e o Fed também está subindo juros, o que mantém o diferencial em relação aos Estados Unidos. Para Bruno Yamashita, da Avenue, a intervenção de julho foi mais pontual do que parecia e não deve produzir grandes efeitos de longo prazo14. Gestores ouvidos pelo Seu Dinheiro lembram que parte relevante da valorização do iene após a ação conjunta foi devolvida, com a moeda voltando para perto de ¥159, sinal de que o diferencial de juros segue como a força dominante12.

O segundo argumento é de comportamento. Nickolas Lobo, da Nomad, observa que parte do mercado tem diversificado a moeda de financiamento para o franco suíço e o dólar australiano, o que dilui o risco concentrado no iene7. E o próprio BoJ, com dois votos contrários à última alta, dá pouca evidência de que pretende surpreender o mercado. Na síntese de uma análise da Remessa Online, a operação não acabou: apenas ficou menos generosa13.

O que observar nos próximos meses

  • 1º de outubro · Resumo de opiniões do BoJO documento deve detalhar as razões dos dois votos contrários e as condições para novas altas16.
  • 28 de outubro · Decisão do FedO mercado precifica ao menos mais uma alta americana até o fim do ano15.
  • 29 e 30 de outubro · Reunião do BoJCom novo Relatório de Perspectivas, é o principal teste para o iene. Um tom mais duro favorece a moeda; cautela mantém o carry trade ativo3.
  • 3 e 4 de novembro · CopomO comitê terá de ponderar o espaço para novos cortes diante de juros subindo nas economias avançadas10.
  • Contínuo · Risco de intervençãoTóquio e Washington afirmaram estar prontos para agir de novo em caso de movimentos desordenados do iene6.

Perguntas frequentes

O que é o carry trade de iene?

É a estratégia de tomar empréstimos em ienes, moeda com juros historicamente muito baixos, e aplicar os recursos em ativos de maior rendimento em outros países, como títulos americanos ou renda fixa brasileira. O lucro vem do diferencial de juros, desde que o iene não se valorize a ponto de anular o ganho.

Por que a alta de juros do Banco do Japão ameaça o carry trade?

Juros mais altos encarecem o empréstimo em ienes e tendem a valorizar a moeda japonesa. Se o iene sobe, recomprá-lo para quitar a dívida fica mais caro. Quando muitos investidores alavancados saem ao mesmo tempo, a compra de ienes valoriza ainda mais a moeda, gerando um efeito em cadeia.

Como um desmonte do carry trade afeta o Brasil?

Com Selic de 13,75% ao ano, o Brasil é destino frequente desses recursos. No desmonte, investidores vendem ativos brasileiros e compram dólares para sair, o que pressiona o câmbio para cima, pode alimentar a inflação via importados e reduzir o espaço para cortes de juros.

O que foi a intervenção conjunta EUA-Japão de 2026?

Em 31 de julho de 2026, Japão e Estados Unidos compraram ienes de forma coordenada para conter a desvalorização da moeda, que havia chegado a ¥163,73 por dólar. Foi a primeira ação conjunta desse tipo desde 1998, e os dois governos disseram estar prontos para repeti-la.

O carry trade de iene acabou?

Não. Mesmo com a taxa japonesa a 1,25%, o diferencial em relação a Estados Unidos e Brasil segue amplo. A operação ficou menos rentável e mais volátil, e parte dos investidores diversificou para outras moedas de financiamento, como o franco suíço.

Nota de atribuição. Este artigo tem como ponto de partida a reportagem de Leo Lewis e David Keohane publicada na série The Big Read do Financial Times. O texto original não foi reproduzido nem traduzido: as informações atribuídas ao FT foram resumidas com crédito, e a análise foi ampliada com fontes independentes e com o contexto brasileiro.

Ewerton Lopes — Curador Editorial, O Tecido