Na mesma semana em que o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano voltou a superar 5%, o Comitê de Política Monetária do Banco Central se reúne para decidir se corta a Selic. Os dois movimentos partem da mesma pergunta, sobre o que os bancos centrais farão com os juros de curto prazo, e chegam a respostas opostas.
Na manhã desta terça-feira (15), véspera da decisão do Federal Reserve, o rendimento do Treasury de 10 anos voltou a romper o patamar de 5% ao ano, negociando perto de 5,03%1, o nível mais alto desde julho de 2007, antes da crise financeira global. Um dia antes, a taxa já havia tocado 5,01% intradiário, recuando em seguida para perto de 4,99%2. O título de 2 anos, mais sensível às decisões do Fed no curto prazo, também subiu, para cerca de 4,66%, o maior nível desde julho de 2024, e o de 30 anos avançou para a faixa de 5,35% a 5,40%2.
A explicação mais repetida para esse tipo de movimento costuma recorrer a três medos clássicos do mercado de renda fixa: inflação fora de controle, déficit fiscal insustentável ou excesso de emissão de dívida corporativa. Segundo a análise do Wall Street Journal que serve de ponto de partida a este texto, nenhum desses três fatores explica sozinho o movimento das últimas semanas. A explicação mais direta, segundo o jornal, é mais simples: os juros longos sobem porque o mercado passou a apostar que os juros curtos vão subir1.
A mecânica por trás da alta
Quando um investidor compra um título de 10 anos em vez de rolar sucessivamente títulos curtos, ele está, na prática, apostando na trajetória média da taxa básica de juros ao longo de uma década. Se essa expectativa sobe, o rendimento do título longo sobe junto, mesmo sem qualquer mudança nas expectativas de inflação de longo prazo ou no apetite por risco fiscal1.
Os números recentes sustentam essa leitura. A inflação de breakeven, calculada pela diferença entre o rendimento do título nominal de 10 anos e o de um título indexado à inflação (TIPS) de mesmo prazo, está em torno de 2,4%, acima do período pré-pandemia mas dentro da faixa observada desde 20211. A chamada expectativa de inflação "cinco anos daqui a cinco anos", outra métrica acompanhada pelo próprio Federal Reserve, está por volta de 2,3%1. O banco Goldman Sachs, em relatório de agosto, descreveu essas expectativas de longo prazo das famílias americanas como próximas de onde estavam em meados dos anos 2000, antes dos dois últimos ciclos de alta de preços1.
O chamado prêmio a termo, componente do rendimento que reflete riscos de longo prazo como o volume de emissão de dívida pública, também não parece ser o motor principal. A estimativa calculada pelo Federal Reserve de São Francisco mostra esse prêmio em queda desde o fim de julho, exatamente no período em que os juros de 10 anos subiram1. "A maior reprecificação recente foi no entendimento do mercado sobre onde as taxas médias de política monetária podem ficar", resume Jonathan Hill, estrategista do Barclays para o mercado de inflação nos Estados Unidos, citado pelo jornal1.
Por que o mercado passou a apostar em alta de juros nos EUA
O gatilho mais imediato foi o petróleo. A Arábia Saudita interrompeu o funcionamento de um oleoduto alternativo em meio à escalada do conflito no Irã, e os contratos de Brent e WTI saltaram cerca de 5%, superando US$ 100 por barril3. Combinado a um índice de preços ao consumidor de agosto que confirmou inflação ainda bem acima da meta de 2% do Fed2, esse choque de custos elevou a probabilidade, precificada pelo mercado futuro, de que o Federal Reserve suba os juros básicos em 0,25 ponto percentual na decisão desta semana, hoje entre 92% e mais de 94%, segundo o CME FedWatch34. Seria a primeira alta da taxa básica americana desde julho de 2023, depois de cinco reuniões seguidas de manutenção na faixa de 3,50% a 3,75%5.
O horizonte também mudou. Segundo o Wall Street Journal, um mês atrás o mercado futuro atribuía apenas 16% de chance a três ou mais altas de 0,25 ponto até setembro de 2027; hoje esse peso está em torno de 85%1. Parte da mudança de tom também é atribuída ao discurso do presidente do Fed, Kevin Warsh, em Jackson Hole, interpretado pelo mercado como mais duro do que o esperado, ao citar condições financeiras, pleno emprego e inflação como justificativas para juros mais altos6.
CONTRAPONTO
Nem todo analista concorda que o quadro seja tão facilmente reversível. Estrategistas do BMO Capital Markets ponderam que, mesmo com um programa mais ativo de recompras do Tesouro americano, isso reduziria a pressão de venda no curto prazo, mas não resolveria as forças estruturais que empurram os juros de 10 e 30 anos para cima, como o volume elevado de emissão de dívida pública e o financiamento via mercado de capitais de gigantes de inteligência artificial3.
Há também o risco de trajetória inversa à sugerida pelo cenário mais otimista: se o choque do petróleo se mostrar duradouro, e não um evento pontual ligado ao conflito no Oriente Médio, o Fed pode ser forçado a manter juros altos por mais tempo do que o mercado precifica hoje, prolongando a pressão sobre os títulos longos em vez de aliviá-la.
O contraste com o Brasil: o Copom caminha na direção oposta
A coincidência de calendário chama atenção. O Copom se reúne nos mesmos dias 15 e 16 de setembro, com decisão anunciada na noite de quarta-feira, horas depois do Federal Reserve, no que o mercado já apelidou de "Superquarta"7. Mas o sentido das duas decisões é oposto. Enquanto o Fed pode subir os juros pela primeira vez desde 2023, o Copom deve cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano, o quinto corte consecutivo desde que o ciclo de calibração começou em março, em meio às incertezas geradas pela própria guerra do Irã sobre cadeias de suprimento e preços de commodities89.
A divergência não é acidental. O ciclo americano responde a um choque de oferta recente, concentrado no petróleo, que ainda não se refletiu de forma persistente nas expectativas de inflação de longo prazo dos EUA. Já o ciclo brasileiro reflete uma desinflação doméstica mais lenta e gradual, que já avança há meses: a Selic caiu de 15% em janeiro para 14,25% em agosto e agora para um provável 13,75%, enquanto a mediana do Boletim Focus para o fim de 2026 permanece em 13,75%, com estimativas mais recentes já um pouco abaixo disso910.
Isso não significa que a inflação brasileira esteja resolvida. A projeção do Focus para o IPCA de 2026 está perto de 5%, acima do teto de 4,5% da meta de inflação (centro de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual)11. O comitê tem preferido, segundo analistas, manter uma mensagem deliberadamente ambígua sobre o ritmo dos próximos cortes, sem se comprometer com um calendário explícito, dado que restam ainda duas reuniões em 2026, em novembro e dezembro89.
O que isso significa para o investidor no Brasil
Juros americanos mais altos tendem, historicamente, a reduzir o apetite por ativos de mercados emergentes, pressionando o real e a Bolsa brasileira, à medida que o Treasury de 10 anos se torna uma alternativa mais atrativa e menos arriscada de renda fixa em dólar. Ainda assim, o comportamento recente dos ativos locais tem mostrado algum descolamento desse padrão, com o Ibovespa iniciando setembro em alta e o dólar em recuo, mesmo com os juros americanos subindo12. Para quem tem títulos prefixados ou indexados à inflação, como as NTN-B, o corte da Selic tende a favorecer, pela marcação a mercado, quem já está posicionado, e a reduzir o retorno de quem compra os papéis agora7.
O que poderia trazer os juros para baixo
Segundo a análise do Wall Street Journal, pelo menos quatro caminhos poderiam reverter a alta recente dos juros longos americanos: uma redução das tensões no Oriente Médio, que tiraria a pressão do petróleo sobre a inflação; uma ou duas altas de juros agora, acompanhadas de comunicação que convença o mercado de que o Fed não está atrasado no combate à inflação; uma desaceleração nos investimentos em infraestrutura de inteligência artificial, que reduziria a emissão de dívida corporativa e poderia esfriar o crescimento; e, no cenário mais extremo, uma recessão franca, que traria os juros para baixo rapidamente, ainda que a um custo econômico alto1.
Nenhum desses fatores garante, por si só, uma reversão rápida. Mas o argumento central do jornal é justamente esse: se a alta atual reflete principalmente uma reprecificação da trajetória de curto prazo dos juros americanos, e não um problema estrutural de confiança fiscal, ela pode, em tese, ser desfeita com a mesma velocidade com que apareceu1.
Perguntas frequentes
Por que os juros do Tesouro americano de 10 anos estão subindo em setembro de 2026?
Principalmente porque o mercado passou a atribuir maior probabilidade a uma alta da taxa básica de juros dos Estados Unidos nesta semana, e a mais altas ao longo do próximo ano, após um choque nos preços do petróleo ligado ao conflito no Oriente Médio elevar as leituras recentes de inflação.
O prêmio a termo explica a alta recente dos juros longos?
Não, segundo as estimativas do Federal Reserve de São Francisco. Esse componente, associado a riscos fiscais de longo prazo, caiu levemente desde o fim de julho, mesmo com os juros de 10 anos subindo no mesmo período.
Existe risco de inflação de longo prazo fora de controle nos Estados Unidos?
As medidas de expectativa de inflação de longo prazo, como o breakeven de 10 anos e a taxa a termo de cinco anos daqui a cinco anos, não mostraram deterioração relevante recentemente e seguem dentro da faixa observada desde 2021.
Por que o Copom corta a Selic enquanto o Fed pode subir os juros na mesma semana?
Os dois ciclos respondem a estágios diferentes. O Brasil vem de um processo de desinflação doméstica gradual iniciado em março, enquanto os Estados Unidos enfrentam um choque de oferta recente, concentrado no petróleo, que elevou a inflação corrente acima da meta do Fed.
O que poderia derrubar os juros longos americanos rapidamente?
Uma redução das tensões no Oriente Médio, uma sinalização mais firme do Fed contra a inflação, uma desaceleração dos investimentos em inteligência artificial ou, no cenário mais severo, uma recessão nos Estados Unidos.