Política · Relações Internacionais

Em duas democracias separadas por um oceano, o outono de 2026 concentra dois pleitos que analistas descrevem como referendos sobre a própria natureza do regime democrático. Em 27 de outubro, Israel vai às urnas pela primeira vez desde o ataque do Hamas de 7 de outubro de 20232. Uma semana depois, em 3 de novembro, os Estados Unidos realizam suas eleições de meio de mandato, com toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado em disputa5. As duas datas, isoladas, já seriam relevantes. Juntas, colocam em teste o equilíbrio institucional de dois países historicamente apontados como referências democráticas ocidentais.

O colunista de opinião Thomas L. Friedman, do New York Times, chamou atenção para essa coincidência de calendário em artigo publicado em 8 de setembro de 2026, no qual argumenta que o que está em jogo nas duas eleições não são apenas os destinos políticos de Benjamin Netanyahu e Donald Trump, mas o futuro da democracia em ambos os países1. A tese é debatida por analistas israelenses e americanos, ainda que com diferentes graus de concordância sobre a gravidade do quadro.

Israel: um pleito que fecha um ciclo raro de estabilidade

A eleição israelense de 27 de outubro marcará algo incomum na política do país: será a primeira vez, desde 1988, que um governo israelense completa integralmente um mandato de quatro anos sem dissolução antecipada da Knesset2. A coalizão liderada por Netanyahu, formada em dezembro de 2022 com partidos como Otzma Yehudit, Sionismo Religioso, Judaísmo Unido da Torá e Shas3, chega ao fim do ciclo em meio a um processo de corrupção contra o próprio primeiro-ministro e a pressões internas para isentar jovens ultraortodoxos do serviço militar obrigatório, tema sensível numa sociedade que vive havia quase três anos sob mobilização militar.

Pesquisas de opinião citadas pela imprensa internacional indicam recuo de popularidade de Netanyahu, atribuído em parte ao desgaste de sua imagem como "guardião da segurança" após os ataques de outubro de 20234. Ainda assim, o sistema eleitoral israelense, de representação proporcional com cláusula de barreira de 3,25% dos votos, historicamente produz coalizões fragmentadas em que partidos pequenos ganham poder de barganha desproporcional4. Isso torna qualquer previsão de resultado sujeita a reviravoltas na fase de composição de coalizão, que costuma se estender por semanas após a votação.

"Oitenta anos depois do Holocausto, 'Mein Kampf' ao contrário. A raça superior somos nós." Moshe Ya'alon, ex-ministro da Defesa de Israel, em declaração ao site israelense Ynet citada por Friedman1

Friedman recorre a essa declaração do ex-ministro da Defesa Moshe Ya'alon, hoje crítico do governo, para ilustrar o alerta que setores do próprio espectro político israelense de direita fazem sobre o rumo da coalizão atual. O argumento central do colunista é que a permanência dessa aliança abriria caminho para o enfraquecimento da Procuradoria-Geral e da Suprema Corte israelenses, com possíveis desdobramentos sobre o status da Cisjordânia. A tese é contestada por defensores do governo, que veem na reforma do Judiciário uma correção de desequilíbrios entre poderes, não uma ameaça à democracia.

Estados Unidos: o Congresso como freio institucional

Nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato de 3 de novembro definem quem controla a Câmara e o Senado na segunda metade do governo Trump. Atualmente, os republicanos mantêm maioria apertada em ambas as casas, com 53 cadeiras contra 45 dos democratas no Senado (mais dois independentes alinhados à oposição)5. Historicamente, o partido que ocupa a Casa Branca perde cadeiras nas eleições de meio de mandato, um padrão que se acentua no sexto ano de um presidente6, e que o próprio Trump reconheceu publicamente em encontro com deputados republicanos, ao resumir a lógica eleitoral americana com a frase "quando você ganha a presidência, perde as midterms"7.

Uma vitória democrata devolveria à oposição um instrumento de contenção sobre a agenda orçamentária e legislativa do governo. Por isso, segundo reportagens da imprensa brasileira e internacional, a estratégia republicana para o pleito passa por redesenho de distritos eleitorais (o chamado gerrymandering) em estados sob controle do partido, prática histórica na política americana que ganhou novo fôlego em 2025 e 20268.

Friedman associa a esse cenário eleitoral um diagnóstico mais amplo sobre o enfraquecimento de instituições federais durante o segundo mandato de Trump, citando o Departamento de Justiça, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, o Pentágono, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças e a Comissão Federal de Comunicações. O colunista também menciona um relatório do próprio Times segundo o qual Trump teria arrecadado cerca de 1,4 bilhão de dólares em receitas de negócios com criptomoedas beneficiados por suas próprias decisões como presidente, conforme declaração financeira divulgada em 30 de junho de 20261. O dado é citado por Friedman como parte de seu argumento sobre conflitos de interesse; não é, por si só, evidência de ilegalidade, e caberá a órgãos de fiscalização e à Justiça americana avaliar eventuais implicações.

O que dizem os números: o retrocesso segundo o V-Dem

A percepção de fragilidade democrática discutida por Friedman em tom de opinião encontra respaldo parcial em dados do V-Dem Institute, da Universidade de Gotemburgo, referência acadêmica em mensuração de democracia no mundo. O Relatório da Democracia 2026, divulgado em março, mostrou que o nível médio de democracia no mundo recuou aos patamares de 1978, com 92 países classificados como autocracias contra 87 democracias9. O relatório rebaixou os Estados Unidos de "democracia liberal" para "democracia eleitoral" pela primeira vez em mais de cinquenta anos, descrevendo a velocidade do declínio sob o segundo mandato de Trump como "sem precedentes na história moderna"9.

O instituto aponta as restrições legislativas, ou seja, a capacidade do Congresso de fiscalizar e limitar o Executivo, como o aspecto mais afetado da democracia americana no período9. É justamente esse mecanismo de controle que está diretamente em jogo nas eleições de 3 de novembro: um Congresso sob maioria de oposição recupera parte de sua capacidade de checagem sobre o Executivo, ao passo que a manutenção da maioria republicana tende a ampliar a margem de manobra presidencial, conforme avaliação de Ian Bassin, diretor executivo da organização Protect Democracy, citada por Friedman.

Contraponto

Nem todos os analistas endossam a leitura de "risco existencial à democracia" atribuída às duas eleições. Defensores dos governos de Netanyahu e Trump argumentam que reformas judiciais e mudanças administrativas fazem parte do jogo democrático normal, sujeitas ao veredito das urnas, e que rótulos como "autocratização" carregam viés editorial de instituições e veículos historicamente críticos a governos de direita. Também vale notar que o próprio V-Dem reconhece que algumas classificações de regime ficam próximas do limiar entre categorias, o que reduz a certeza de certas conclusões9. O debate sobre até que ponto mudanças institucionais configuram erosão democrática ou alternância política legítima segue em aberto entre cientistas políticos.

O olhar do Brasil

Para o público brasileiro, o paralelo mais próximo é o próprio ciclo de tensão institucional vivido pelo país entre 2022 e 2023, quando o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal foram chamados a atuar como garantidores do resultado eleitoral diante de contestações sem base em evidências. A experiência brasileira recente é frequentemente citada em análises comparativas sobre resiliência institucional, e cobertura da imprensa nacional já trata as eleições americanas de novembro como um capítulo relevante para entender os próximos anos da relação bilateral, incluindo disputas comerciais e episódios diplomáticos como a revogação, pelos Estados Unidos, do visto da embaixadora indicada pelo Brasil em Washington8.

O V-Dem também disponibiliza tradução em português de seu relatório anual, o que amplia o acesso de pesquisadores e jornalistas brasileiros aos dados originais sobre autocratização global, permitindo comparações diretas entre a trajetória institucional brasileira e a de outras democracias em teste, como Israel e os Estados Unidos9.

Este artigo utiliza como referência principal o artigo de opinião "Two Nations. Two Democracies at Stake." de Thomas L. Friedman, publicado no New York Times em 8 de setembro de 2026. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido integralmente; trechos específicos foram atribuídos e citados conforme indicado ao longo do texto. Leia o artigo original: nytimes.com/2026/09/08/opinion/israel-us-elections-midterms-netanyahu-trump.html

Perguntas frequentes

Quando são as eleições em Israel e nos Estados Unidos em 2026?

Israel realiza eleições legislativas para a Knesset em 27 de outubro de 20262. Os Estados Unidos realizam suas eleições de meio de mandato (midterms) em 3 de novembro de 2026, uma semana depois5.

Por que essas duas eleições são descritas como um teste para a democracia?

Analistas e o colunista Thomas Friedman associam os dois pleitos a debates sobre concentração de poder no Executivo, enfraquecimento de instituições de controle (Judiciário em Israel, Congresso nos Estados Unidos) e disputas sobre a independência de órgãos de Justiça em ambos os países1.

O que mostra o relatório do V-Dem Institute sobre a democracia americana?

O Relatório da Democracia 2026 do V-Dem Institute rebaixou os Estados Unidos de "democracia liberal" para "democracia eleitoral", classificação que o país não recebia havia mais de cinquenta anos, e descreveu a velocidade do declínio institucional como sem precedentes na história recente9.

Quem é Thomas Friedman?

Thomas L. Friedman é colunista de opinião do New York Times, vencedor de três prêmios Pulitzer, com foco em política internacional e Oriente Médio. O artigo de referência deste texto é uma coluna de opinião, e não uma reportagem factual isenta1.