Um acordo em construção entre Irã e Omã promete reabrir o Estreito de Ormuz. O problema é que a via já estava aberta antes de Washington atacar o Irã em fevereiro.
Depois de mais de cinco meses de guerra, bombardeios noturnos e um estreito estratégico fechado ao comércio mundial, o governo americano corre para fechar um acordo que devolveria ao mundo algo que ele já tinha em fevereiro: um Estreito de Ormuz aberto. Irã e Omã negociam um protocolo para reorganizar o tráfego de navios pela via, e autoridades de Washington e Teerã confirmam que as tratativas avançam. A julgar pelo desenho que vem sendo discutido, porém, o que deveria ser uma vitória diplomática americana pode consolidar exatamente o que os Estados Unidos foram à guerra para evitar: o Irã com controle formal sobre uma das rotas mais movimentadas do comércio internacional de petróleo.
Segundo reportagem do New York Times publicada neste 3 de agosto, o desenho em discussão prevê dois corredores distintos: navios que entram no Golfo Pérsico passariam por um canal próximo à costa iraniana, e os que saem seguiriam por uma rota mais próxima de Omã. Autoridades iranianas afirmam que have uma "taxa de serviço" para cobrir custos de segurança, impacto ambiental e operação, dividida igualmente entre Irã e Omã. Um funcionário americano contestou essa versão, dizendo que qualquer rota estabelecida seria temporária e não envolveria aprovação iraniana nem cobrança de tarifas. [1]
Um retrocesso disfarçado de acordo
O ponto central é temporal. Antes de os Estados Unidos e Israel atacarem instalações iranianas em 28 de fevereiro deste ano, o Estreito de Ormuz operava normalmente, por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta. Ao mesmo tempo, Washington e Teerã mantinham conversas sobre o programa nuclear iraniano, sem que a via marítima estivesse em disputa. [2]
Cinco meses de bombardeios, minas navais e ataques a petroleiros depois, o quadro se inverteu. As negociações nucleares, que deveriam ter sido concluídas em 60 dias segundo um plano assinado em meados de junho pelo vice-presidente JD Vance e por Donald Trump, seguem paradas, e autoridades americanas já admitem que qualquer acordo sobre o estoque de urânio enriquecido do Irã, de 11 toneladas, deve se estender por meses. Enquanto isso, o único item que efetivamente avança é a reabertura de uma rota que, tecnicamente, nunca deveria ter sido fechada. [1]
As opções de Trump estão entre uma guerra que não se vence e uma paz difícil de engolir. Ali Vaez, International Crisis Group
Para o analista Ali Vaez, do International Crisis Group, o Irã trata o controle sobre o estreito como sua principal conquista da guerra, e por isso resiste em abrir mão dele. Segundo Vaez, qualquer solução que deixe Teerã no comando da via coloca o país em posição mais vantajosa do que tinha antes do conflito começar, o que torna o acordo politicamente incômodo para Trump, mesmo sem alternativa militar viável para reverter esse controle. [1]
Cronologia de uma escalada que custou caro
A guerra começou com onze noites seguidas de ataques americanos contra alvos militares, portuários e de infraestrutura de drones no Irã, sempre com o argumento oficial de restaurar a livre circulação em Ormuz. Apesar disso, o próprio Comando Central dos Estados Unidos reconheceu ao longo da campanha que o estreito seguia sob ameaça, mesmo após rodadas de bombardeios. Em abril, um cessar-fogo de duas semanas mediado pelo Paquistão levou o Irã a aceitar, ao menos em tese, a reabertura "completa, imediata e segura" da via, mas o entendimento não se sustentou. Em junho, um novo acordo preliminar derrubou o petróleo Brent para perto de US$ 80 e reacendeu esperanças de normalização, novamente frustradas. [3] [4]
Em 22 de julho, já com o secretário de Estado Marco Rubio alertando publicamente, em reunião da Asean em Manila, que permitir a um país controlar unilateralmente uma via marítima internacional e cobrar por sua passagem criaria um precedente perigoso para o comércio global, o Irã seguia bloqueando o estreito e retaliando contra o que classificava como bloqueio naval americano a seus portos. [5]
Foi só neste início de agosto, depois de Trump adiar pela segunda vez em duas semanas um novo plano de bombardeio intenso preparado pelo Comando Central, que Irã e Omã sinalizaram estar próximos de um entendimento. Autoridades iranianas, no entanto, fizeram questão de esclarecer que o protocolo com Omã não significa, por si só, a reabertura do estreito, atribuindo o fechamento da via ao que chamam de descumprimento de compromissos por parte dos Estados Unidos. [6] [7]
O preço pago fora do campo de batalha
O custo dessa escalada não ficou restrito ao Oriente Médio. A disparada do petróleo Brent, que ultrapassou US$ 90 o barril em julho após meses de conflito, pressionou as projeções de inflação em toda a América Latina, Brasil incluído. Com o diesel mais caro, o frete rodoviário, responsável pelo transporte de cerca de 80% das cargas no país, encareceu, pressionando preços de alimentos e bens de consumo. O Banco Central chegou a rever o ritmo de corte da Selic diante do risco inflacionário externo, e a Petrobras enfrentou pressão para repassar aos consumidores o custo internacional mais alto do barril. [8] [9]
Contraponto
Nem todos veem o acordo em construção como um retrocesso americano. Setores do governo Trump argumentam que qualquer reabertura, mesmo com concessões operacionais ao Irã, é preferível à manutenção do bloqueio, que já custou meses de pressão inflacionária global e risco de escalada militar direta com Teerã. Trump vem afirmando publicamente que a reabertura pode ocorrer "praticamente da noite para o dia" e que trata o entendimento como o primeiro de dois estágios, o segundo sendo a desnuclearização iraniana.
Já dentro do próprio Pentágono, segundo autoridades ouvidas pelo New York Times, há ceticismo sobre o desenho do acordo, com avaliações internas de que a rota negociada ainda exigiria coordenação direta com o Irã para evitar minas navais remanescentes, o que na prática mantém Teerã como intermediário necessário da navegação. [1]
O que fica da guerra
Independentemente de como o acordo final for redigido, o efeito líquido de cinco meses de conflito já é mensurável: uma via que era aberta e sem custo de passagem virou objeto de negociação diplomática, com Irã e Omã discutindo rotas, tarifas e divisão de receita. As negociações nucleares, que motivaram parte da justificativa original para o confronto, permanecem estagnadas. E o governo americano, que entrou na guerra prometendo restaurar a plena liberdade de navegação em Ormuz, hoje negocia para obter uma versão condicionada e tarifada daquilo que já existia antes do primeiro ataque.