São Paulo, 23 de outubro de 2026
O Irã decidiu dizer em voz alta o que antes deixava implícito. Se Estados Unidos e Israel retomarem a campanha aérea contra o país, a resposta não ficará restrita a bases militares e navios de guerra americanos: aeroportos, oleodutos, usinas e cabos de internet dos países vizinhos do Golfo Pérsico passam a ser tratados como alvos legítimos. A ameaça foi feita em público e, segundo relato do The Wall Street Journal, também em canais diplomáticos reservados, por meio de mediadores.
A mensagem chega num momento preciso. As negociações para encerrar a guerra, iniciada em 28 de fevereiro, estão travadas há meses, e o presidente Donald Trump indicou que novos ataques podem vir depois das eleições legislativas americanas de 3 de novembro. Washington desloca um terceiro grupo de porta-aviões para a região e, ao mesmo tempo, retira pessoal diplomático e militar de áreas expostas. O que está em jogo nas próximas semanas é saber se a dissuasão iraniana é blefe calculado ou plano operacional.
O que Teerã diz que vai atingir
A novidade não é o Irã ameaçar retaliar, e sim a amplitude declarada da retaliação. De acordo com o WSJ, autoridades iranianas avisaram mediadores que expandirão os ataques a ativos econômicos de todo o Golfo e tentarão afundar navios americanos com suas tripulações. O chanceler Abbas Araghchi, em artigo no Financial Times citado pelo jornal americano, argumentou que uma nova ofensiva colocaria em risco vidas civis, a estabilidade regional e a economia global.
A estratégia tem um destinatário claro: os governos árabes do Golfo. Segundo reportagem publicada pelo Express Tribune, com base em fontes diplomáticas da região, o aviso foi transmitido principalmente via Arábia Saudita e Catar, com o pedido explícito de que esses países usem sua influência sobre Trump para evitar a retomada dos bombardeios. Na prática, Teerã tenta transformar a vulnerabilidade dos vizinhos em alavanca de negociação.
O histórico recente dá peso à advertência. Na fase inicial da guerra, conforme o WSJ, mísseis e drones iranianos atingiram bases aéreas americanas, embaixadas, o quartel-general da 5ª Frota no Bahrein, instalações de energia nos Emirados Árabes Unidos, uma grande planta de gás no Catar e aeroportos em Dubai, no Kuwait e no Bahrein. Em julho, a Al Jazeera registrou ataques iranianos a usinas de água e energia no Kuwait, num ciclo em que Teerã já repetia que nenhuma infraestrutura estaria segura enquanto sua própria segurança não fosse garantida.
O arsenal que sobrou
A pergunta central é se o Irã ainda tem meios para cumprir o que promete. Os números apontam em direções opostas. O Pentágono afirmou em setembro que os EUA destruíram até 90% da base industrial iraniana de drones, mísseis balísticos e embarcações navais, segundo o WSJ. Por outro lado, analistas citados pelo mesmo jornal estimam que o país mantém de centenas a milhares de mísseis balísticos, e autoridades americanas e regionais acreditam que a produção foi retomada em escala limitada, em instalações subterrâneas e com componentes estocados.
Há também sinais de capacidade qualitativa preservada. O ataque de julho à base aérea Muwaffaq Salti, na Jordânia, matou três militares americanos, e mísseis iranianos chegaram perto de navios de guerra dos EUA em setembro. A nomeação, no último domingo, de Mehrdad Akhlaghi, um dos idealizadores do programa balístico, para o Ministério da Defesa reforça a leitura de que Teerã pretende investir em novas tecnologias, e não apenas repor estoques.
"Devemos ter cautela antes de descartar as ameaças." Vali Nasr, ex-assessor sênior do Departamento de Estado, ao WSJ (tradução livre)
O componente assimétrico pesa tanto quanto o balístico. Desde o início de outubro, o Irã intensificou ataques a navios no Golfo, e duas embarcações afundaram na semana passada, conforme o WSJ. Os houthis do Iêmen, treinados e abastecidos por Teerã, já atingiram refinarias sauditas e paralisaram o tráfego aéreo em Riad. A combinação de drones baratos, aliados regionais e alvos econômicos difíceis de proteger permite causar dano alto a custo baixo, justamente quando os estoques de interceptadores de defesa aérea dos EUA, dos países árabes e de Israel estão sob pressão.
Cabos submarinos: ameaça real, alcance limitado
O elemento mais novo do repertório iraniano é digital. Na quarta-feira, 21, o general Yadollah Javani, vice-comandante político da Guarda Revolucionária, disse à emissora estatal Al-Alam que os cabos de internet que passam sob o Estreito de Ormuz não estariam seguros se a infraestrutura iraniana fosse atacada, segundo o Oman Observer. Dois dias antes, o porta-voz da Guarda havia falado em sete grandes cabos na região.
A ameaça é concreta, mas seu alcance global é menor do que a retórica sugere. O Comitê Internacional de Proteção de Cabos (ICPC), em material citado pela agência curda Rudaw, contabiliza cinco segmentos ativos atravessando o estreito e avalia que um rompimento afetaria sobretudo a conectividade regional, exigindo redirecionamento de tráfego por rotas alternativas. Análise do Iran International, com base em dados da TeleGeography, observa ainda que boa parte desses cabos foi traçada por águas de Omã e serve principalmente aos próprios países do Golfo. O alvo, portanto, não é a internet mundial, e sim os centros de dados, o sistema financeiro e os projetos de inteligência artificial que as monarquias do Golfo vêm construindo.
O relógio eleitoral de Washington
A escalada verbal iraniana tem um calendário. Trump já havia associado a trajetória do petróleo às eleições de meio de mandato: em 9 de setembro, quando o Brent voltou a superar US$ 100 o barril, ele afirmou, segundo a Associated Press, que os preços cairiam logo depois da votação. O raciocínio implícito é que, passado o teste das urnas, a Casa Branca terá mais margem para uma ofensiva que eleve o custo da gasolina para o eleitor americano.
Teerã joga com o mesmo relógio. Ao ameaçar oleodutos, aeroportos e cabos de dados dos aliados americanos, o regime tenta convencer as capitais do Golfo de que o preço de uma nova rodada recairá sobre elas antes de recair sobre o Irã. Enquanto isso, o Departamento de Estado orientou a saída de funcionários não essenciais da Arábia Saudita e reorganizou famílias de diplomatas em outras embaixadas da região, um gesto que, lido em conjunto com o reforço naval, indica preparação para mais de um cenário.
Por que isso chega ao Brasil
Para o Brasil, a geografia de Ormuz é uma questão de safra e de bomba de combustível. Dados da consultoria Agrinvest, reportados pela Forbes Brasil a partir da Reuters, mostram que o país importou 100% da ureia que consumiu em 2025, e cerca de 41% desse volume, perto de 3 milhões de toneladas, passou pelo estreito. O Rabobank, citado também pela Forbes Brasil, projetou queda de cerca de 2 milhões de toneladas nas entregas de fertilizantes em 2026, de um recorde de 49,1 milhões no ano anterior.
No caso do diesel, a ANP registrou que o produto importado respondeu por 27,35% das vendas no país em 2025, segundo dado da Folha de S.Paulo republicado pelo BrasilAgro. A maior parte desse diesel vem dos EUA e da Rússia, e não do Golfo, mas o preço segue a cotação internacional. Foi por isso que o governo federal zerou o PIS/Cofins sobre o combustível e criou uma subvenção por litro ainda em março, medidas que a agência eixos mostrou terem sido prorrogadas à medida que o conflito voltava a esquentar. Um ataque bem-sucedido a oleodutos sauditas ou terminais nos Emirados recolocaria essa conta na mesa do Tesouro.
Há ainda a dimensão diplomática. No primeiro dia da guerra, o Itamaraty condenou os ataques americanos e israelenses e pediu proteção de civis e da infraestrutura civil. Em nota posterior, segundo o Poder360, também condenou a retaliação iraniana contra Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados, Iraque, Kuwait e Jordânia. A nova ameaça de Teerã testa justamente esse segundo pilar: se a defesa da infraestrutura civil vale para todos os lados, a diplomacia brasileira terá de dizer isso com a mesma clareza diante de alvos no Golfo, onde vivem e trabalham comunidades brasileiras.
O que observar nas próximas semanas
Três sinais ajudam a separar dissuasão de intenção. O primeiro é o ritmo dos ataques iranianos a navios no Golfo, que funcionam como termômetro da disposição de escalar sem cruzar a linha de alvos terrestres. O segundo é a postura das monarquias do Golfo: Catar, Omã e Arábia Saudita já pressionam Washington pela retomada das conversas, e uma divisão aberta entre aliados reduziria a margem americana. O terceiro é o pós-eleição nos EUA, quando a variável doméstica que hoje segura a Casa Branca deixa de existir.
Para o leitor brasileiro, o indicador mais concreto será o preço da ureia no início da janela de compras para a safra seguinte e a decisão do governo sobre manter ou não a subvenção ao diesel. A guerra no Golfo está longe, mas sua conta já tem endereço por aqui.
Perguntas frequentes
O que o Irã ameaçou fazer se os EUA voltarem a atacar?
O Irã afirmou que, em caso de novos ataques dos EUA e de Israel, atingirá não só bases e navios americanos, mas também infraestrutura civil e econômica dos países do Golfo, como aeroportos, oleodutos e instalações de energia, além de cabos de internet sob o Estreito de Ormuz.
O Irã ainda tem capacidade militar para cumprir as ameaças?
Em parte. O Pentágono diz ter destruído até 90% da base industrial iraniana de mísseis e drones, mas analistas estimam que o país ainda guarda de centenas a milhares de mísseis balísticos e retomou produção limitada em instalações subterrâneas. Táticas assimétricas, como ataques a navios e uso de aliados como os houthis, ampliam esse alcance.
Cortar os cabos de Ormuz derrubaria a internet mundial?
Não. Segundo o Comitê Internacional de Proteção de Cabos, os segmentos que cruzam o estreito afetam sobretudo a conectividade regional, e o tráfego pode ser redirecionado por rotas alternativas. O impacto maior recairia sobre os países do Golfo, seus centros de dados e serviços financeiros.
Por que as eleições americanas de 3 de novembro importam para o conflito?
Trump indicou que novos ataques ao Irã podem ocorrer depois das eleições legislativas, e associou a queda do preço do petróleo ao período pós-votação. Uma ofensiva antes do pleito arriscaria elevar o preço da gasolina para o eleitor americano.
Como uma nova escalada no Golfo afeta o Brasil?
Principalmente por fertilizantes e combustíveis. Em 2025, o Brasil importou toda a ureia que consumiu, e cerca de 41% passou por Ormuz. Já o diesel importado respondeu por pouco mais de 27% das vendas. Uma alta do petróleo pressiona preços internos e os gastos do governo com subvenções.
Qual é a posição oficial do Brasil sobre a guerra?
O Itamaraty condenou os ataques de EUA e Israel ao Irã em 28 de fevereiro e, depois, também condenou a retaliação iraniana contra países do Golfo, defendendo a negociação e a proteção de civis e da infraestrutura civil.
Ewerton Lopes — Curador Editorial