Educação · Primeira Infância

Um relatório divulgado nesta semana pelo Observatório dos Pequenos, entidade ligada à Fundação Lucie e André Chagnon, em Quebec, coloca um número simples em cima da mesa: cada dólar investido nos primeiros anos de vida de uma criança gera de duas a quatro vezes mais em retorno econômico do que custou1. O documento, apresentado em plena campanha eleitoral na província canadense, não fala de generosidade nem de bondade pública. Fala de aritmética.

Segundo a reportagem do jornal Le Devoir que deu origem ao debate, o acesso antecipado a tratamentos de três doenças crônicas pediátricas no Canadá devolve entre 1,39 e 4,89 dólares para cada dólar adicional gasto, somando economia em saúde no longo prazo, melhor trajetória escolar e maior participação econômica na vida adulta1. Já o investimento em educação na primeira infância pode render até 5,83 dólares por dólar aplicado, e a implantação de uma rede pública de creches em Quebec teria elevado o PIB provincial em 1,7%1.

O apelo do relatório não é apenas técnico. Perto de 90% dos habitantes da província consideram que os partidos políticos deveriam tratar a primeira infância como prioridade, segundo pesquisa Léger encomendada pelo próprio observatório1. Ainda assim, o tema mal aparece nos debates eleitorais, o que a presidente do conselho da entidade, Julie Meloche, chama de oportunidade perdida diante de problemas que se espalham por educação, saúde, moradia e segurança pública.

O que a ciência do desenvolvimento já sabia

Nada disso é exatamente novidade para quem estuda economia do desenvolvimento humano. O argumento central remonta ao trabalho do economista americano James Heckman, vencedor do Nobel de Economia em 2000, para quem programas bem desenhados voltados a crianças em situação de vulnerabilidade, do nascimento aos 6 anos, geram retorno de cerca de 7% a 10% ao ano, puxado por mais escolaridade, melhor desempenho profissional e menos gastos futuros com reforço escolar, saúde e sistema de justiça2. Ao longo de uma vida inteira, esse acúmulo chega a devolver sete dólares para cada dólar investido no início3.

"Um cérebro que se forma nos primeiros anos de vida decide, em boa parte, o adulto e o cidadão que essa criança vai se tornar."

É essa janela de desenvolvimento acelerado, quando as bases neurológicas para aprendizagens futuras se consolidam, que explica por que investimentos feitos cedo custam menos e rendem mais do que tentar corrigir defasagens mais tarde. O relatório de Quebec chama esse fenômeno de efeito dominó: um problema não resolvido na primeira infância se propaga, anos depois, para as filas da saúde, da assistência social e até do sistema penal1.

A conta que o Brasil ainda não fechou

O paralelo brasileiro existe, e tem números próprios. Um estudo do Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública estimou que o país gasta cerca de 6% do PIB por ano com os custos da violência, algo próximo de R$ 373 bilhões em valores de 2016, montante equivalente a todo o investimento público em educação naquele período4. Parte relevante dessa conta, argumentam pesquisadores da área, poderia ser evitada com políticas de proteção e desenvolvimento na primeira infância.

No campo educacional, os economistas brasileiros Ricardo Barros e Rosane Mendonça mostraram que um ano a mais de pré-escola está associado a um crescimento de renda de aproximadamente 11% ao longo da vida adulta5. Naércio Menezes Filho, do Insper, chegou a resultados na mesma direção: passar pela pré-escola equivale, em média, a um ano e meio a mais de escolaridade e a um ganho de 16% na renda futura6.

O problema é que boa parte das crianças brasileiras simplesmente não chega a essa porta de entrada. Dados da Pnad Contínua Educação, divulgados pelo IBGE em junho de 2026, mostram que 41,7% das crianças de 0 a 3 anos estavam matriculadas em creche em 2025, um avanço em relação aos 30,3% de 2016, mas ainda distante da meta de 50% que o Plano Nacional de Educação havia fixado para 20247. Entre os bebês de até um ano, a cobertura cai para 17,6%7.

50% meta PNE 30,3% 2016 35,5% 2019 35,9% 2022 39,7% 2024 41,7% 2025

Percentual de crianças de 0 a 3 anos matriculadas em creche no Brasil. Fonte: Pnad Contínua Educação / IBGE.

A falta de vaga é a segunda razão mais citada por famílias que não conseguem matricular seus filhos: entre bebês de até um ano, 28,1% ficam de fora por esse motivo; entre crianças de 2 e 3 anos, o percentual sobe para 33,4%7. O problema se concentra nas regiões Norte e Nordeste, onde a oferta de vagas segue mais escassa7. Ou seja: parte considerável das famílias brasileiras não escolhe deixar a criança fora da creche por preferência, mas porque a vaga simplesmente não existe.

Dinheiro sozinho não resolve

O relatório de Quebec faz questão de evitar uma leitura simplista de que bastaria injetar recursos para colher os resultados. A qualidade dos serviços, a capacidade de adaptação às realidades locais e a coordenação entre diferentes órgãos públicos, hoje frequentemente fragmentados em silos, aparecem como fatores tão determinantes quanto o volume de investimento1. O documento também chama atenção para o papel de organizações comunitárias, que em muitos casos têm mais capilaridade e competência local do que estruturas estatais centralizadas: segundo uma das pesquisas citadas, cada dólar adicional repassado a esse tipo de organização gera cerca de 12 dólares em economia nos gastos públicos de saúde ao longo de seis anos1.

No Brasil, essa discussão ganha contornos federativos particulares, já que a oferta de creches é responsabilidade primária dos municípios, que enfrentam capacidade fiscal e técnica muito desigual entre si. O novo Plano Nacional de Educação, com vigência entre 2024 e 2034, ampliou a meta de cobertura para crianças de 3 anos para 60%, reconhecendo implicitamente que a meta anterior não foi cumprida no prazo estabelecido7.

Contraponto

Nem todo especialista concorda que ampliar vagas de creche deva ser tratado como prioridade isolada. Parte da literatura em economia da educação pondera que, sem qualidade pedagógica mínima, expansão rápida de vagas pode gerar apenas custódia, sem os ganhos cognitivos que sustentam os retornos econômicos citados nos estudos internacionais. Há também quem argumente que, no caso brasileiro, o retorno mais imediato viria de programas de transferência de renda e nutrição na primeira infância, cujo efeito sobre indicadores de saúde é mais rápido de mensurar do que o impacto educacional de longo prazo.

O que fica da comparação

O relatório canadense não inventa um argumento nem descobre uma verdade inédita. O que ele faz é reunir, em linguagem que fala diretamente a quem decide orçamento, algo que pesquisadores brasileiros e internacionais já vinham demonstrando separadamente: investir cedo custa menos do que remediar tarde. A diferença entre Quebec e o Brasil não está na evidência disponível, que aponta na mesma direção nos dois lugares, mas na distância entre o que a evidência recomenda e o que a política pública efetivamente entrega. Em um país onde quase 6 em cada 10 crianças de até 3 anos ainda estão fora da creche, essa distância tem nome, e tem custo.

Perguntas frequentes

Qual é o retorno econômico de investir na primeira infância?

Estudos internacionais indicam que cada dólar investido na primeira infância, da gestação aos 6 anos, gera entre duas e quatro vezes mais em ganhos econômicos, conforme relatório do Observatório dos Pequenos, de Quebec. O economista James Heckman estima retorno de até sete dólares por dólar investido ao longo da vida.

Quantas crianças brasileiras frequentam creche?

Segundo a Pnad Contínua Educação do IBGE, 41,7% das crianças de 0 a 3 anos estavam matriculadas em creche no Brasil em 2025, abaixo da meta de 50% prevista no Plano Nacional de Educação para 2024.

Por que a primeira infância é considerada uma fase crítica para políticas públicas?

É nos primeiros anos de vida que o cérebro se desenvolve com maior velocidade, formando as bases para aprendizagens futuras. Investimentos feitos nessa fase tendem a custar menos e gerar mais retorno do que intervenções feitas mais tarde para corrigir defasagens.

Qual é o principal motivo para crianças brasileiras ficarem fora da creche?

A falta de vaga é a segunda causa mais citada por famílias, atingindo 28,1% dos bebês de até um ano e 33,4% das crianças de 2 e 3 anos, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste, segundo o IBGE.

Este artigo utiliza como ponto de partida a reportagem "Les tout-petits rapportent beaucoup à l'économie", publicada pelo jornal canadense Le Devoir, assinada por Éric Desrosiers. Leia a reportagem original em ledevoir.com.