Caderno Política · Democracia e participação · 25 de setembro de 2026
O filósofo e escritor espanhol Santiago Alba Rico publicou nesta sexta-feira, 25 de setembro de 2026, no jornal El País, um ensaio que desloca o debate sobre a crise das democracias ocidentais para um ponto pouco explorado: quem vota e quem não vota. Em Intranquilos y razonables1, ele argumenta que o capitalismo, e não as constituições, foi o principal limitador da democracia, e que a ausência crônica dos mais vulneráveis nas urnas funciona como uma herança disfarçada do antigo voto censitário. A tese ganha peso num momento em que a extrema direita alemã acaba de vencer uma eleição estadual com participação recorde e em que o Brasil se prepara para ir às urnas em 4 de outubro.
O texto de Alba Rico é um ensaio de opinião, não uma reportagem, e deve ser lido como tal. Mas seus argumentos se apoiam em fenômenos mensuráveis, e é possível confrontá-los com dados de diferentes países. É o que esta análise se propõe a fazer.
O que é ser razoável quando não se está tranquilo
O ponto de partida do ensaio é uma frase atribuída a Voltaire, segundo a qual razoável é aquilo que todos os seres humanos pensam da mesma forma quando estão tranquilos. Alba Rico aceita essa definição universalista, mas faz uma pergunta incômoda: quando, afinal, a maioria das pessoas está tranquila? Para quem vive pressionado pela fome, pelo trabalho precário, pela doença ou pelo medo, a calma necessária para pensar no bem comum é um luxo raro.
Na leitura do autor, as constituições democráticas registram justamente esses raros momentos de calma coletiva, em que uma sociedade decide, de uma vez por todas, o que não voltará a discutir: a tortura, a pena de morte, a desigualdade entre homens e mulheres. Por isso, argumenta, uma democracia não é apenas a vontade da maioria no presente, mas também o respeito a limites fixados no passado, quando se estava em condições de pensar com serenidade. Um tribunal constitucional, nessa imagem, é quem lembra à sociedade intranquila aquilo que ela mesma decidiu quando estava tranquila.
Do voto censitário ao sufrágio universal inacabado
O ensaio recupera uma ironia histórica. A mesma ideia de razoabilidade serviu, nos séculos XVIII e XIX, para justificar que apenas os proprietários votassem. Se só é razoável quem está tranquilo, e só está tranquilo quem não precisa trabalhar para sobreviver, então apenas as classes abastadas teriam condições materiais de pensar no interesse universal. Alba Rico lembra que Immanuel Kant, defensor da igualdade natural entre os seres humanos, aceitou essa lógica: na Metafísica dos Costumes (1797), o filósofo distinguia cidadãos ativos, aptos a votar, de cidadãos passivos, como assalariados dependentes e mulheres, que deveriam ficar fora das decisões públicas2.
O Brasil conhece bem essa história. A Constituição do Império, de 1824, adotou o voto censitário, condicionado à renda. A Lei Saraiva, de 1881, introduziu a exigência de alfabetização e reduziu drasticamente o eleitorado num país majoritariamente analfabeto. As mulheres só conquistaram o direito ao voto com o Código Eleitoral de 1932, e os analfabetos só voltaram às urnas com a Emenda Constitucional nº 25, de 1985. A Constituição de 1988 consolidou o sufrágio universal e tornou o voto obrigatório para quem tem entre 18 e 70 anos3. Em outras palavras, o sufrágio verdadeiramente universal no país tem menos de meio século.
Para Alba Rico, a conquista formal do voto não resolveu o problema de fundo. Os trabalhadores ganharam o direito de votar, mas não necessariamente as condições de uma vida estável. A democracia, escreve ele, nasceu em condições capitalistas, e cada vez que as duas lógicas entraram em choque no século XX, o custo humano foi imenso.
A sombra censitária: quem ainda não vota
O argumento mais concreto do ensaio está aqui. Mesmo com o sufrágio universal, diz o autor, as democracias ocidentais mantiveram uma "sombra censitária": a abstenção persistente de uma parcela da população que não se sente representada pelos partidos nem se reconhece como cidadã plena. Na Espanha, Alba Rico estima essa resistência à participação entre 20% e 35% do eleitorado, conforme a eleição1. Ele distingue duas abstenções: a consciente e politizada, que pode ser mobilizada em disputas apertadas, e a endêmica, formada pelos mais vulneráveis e mais distantes da política, que nenhuma força tradicional consegue alcançar.
No Brasil, onde o voto é obrigatório, a ausência também é expressiva. No primeiro turno das eleições municipais de 2024, a abstenção chegou a 21,71%, o que equivale a cerca de 34 milhões de eleitores, segundo balanço do Tribunal Superior Eleitoral divulgado pelo Congresso em Foco4. Em Porto Alegre, o número de ausentes superou por pouco a votação do candidato que liderou o primeiro turno. No segundo turno, a ausência chegou a 29,26% nas cidades com disputa, patamar próximo ao registrado na pandemia, segundo dados consolidados pelo TSE e reportados pela Agência Brasil5. Na eleição geral de 2022, a abstenção no primeiro turno foi de 20,79%, conforme o Correio Braziliense6.
Os dados de opinião pública reforçam a intuição de Alba Rico de que a adesão à democracia acompanha as condições materiais. Em pesquisa Datafolha de junho de 2020, a defesa da democracia como melhor forma de governo variava de 69% entre os mais pobres (renda de até dois salários mínimos) a 87% entre quem ganhava mais de dez salários mínimos, e de 66% entre os que cursaram apenas o ensino fundamental a 91% entre os que têm ensino superior, conforme reportou a CartaCapital7. Em dezembro de 2024, o apoio geral havia caído para 69%, dez pontos abaixo do recorde de outubro de 2022, enquanto o grupo que diz que "tanto faz" entre democracia e ditadura subiu para 17%, segundo o levantamento divulgado à época8.
Saxônia-Anhalt: quando os ausentes voltam às urnas
O exemplo mais recente citado pelo ensaio vem da Alemanha. Na eleição estadual de 6 de setembro de 2026 na Saxônia-Anhalt, a Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 43,8% dos votos e 39 das 83 cadeiras do parlamento estadual, ficando a três assentos da maioria absoluta. A CDU caiu para 17,2%, seu pior resultado na história do estado, de acordo com o resultado oficial preliminar9.
O dado que interessa a Alba Rico, porém, é outro: a participação eleitoral chegou a 77,8%, a mais alta desde a reunificação alemã, contra 60,3% em 2021, segundo a Agência Federal de Educação Cívica da Alemanha (bpb)10. A mesma fonte registra que o serviço de inteligência do próprio estado classifica o diretório local da AfD como extremista de direita, classificação contestada pelo partido na Justiça.
Na leitura do ensaísta, os abstencionistas endêmicos decidiram reivindicar sua pátria. A reunificação de 1990, argumenta, deixou parte da população do leste simultaneamente fora do capitalismo próspero e fora de uma identidade alemã plena. A extrema direita, escreve, não oferece soluções, apenas a canalização da raiva contra uma democracia cujas vantagens muitos já não conseguem perceber.
A participação alta, por si só, não é garantia democrática. O que decide o resultado é quem consegue falar com os ausentes antes que eles voltem às urnas movidos pela raiva.Leitura editorial de O Tecido
O autor estende o diagnóstico à Espanha. Para ele, é uma sorte que os mais vulneráveis não votem no país, porque o partido mais capaz de capturar esse eleitorado seria o Vox. Ele menciona ainda os episódios de violência em Ceuta, cidade autônoma espanhola no norte da África que viveu uma crise migratória de grandes proporções no fim de julho, quando dezenas de milhares de pessoas cruzaram a fronteira a partir do Marrocos, com dezenas de mortes, conforme a cobertura internacional11. Para Alba Rico, tanto os agressores de Ceuta quanto os eleitores da AfD exemplificam a combinação entre intranquilidade e irrazoabilidade.
Nova York e a hipótese de uma intranquilidade razoável
O ensaio termina com uma pergunta: é possível ser, ao mesmo tempo, intranquilo e razoável? A resposta que Alba Rico esboça vem de Nova York. Em novembro de 2025, Zohran Mamdani, um socialista democrático muçulmano de 34 anos, venceu a eleição para prefeito com cerca de 50% dos votos, e a participação ultrapassou 2 milhões de eleitores, a maior em uma eleição municipal da cidade desde 1969, segundo o Conselho Eleitoral de Nova York citado pela NBC12. Uma precisão: o ensaio fala em recorde, mas o comparecimento de 1969, de cerca de 2,46 milhões de votos, ainda não foi superado, como observou a rádio WFUV13.
A campanha de Mamdani se concentrou no custo de vida e mobilizou jovens e comunidades de imigrantes. Para Alba Rico, o caso mostra que é possível trazer às urnas os intranquilos com uma proposta que não passe pelo ressentimento. Na sua síntese, a democracia fracassou porque não teve poder suficiente para limitar o capitalismo1, e precisará ser defendida sem que se saiba exatamente como.
O Brasil como laboratório: voto obrigatório e a eleição de 4 de outubro
A tese de Alba Rico foi pensada para democracias de voto facultativo. O Brasil oferece um contraste valioso. Aqui, a obrigatoriedade do voto força, ao menos em tese, a presença dos intranquilos nas urnas. Ainda assim, cerca de um em cada cinco eleitores falta às eleições, e a abstenção tende a ser maior nas capitais e nos segundos turnos.
No primeiro turno de 4 de outubro, 158.745.463 eleitores estarão aptos a escolher presidente, governadores, senadores e deputados, segundo o TSE14. Se a abstenção repetir os níveis recentes, algo entre 30 milhões e 35 milhões de pessoas não comparecerão. O perfil desses ausentes, sua renda, sua escolaridade e sua relação com o Estado, é uma das variáveis menos discutidas da campanha e talvez uma das mais decisivas para a leitura do resultado.
A pergunta que o ensaio deixa para o leitor brasileiro é dupla. Primeiro: o voto obrigatório integra de fato os mais vulneráveis à vida pública ou apenas os leva à urna sem lhes dar voz? Segundo: quais forças políticas estão efetivamente falando com esse eleitorado, e com que tipo de proposta?
Os limites da tese
O diagnóstico de Alba Rico é provocador, mas tem pontos vulneráveis. Críticos lembram que as democracias mais estáveis e de maior participação do mundo são economias de mercado, o que sugere que a relação entre capitalismo e democracia não é necessariamente de oposição, mas depende do grau de proteção social e de regulação.
A abstenção, por sua vez, tem causas múltiplas. Idade, mobilidade, problemas cadastrais e a percepção de que o voto não muda nada pesam tanto quanto a renda. No caso alemão, pesquisas sobre o eleitorado da AfD costumam apontar imigração, identidade regional e desconfiança institucional como fatores tão relevantes quanto a situação econômica.
Por fim, o exemplo de Nova York é uma única eleição municipal, numa cidade com perfil demográfico muito particular. Transformá-lo em modelo exige cautela, sobretudo antes de se conhecer o desempenho do governo Mamdani.
O que está em jogo
A contribuição mais útil do ensaio não está na conclusão sobre o capitalismo, que permanece aberta ao debate, mas na mudança de foco. Em vez de perguntar apenas por que certos eleitores escolhem a extrema direita, Alba Rico pergunta por que tantos cidadãos passaram décadas fora do sistema e o que acontece quando eles decidem entrar. A Saxônia-Anhalt mostrou uma resposta. Nova York, outra. O Brasil, com seu voto obrigatório e sua abstenção persistente, terá em poucos dias mais um dado para essa comparação.
Perguntas frequentes
Qual é a tese central do ensaio "Intranquilos y razonables"?
Santiago Alba Rico argumenta, no El País, que a democracia falhou por não ter poder suficiente para limitar o capitalismo, e que a abstenção crônica dos mais vulneráveis funciona como uma sobrevivência informal do antigo voto censitário.
O que é voto censitário e como ele existiu no Brasil?
É o sistema em que o direito de votar depende de renda ou propriedade. No Brasil, foi adotado pela Constituição de 1824. A Lei Saraiva, de 1881, acrescentou a exigência de alfabetização. O sufrágio universal pleno só se consolidou com a inclusão dos analfabetos em 1985 e com a Constituição de 1988.
Por que a abstenção ajuda a entender a ascensão da extrema direita?
Segundo o ensaio, os eleitores historicamente ausentes formam um contingente que os partidos tradicionais não alcançam. Quando esse grupo volta às urnas mobilizado pela frustração, como ocorreu na Saxônia-Anhalt em 2026, o resultado pode favorecer forças radicais.
Qual foi o resultado da eleição de 2026 na Saxônia-Anhalt?
Em 6 de setembro de 2026, a AfD obteve 43,8% dos votos e 39 das 83 cadeiras. A CDU teve 17,2%, seu pior resultado no estado. A participação foi de 77,8%, a maior desde a reunificação, contra 60,3% em 2021.
Como o voto obrigatório no Brasil se relaciona com a tese de Alba Rico?
O voto obrigatório reduz, em tese, a exclusão dos mais vulneráveis. Mesmo assim, a abstenção no Brasil ficou em torno de 21% no primeiro turno de 2022 e de 2024, o que indica que a obrigatoriedade não elimina a distância entre parte da população e a vida política.
Quando é a eleição de 2026 no Brasil e quantos eleitores estão aptos?
O primeiro turno é em 4 de outubro de 2026 e o segundo, onde houver, em 25 de outubro. Segundo o TSE, 158.745.463 eleitores estão aptos a votar.