Numa mesma semana, autoridades do governo Trump ironizaram os submarinos, os cadetes e a língua francesa do Canadá. O país respondeu nas urnas, elegeu três deputados aliados de Mark Carney e anunciou um investimento bilionário em trens fabricados em solo canadense.
A escalada verbal entre Washington e Ottawa ganhou contornos quase caricatos na última semana de agosto. Em entrevista à CNBC, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que não havia guerra alguma com o Canadá e perguntou, em tom de deboche, se o país iria atacar os Estados Unidos com "os dois submarinos do shopping de Edmonton". A brincadeira remete a uma atração turística que existiu no West Edmonton Mall, no oeste canadense: os submarinos do passeio Deep Sea Adventure, desativados em 2005 e desmontados como sucata em 2012¹.
A piada tinha ao menos dois erros factuais. O parque tinha quatro submarinos, não dois, e eles deixaram de operar há mais de duas décadas¹. Enquanto isso, o Canadá negocia a compra de até doze submarinos de verdade junto à alemã ThyssenKrupp Marine Systems, um contrato estimado em cerca de cem bilhões de dólares canadenses, com as primeiras entregas previstas apenas para 2034². A distância entre a caricatura e a realidade orçamentária resume bem o clima da disputa comercial em curso.
Bessent não foi o único a mirar o Canadá. Dias antes, o secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, publicou nas redes sociais uma foto de uma cadete canadense recebendo uma condecoração de sua instrutora, com a legenda "isto é real" ao lado de um emoji da bandeira canadense. A publicação foi amplamente interpretada como zombaria do peso corporal da instrutora e provocou reação imediata em Ottawa. O ministro da Defesa, David McGuinty, classificou o gesto como "abaixo da dignidade" do cargo, e a comandante das Forças Armadas canadenses, general Jennie Carignan, manifestou solidariedade às militares atingidas³.
Um terceiro front foi aberto pelo secretário de Comércio, Howard Lutnick, sobre um tema mais delicado para o Canadá: a proteção da língua francesa. Depois que as negociações comerciais desmoronaram no fim de agosto, o primeiro-ministro Mark Carney disse que parte do impasse vinha de tentativas americanas de restringir "a proteção da nossa língua, da nossa cultura e, na prática, da nossa soberania". Lutnick rebateu publicamente, negando ter mencionado a palavra francês nas conversas e classificando a versão canadense de "fabricada" para favorecer eleitoralmente o Partido Quebequense na eleição provincial de Quebec⁴. Carney respondeu chamando os integrantes do gabinete americano de "não eleitos" e sem autoridade para interpretar a política interna canadense.
Do lado canadense, a resposta até agora tem sido dupla: nas urnas e na economia real. Em 31 de agosto, o Partido Liberal venceu as três eleições complementares disputadas no país, mantendo a cadeira de Beaches-East York, em Ontário, a de North Vancouver-Capilano, na Colúmbia Britânica, e arrancando dos conservadores a vaga de Chicoutimi-Le Fjord, no Quebec. O resultado eleva a bancada de Carney a 173 assentos, consolidando a maioria governista⁵.
Pesquisas de opinião reforçam esse quadro. Levantamento do instituto Ipsos mostrou que 73% dos canadenses apoiam as tarifas retaliatórias "dólar por dólar" já anunciadas pelo governo, e 63% dizem preferir manter a posição dura mesmo sabendo que isso pode custar empregos e encarecer produtos⁶. Já o Angus Reid Institute registrou 76% de aprovação à decisão de Carney de suspender as negociações com Washington depois que os Estados Unidos apresentaram exigências de última hora consideradas inaceitáveis pela equipe canadense⁷.
No campo econômico, o governo canadense também tem investido em gestos de autonomia industrial. Nesta semana, Carney anunciou um aporte de mais de 4,7 bilhões de dólares canadenses para a compra e manutenção de 313 novos vagões de passageiros da VIA Rail, fabricados pela Alstom em Thunder Bay, no Ontário, e em La Pocatière, no Quebec. É a primeira vez em quatro décadas que os vagões da companhia ferroviária estatal serão produzidos inteiramente em solo canadense, dentro da política de compras chamada Buy Canadian⁸.
Contraponto: a leitura da Casa Branca
Autoridades americanas rejeitam a narrativa de que os comentários recentes configuram hostilidade deliberada. Bessent enquadrou suas falas como resposta ao que chamou de "briga política" promovida por Carney, argumentando que o Canadá recusou uma proposta comercial mais vantajosa do que a oferecida a qualquer outro país¹. Lutnick, por sua vez, insiste que a disputa comercial se originou de exigências de última hora do próprio governo canadense sobre isenção tarifária para caminhões de médio e grande porte, e não de qualquer tentativa de restringir direitos linguísticos em Quebec⁴. Do ponto de vista da equipe econômica de Trump, as tarifas de 50% aplicadas a produtos canadenses fazem parte de uma estratégia mais ampla de reequilíbrio comercial, e as retaliações do Canadá, dizem, tendem a prejudicar também consumidores e empresas americanas em setores como aço e eletrodomésticos.
Colunistas canadenses têm recorrido à história para colocar o momento em perspectiva. Um argumento recorrente, retomado por veículos como o La Presse e também pelo professor Eric Helleiner, da Universidade de Waterloo, em artigo publicado no The Globe and Mail, é que esta não seria a primeira vez que pressões tarifárias americanas tentam forçar uma aproximação política do Canadá com os Estados Unidos. Em 1890, o presidente William McKinley impôs tarifas de quase 50% sobre importações canadenses na esperança de estimular um movimento de anexação. O resultado foi o oposto: o episódio fortaleceu o sentimento nacionalista canadense e, nos Estados Unidos, o Partido Republicano perdeu o controle da Câmara dos Representantes já nas eleições de meio de mandato de 1890, e depois o Senado e a Presidência em 1892⁹.
Para o La Presse, esse padrão histórico (que também incluiria o fim do acordo de livre-comércio em 1865, um episódio associado ao próprio nascimento da Confederação canadense em 1867) sugere que a atual pressão comercial de Trump pode, de novo, sair pela culatra política nos Estados Unidos, especialmente às vésperas das eleições de meio de mandato de 2026¹. É uma leitura otimista para Ottawa, mas que reconhece o custo real da disputa: as tarifas retaliatórias canadenses de até 50% sobre 27,6 bilhões de dólares em produtos americanos, atingindo aço, alumínio, laticínios e eletrodomésticos, entram em vigor em 8 de setembro¹⁰.
Perguntas frequentes
O que Scott Bessent disse sobre os submarinos do Canadá?
Em entrevista à CNBC no fim de agosto de 2026, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, ironizou a capacidade militar canadense sugerindo que o país só poderia atacar os Estados Unidos com "os dois submarinos do shopping de Edmonton", referência a uma atração turística desativada em 2005 no West Edmonton Mall.
Quando entram em vigor as tarifas de retaliação do Canadá contra os Estados Unidos?
As novas tarifas canadenses, que somam C$ 27,6 bilhões em produtos americanos e atingem setores como aço, alumínio, laticínios e eletrodomésticos, entram em vigor às 00h01 de 8 de setembro de 2026.
Os liberais de Mark Carney venceram as eleições complementares de agosto de 2026?
Sim. Em 31 de agosto de 2026, o Partido Liberal venceu as três eleições complementares disputadas, em Ontário, na Colúmbia Britânica e no Quebec, elevando a bancada de Carney a 173 assentos na Câmara dos Comuns.
Por que a tarifa McKinley de 1890 é citada como precedente histórico?
A tarifa imposta pelos Estados Unidos em 1890 sobre produtos canadenses tinha, segundo historiadores, o objetivo político de pressionar o Canadá rumo à anexação. O efeito foi o oposto: fortaleceu o nacionalismo canadense e contribuiu para a derrota republicana nas eleições de meio de mandato daquele ano.
O que é o investimento anunciado por Carney na VIA Rail?
Trata-se de um aporte de mais de C$ 4,7 bilhões para a compra e manutenção de 313 novos vagões de passageiros fabricados pela Alstom em Thunder Bay (Ontário) e La Pocatière (Quebec), marcando a volta da fabricação nacional de vagões após quatro décadas.
Referências
- La Presse, coluna sobre a escalada de insultos da administração Trump contra o Canadá e paralelos históricos com 1812, 1865 e 1890.
- Daily Hive e CP24, reportagens sobre a piada de Scott Bessent com os submarinos do West Edmonton Mall.
- CBC News, cobertura da controvérsia envolvendo o post de Pete Hegseth sobre cadetes canadenses.
- CBC News, reportagem sobre a disputa pública entre Howard Lutnick e Mark Carney a respeito da proteção do idioma francês nas negociações comerciais.
- CBC News e CTV News, cobertura dos resultados das três eleições complementares de 31 de agosto de 2026.
- Ipsos, pesquisa de opinião sobre apoio dos canadenses às tarifas retaliatórias.
- Angus Reid Institute, pesquisa sobre aprovação da decisão de suspender as negociações comerciais com os EUA.
- Gabinete do Primeiro-Ministro do Canadá, anúncio do investimento de C$ 4,7 bilhões na VIA Rail.
- The Globe and Mail, artigo do professor Eric Helleiner (Universidade de Waterloo) sobre precedentes históricos de tarifas americanas contra o Canadá.
- Departamento de Finanças do Canadá (Canada.ca), detalhamento das tarifas retaliatórias em vigor a partir de 8 de setembro de 2026.