2 de setembro de 2026
O TecidoEditorial Político · 22 de maio de 2026

Análise Editorial

Imunidade fiscal para filhos de políticos: o Brasil estaria pronto para seguir os EUA?

A decisão de Trump de blindar sua família de qualquer auditoria do IRS levanta uma questão inevitável: e se algo assim ocorresse aqui, onde Lulinha e Flávio Bolsonaro já estão na mira da Receita Federal?

Editorial PolíticoO Tecido22 mai. 2026Análise · Política Nacional
Quando um presidente tem o poder de processar sua própria agência fiscal e ganhar a disputa — livrando a si mesmo e a seus filhos de qualquer cobrança passada ou futura — algo fundamental se quebra no contrato entre o Estado e o cidadão. O caso americano não é apenas um escândalo de Washington. É um espelho.

§ O que acabou de acontecer nos Estados Unidos

Na semana passada, o governo americano tomou uma decisão que chocou até especialistas conservadores em direito tributário. O presidente Donald Trump, sua família e seus negócios receberam imunidade de quaisquer auditorias fiscais em andamento, por meio de uma diretriz do Departamento de Justiça.

O mecanismo foi, no mínimo, inusitado. O procurador-geral interino Todd Blanche assinou uma ordem declarando que o IRS — o equivalente americano da Receita Federal — está agora "para sempre impedido" de auditar os impostos do presidente, de sua família ou de seus negócios. O documento de uma página foi inserido como adendo a um acordo que Trump fez para encerrar um processo que ele mesmo havia aberto contra o fisco.

Contexto · EUA, maio de 2026

Trump processou o IRS, uma agência dentro de sua própria administração, numa posição que especialistas classificam como rara e possivelmente sem precedente histórico. Como autor e réu simultaneamente, negociou com seus próprios indicados e obteve imunidade total de cobranças passadas.

O caso envolvia uma auditoria de longa data sobre uma técnica tributária que poderia render ao presidente uma conta estimada em US$ 100 milhões, segundo investigação do New York Times e da ProPublica em 2024.

A lógica circular do episódio não passou despercebiada. O senador Jack Reed, democrata de Rhode Island, foi direto: "Isso tudo parece ser um abuso óbvio de poder pelo Departamento de Justiça, pelo presidente. Ele negociou essencialmente consigo mesmo. Você é seu indicado, o IRS são seus indicados, ele é o autor da ação."

"As pessoas esperam que as mesmas regras tributárias e o mesmo arcabouço de fiscalização se apliquem a todos."Daniel Werfel, ex-comissário do IRS

Para especialistas, o sinal enviado é devastador. Werfel classificou a medida como "um remédio sem precedentes", acrescentando que o presidente deveria ser tratado como qualquer outro americano. Juristas da NYU foram mais duros: "O presidente tentando desempenhar todos os papéis do sistema — autor, réu e seu próprio juiz e júri."

§ E no Brasil? Os filhos também estão no centro do debate

A pergunta que surge naturalmente é: e se algo assim acontecesse aqui? Não faltam casos concretos para a discussão — e eles estão nos dois lados do espectro político.

Do campo bolsonarista, deputados federais do PT, PSOL e PCdoB anunciaram recentemente que apresentarão uma denúncia à Polícia Federal, um requerimento à Receita Federal e um pedido de abertura de CPI para investigar a relação entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. O motivo: reportagem do The Intercept Brasil revelou, com base em áudios e mensagens, que Flávio teria negociado diretamente com Vorcaro um aporte de aproximadamente R$ 134 milhões para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro — preso, condenado e impedido de concorrer até 2030. Vorcaro está detido suspeito de liderar uma organização criminosa de fraudes financeiras pelo extinto Banco Master.

A oposição questiona a origem dos recursos, as transferências internacionais e o destino final do dinheiro, levantando possíveis indícios de lavagem de dinheiro, financiamento ilegal e tráfico de influência. Os dados da Receita Federal, segundo o caso, indicam que os valores discutidos entre Flávio e Vorcaro superariam os pagamentos realizados pelo Banco Master a escritórios de advocacia no mesmo período.

— · —

Do campo petista, o quadro também não é tranquilo. Fábio Luís Lula da Silva, o "Lulinha", enfrenta cobranças fiscais resultantes de autuações da Receita Federal relacionadas às investigações da Operação Lava Jato. Os processos somam mais de R$ 10 milhões em autos de infração, ligados a suspeitas de que cerca de R$ 132 milhões foram repassados pela empresa de telefonia Oi à Gamecorp — empresa de Lulinha — entre 2004 e 2016. A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional mantém que as cobranças são válidas, mesmo após as anulações do STF nos processos criminais da Lava Jato que envolviam seu pai.

Em outras palavras: hoje no Brasil há investigações fiscais que tocam os filhos dos dois principais líderes políticos do país — o presidente em exercício e o candidato que representa a principal oposição nas eleições de 2026.

§ A pergunta central: os brasileiros apoiariam uma lei de imunidade?

Imaginemos o cenário: um projeto de lei que determinasse que investigações da Receita Federal contra familiares de figuras políticas relevantes fossem automaticamente arquivadas. Uma espécie de "imunidade tributária por extensão familiar".

A resposta instintiva de boa parte dos brasileiros seria quase certamente não — mas por razões que mudam dependendo de qual lado do espectro político se está.

O eleitor petista, que reclama das cobranças contra Lulinha como perseguição política, deveria lembrar que a mesma lei protegeria Flávio Bolsonaro. O eleitor bolsonarista, que vê no caso Flávio uma armação da esquerda, deveria lembrar que a mesma lei colocaria Lulinha a salvo de qualquer cobrança.

É o dilema clássico do "e se fosse o contrário?": nenhum dos dois lados quer que o filho do adversário escape impune. E nenhum deles quer que o filho do seu líder seja perseguido. A imunidade, por definição, funciona nos dois sentidos — ou não funciona em nenhum.

§ Por que esse debate importa além da polarização

Há uma questão de fundo que transcende a política partidária: a independência das instituições fiscais é um pilar da democracia.

Quando o Estado tem o poder de cobrar impostos de qualquer cidadão, esse poder só é legítimo se for aplicado com imparcialidade. No momento em que políticos — ou seus filhos — passam a ser blindados de fiscalização, dois efeitos perigosos emergem simultaneamente. Primeiro, a lei tributária se torna seletiva: alguns pagam, outros não. Segundo, a Receita Federal, o Ministério Público e o Judiciário passam a ser vistos não como guardiões do interesse público, mas como instrumentos a serem neutralizados por quem está no poder.

O caso americano ilustra o risco com clareza. Especialistas em tributação afirmam que a concessão de imunidade é chocante pela amplitude da proteção que oferece e pode minar a confiança na equidade do sistema fiscal — um sistema em que o presidente pode processar sua própria agência de fiscalização e vencer a disputa é um sistema que perdeu a credibilidade perante os cidadãos comuns.

No Brasil, onde a desconfiança nas instituições já é histórica e onde a polarização política torna qualquer investigação suspeita aos olhos de metade da população, o risco seria ainda maior.

Não, os brasileiros não deveriam ser favoráveis a uma lei que arquive investigações da Receita Federal contra filhos de políticos — não importa se o político em questão é Lula ou Bolsonaro.

A razão não é difícil de entender: quem paga impostos todos os meses, sem poder negociar com ninguém, não tem o luxo de ser "para sempre impedido de ser auditado". O dono de mercearia no interior do Maranhão, o motorista de aplicativo em São Paulo, o pequeno empresário no Rio Grande do Sul — nenhum deles tem esse privilégio.

O precedente americano serve de alerta. Uma democracia que cria categorias diferentes de cidadãos perante o fisco não está apenas criando uma injustiça tributária. Está sinalizando que as regras do jogo mudam conforme quem está jogando. E esse é o caminho mais curto para a deslegitimação completa do Estado de Direito.

Investigações devem seguir os fatos, não os sobrenomes. Isso vale para o filho de Lula. Vale para o filho de Bolsonaro. E valeria para o filho de qualquer presidente que viesse depois deles.

OT
Editorial Político
O Tecido
São Paulo, 22 de maio de 2026
Nossa Missão

Por que existimos?

Entenda os valores que guiam nossa curadoria e o debate de alto nível.

Ver Manifesto
Suporte Editorial

Tem uma ideia?

Damos todo suporte caso você tenha apenas uma ideia concebida, mas queira evoluir seu artigo.

Entrar em Contato

Faça parte do tecido

Seja um editor colaborador