Empreendedorismo · O Tecido Editorial

Uma reunião de diretoria que começa com um exercício de improviso teatral. Um investidor-anjo que recomenda um manual de teatro de 1979 como leitura obrigatória para novos contratados. Um fundador que passa o fim de semana jogando Mafia, o jogo de dedução social, ao lado de outros nomes conhecidos da tecnologia. Esses episódios, relatados recentemente pela jornalista Tara Isabella Burton em artigo de opinião publicado no The New York Times, não são curiosidades isoladas. Eles revelam uma característica estrutural da cultura empreendedora do Vale do Silício: a convicção de que realidade, percepção e performance são, até certo ponto, intercambiáveis, e que dominar essa fronteira é parte do trabalho de quem constrói uma empresa do zero.

O manual de teatro que virou item de estante corporativa

O centro dessa cultura é um livro pouco conhecido fora dos círculos de teatro: "Impro", do diretor britânico Keith Johnstone, publicado em 1979. Segundo o artigo do Times, a obra é leitura recomendada para novos funcionários da Palantir, empresa de análise de dados cofundada por Peter Thiel, e já foi citada por nomes como Trae Stephens, da Anduril, e por blogueiros influentes no ecossistema tecnológico, entre eles Venkatesh Rao e Scott Alexander.

O argumento central de Johnstone é que seres humanos jogam, o tempo todo e de forma inconsciente, jogos de status, ora se posicionando como "alto", ora como "baixo" em relação a quem está à sua frente. Os exercícios do livro treinam atores a perceber esses sinais sociais e a manipulá-los deliberadamente. A tese de fundo é que a realidade cotidiana é menos fixa do que parece, e que aceitar a espontaneidade, em vez de se apegar a normas seguras, abre espaço para criação.

"Existem pessoas que preferem dizer 'sim', e pessoas que preferem dizer 'não'. As primeiras são recompensadas pelas aventuras que têm; as segundas, pela segurança que alcançam."

Essa ideia de "sim, e" (a regra básica do improviso, que consiste em aceitar a proposta do outro e construir em cima dela) tornou-se, nas últimas décadas, quase um mantra de inovação corporativa, replicado em treinamentos de liderança, workshops de design thinking e programas de aceleração de startups no mundo inteiro, incluindo o Brasil.

O "campo de distorção da realidade" como ferramenta de gestão

Se o improviso oferece o vocabulário, o exemplo mais citado de sua aplicação prática nos negócios é Steve Jobs. O termo "reality distortion field" (campo de distorção da realidade) foi cunhado em 1981 pelo engenheiro Bud Tribble para descrever a capacidade do cofundador da Apple de convencer a si mesmo e a terceiros de que tarefas aparentemente impossíveis eram viáveis. A expressão, emprestada de um episódio de "Star Trek", passou a designar a mistura de carisma, insistência e reformulação seletiva dos fatos que Jobs usava para acelerar prazos e recrutar talentos.

Relatos posteriores, incluindo a biografia de Jobs escrita por Walter Isaacson, descrevem como o próprio Steve Wozniak, cofundador da Apple, foi convencido a desenvolver em poucos dias um projeto que normalmente levaria semanas. Para consultorias de liderança e veículos voltados a empreendedores, o episódio virou estudo de caso sobre como "distorcer" prazos e expectativas pode extrair de equipes um desempenho que a lógica sozinha não obteria.

O risco, reconhecido até por quem defende a prática, é que o mesmo mecanismo que acelera equipes também pode mascarar problemas reais. Análises sobre o tema no ambiente de startups já apontaram casos em que o "campo de distorção" deixou de ser combustível para virar autoengano, como no episódio da Juicero, empresa que levantou US$ 120 milhões para um espremedor de sucos conectado à internet cuja força, alardeada como capaz de erguer dois carros, podia ser replicada com as próprias mãos.

Narrativa como ativo, não apenas como discurso

Fora do vocabulário teatral, o mercado de capital de risco tem um nome mais direto para essa habilidade: storytelling. Organizações de apoio a empreendedores como a Endeavor Brasil tratam a construção de narrativa como competência central para quem busca investimento, recomendando que fundadores definam uma mensagem única e a transformem em um discurso conciso antes mesmo de procurar um investidor.

Em mercados financeiros mais amplos, o fenômeno se repete em escala maior. Análises recentes sobre gestão de capital de risco e fundos de longo prazo observam que, enquanto o retorno financeiro concreto pode levar uma década para se materializar, gestores e fundadores precisam manter investidores engajados com uma narrativa convincente sobre o futuro. Em outras palavras: o mercado não avalia apenas números absolutos, mas também "o filme" que uma empresa consegue contar sobre si mesma.

VISÃO INSPIRADORA "Sim, e" no improviso CAMPO DE DISTORÇÃO Steve Jobs / Apple FRAUDE Theranos / Elizabeth Holmes A distância entre os três pontos é decidida por verificação, não por carisma

Ilustração: O Tecido. O mesmo impulso narrativo pode inspirar equipes ou, sem prestação de contas, se transformar em engano deliberado.

Contraponto: quando a narrativa substitui a prova

O caso mais citado como advertência é o da Theranos, startup de diagnósticos sanguíneos fundada em 2003 por Elizabeth Holmes, então com 19 anos. A empresa chegou a valer US$ 9 bilhões prometendo realizar centenas de exames com apenas uma gota de sangue, e Holmes foi repetidamente comparada a Steve Jobs, inclusive na estética que cultivava.

Diferentemente do "campo de distorção" aplicado a prazos internos de engenharia, a narrativa da Theranos foi usada para convencer investidores, reguladores e pacientes de que uma tecnologia funcional já existia, quando não existia. Em 2022, Holmes foi condenada por fraude contra investidores. Analistas do caso costumam resumir a lição da mesma forma: a diferença entre inspirar uma equipe a alcançar o improvável e enganar terceiros sobre um resultado já obtido não é uma questão de grau de otimismo, mas de verificabilidade.

Onde o improviso ajuda, e onde ele deveria parar

Nem tudo nessa cultura é motivo de alerta. Praticantes de teatro imersivo, segundo o artigo do Times, descrevem os jogos de improviso como uma forma de atenção plena, um convite a olhar para o mundo e para as pessoas ao redor com mais cuidado, em vez de menos. Para equipes de empreendedorismo, os mesmos exercícios que treinam atores a ler status social também podem treinar líderes a perceber quando um colaborador está inseguro, quando um cliente está insatisfeito ou quando uma negociação mudou de tom sem que ninguém tenha dito isso em voz alta.

O risco descrito no artigo original está em outro lugar: na ideia de que, se toda a vida é performance, não haveria limites para quem se dispõe a assumir o controle da cena. Aplicado a negócios, esse raciocínio pode transformar prestação de contas em detalhe negociável. A distinção prática para qualquer fundador, investidor ou gestor brasileiro que se interesse pelo tema é simples de enunciar e difícil de praticar: contar uma boa história sobre o futuro da empresa é parte do trabalho; usar essa história para evitar que fatos verificáveis sejam verificados não é.

Perguntas frequentes

O que é o livro "Impro" e por que ele é popular no Vale do Silício?

"Impro" é um manual de teatro escrito por Keith Johnstone em 1979, centrado na ideia de que pessoas jogam constantemente jogos de status social. Empresas de tecnologia, como a Palantir, passaram a recomendá-lo a novos funcionários por tratar persuasão e leitura social como habilidades treináveis.

O que significa "reality distortion field" (campo de distorção da realidade)?

É um termo cunhado em 1981 por um engenheiro da Apple para descrever a capacidade de Steve Jobs de convencer a si mesmo e a outros de que metas aparentemente impossíveis eram alcançáveis, combinando carisma, insistência e reformulação seletiva dos fatos.

Qual é a diferença entre storytelling de fundador e fraude?

Storytelling constrói uma narrativa persuasiva sobre uma visão de futuro ainda não realizada, mas comunicada como tal. Fraude, como no caso Theranos, ocorre quando a narrativa afirma que um resultado ou uma tecnologia já existe e funciona, quando isso não é verdade.

Empresas brasileiras usam técnicas parecidas de storytelling para captar investimento?

Sim. Organizações como a Endeavor Brasil orientam fundadores a estruturar uma mensagem central e transformá-la em discurso de pitch, prática amplamente adotada por startups brasileiras na relação com investidores-anjo e fundos de venture capital.