Política · Igualdade de Gênero

Um relatório da ONU divulgado nesta semana faz uma conta desconfortável: no ritmo atual de avanço, a igualdade entre homens e mulheres na liderança global só será atingida em 2197. Não se trata de uma projeção catastrofista isolada, mas da conclusão de um levantamento anual da ONU Mulheres que cruza dados de mais de cem países sobre parlamentos, tribunais, ministérios e conselhos de administração[1]. O documento descreve um cenário de estagnação e, em vários indicadores, retrocesso, associado ao avanço de movimentos antifeministas e ao enfraquecimento de instituições dedicadas ao tema.

Entre 2020 e janeiro de 2026, o número de mulheres chefes de Estado ou de governo subiu de 20 para 28 no mundo todo. O avanço parece expressivo, mas ainda deixa seis em cada sete países liderados por homens. Nos parlamentos, a tendência é de perda: em 54 países a proporção de mulheres parlamentares caiu nos últimos cinco anos, e o número de ministras recuou 20% em escala global. Pela primeira vez em 21 anos, também diminuiu o número de mulheres que ocupam a presidência ou a porta-voz de parlamentos[1].

Desde 2015, o retrocesso atinge 36 países na representação parlamentar, 27 nos governos locais e 34 nos cargos de direção. E mesmo quando mulheres chegam a cargos de comando, o poder efetivo tende a ser menor: o relatório aponta cortes de pessoal, extinção ou enfraquecimento de órgãos voltados à igualdade de gênero e perda de competências institucionais nos últimos dois anos[1].

Pastas sociais para elas, pastas estratégicas para eles

Um dos achados mais reveladores do relatório é a distribuição das ministras por área. Segundo a ONU, 90% das mulheres em cargos ministeriais ao redor do mundo estão concentradas em pastas ligadas à família e à própria igualdade de gênero. Já nas áreas consideradas estratégicas, a presença feminina despenca: apenas 11% em Assuntos Internos e 12% em Defesa.

Pasta ministerial% ocupado por mulheres
Assuntos de interior11%
Defesa12%
Assuntos financeiros e fiscais17%
Assuntos econômicos19%
Educação29%
Família e infância73%
Mulher e igualdade de gênero90%

Fonte: ONU Mulheres, relatório anual 2026[1]

O padrão se repete em outras esferas de poder. No Judiciário, mulheres já são maioria entre juízas em todo o mundo (51,2%), mas ocupam apenas uma em cada cinco presidências dos tribunais nacionais de mais alta instância. No setor privado, mesmo com mais mulheres em cargos de direção do que antes, elas continuam minoria nos conselhos de administração e ganham menos por hora que homens em cargo equivalente em oito de cada dez países com dados disponíveis[1].

Nos parlamentos com sistemas de cotas consolidados, mulheres ocupam 39,5% das cadeiras e 42,4% dos cargos em governos locais, quase o dobro da média em países sem cotas. ONU Mulheres, relatório anual 2026

Violência política como barreira de entrada

O relatório também associa o retrocesso a um aumento da violência política contra mulheres. Em alguns países, oito em cada dez candidatas ao parlamento e seis em cada dez candidatas a cargos locais relatam ter sofrido violência psicológica, sexual, econômica ou física durante a disputa eleitoral, um risco amplificado pelas redes sociais[1]. A ONU também associa parte do recuo a cortes no financiamento de organizações de mulheres, agravados pelo desmantelamento da agência americana de cooperação USAID: entre 2023 e 2024, os recursos destinados a esses grupos caíram 28%, depois de já representarem historicamente menos de 1% da ajuda oficial ao desenvolvimento[1].

Contraponto

Organizações como o Fórum Econômico Mundial e o PNUD têm defendido que projeções de longo prazo como a de 2197 devem ser lidas com cautela: elas extrapolam tendências lineares e não capturam rupturas possíveis, como mudanças legais pontuais (cotas, financiamento de campanha, licença parental) que historicamente produziram saltos rápidos de representação em países específicos, caso da Ruanda e da Islândia. O próprio relatório da ONU Mulheres reconhece esse potencial ao defender o reforço de cotas como instrumento com efeito mensurável e imediato, não apenas simbólico.

O caso brasileiro: maioria nas urnas, minoria no poder

O padrão global descrito pela ONU aparece de forma nítida no Brasil das eleições de 2026. Segundo a Câmara dos Deputados, as mulheres são 52,84% do eleitorado apto a votar em outubro, um total de 83,8 milhões de eleitoras[2]. Ainda assim, dados da Justiça Eleitoral mostram que elas representam apenas cerca de 35% das candidaturas registradas neste pleito, um hiato de quase 18 pontos percentuais entre o peso eleitoral feminino e a presença nas listas partidárias[3].

A lei eleitoral brasileira já exige cota mínima de 30% de candidaturas por gênero nas disputas proporcionais, mas partidos costumam se limitar ao piso legal. Entre 2018 e 2024, a média de candidaturas femininas ficou em 34%, e apenas 17% delas foram eleitas, segundo o TSE[4]. O resultado coloca o país entre as piores posições do mundo em representação parlamentar feminina, próximo da 138ª colocação entre cerca de 180 parlamentos monitorados pela União Interparlamentar, com mulheres ocupando 17,2% das cadeiras da Câmara[5]. No Senado, a proporção é ainda menor, abaixo de 20%[6].

Uma proposta de novo Código Eleitoral (PLP 112/2021), impulsionada pela bancada feminina do Congresso, prevê reservar não apenas 30% das candidaturas, mas também 20% das cadeiras do Legislativo para mulheres, medida que tentaria repetir no plano nacional o que sistemas de cotas mais rígidos já produziram em outros países[6].

No Executivo federal, o padrão de concentração em pastas específicas também se repete. O governo Lula chegou a ter, no início de 2023, 11 ministras entre 37 pastas (cerca de 30% do primeiro escalão), recorde histórico no país. Reformulações ministeriais ao longo de 2026, porém, reduziram esse número ao patamar mais baixo desde o início do mandato[7]. Historicamente, entre 1985 e 2019, a média brasileira de ministras foi de apenas 8%, bem abaixo da média mundial de 22% no mesmo período, segundo dados da União Interparlamentar[8].

No plano municipal, o quadro é semelhante ao retratado no relatório da ONU sobre concentração em áreas sociais e baixa presença em posições executivas de maior orçamento: mulheres comandam apenas 12% das prefeituras brasileiras, proporção que cai para 4% quando o recorte considera mulheres negras, segundo levantamento do Instituto Alziras[9]. A violência política de gênero também aparece nos dados nacionais: mulheres foram vítimas de 36% dos casos de violência política registrados no Brasil entre 2020 e 2022[9].

Este texto usa como referência principal a reportagem "Las mujeres pierden poder en un mundo cada vez más hostil a la igualdad, según la ONU", publicada por Andrea Minssart em EL PAÍS em 17 de setembro de 2026, com base no relatório anual da ONU Mulheres. Dados e contexto nacional foram apurados de forma independente pela redação de O Tecido.

O que os dados sugerem para os próximos ciclos eleitorais

A leitura combinada dos dois conjuntos de dados, o global e o brasileiro, aponta para um mesmo mecanismo: regras formais de cota funcionam como piso, não como teto, e tendem a estagnar exatamente no limite mínimo exigido por lei. É o que mostra tanto a comparação internacional entre países com e sem cotas consolidadas quanto a série histórica brasileira, em que a proporção de candidaturas femininas se manteve perto de 34% e 35% ao longo de sucessivos pleitos, sem avançar de forma consistente. Para a ONU Mulheres, romper essa estagnação depende menos de novas leis simbólicas e mais de três frentes concretas: financiamento equivalente de campanha, legislação específica contra violência política de gênero e fortalecimento orçamentário dos órgãos que fiscalizam o cumprimento das cotas já existentes[1].

Perguntas frequentes

Quando o mundo deve alcançar a igualdade de gênero na liderança, segundo a ONU?

No ritmo atual de avanço, a ONU Mulheres estima que a igualdade entre homens e mulheres em posições de liderança política, judicial e empresarial só será atingida em 2197, muito além da meta original de 2030 prevista pelo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5.

Quantas mulheres são chefes de Estado ou de governo atualmente?

Entre 2020 e janeiro de 2026, o número global subiu de 20 para 28 mulheres em cargos de chefia de Estado ou de governo. Ainda assim, seis em cada sete países do mundo continuam liderados por homens.

Qual é a representação feminina no Congresso brasileiro em 2026?

Mulheres são 52,84% do eleitorado brasileiro nas eleições de 2026, mas ocupam cerca de 17,2% das cadeiras da Câmara dos Deputados e menos de 20% do Senado, com candidaturas femininas na casa de 35% do total registrado.

Por que as mulheres ocupam mais ministérios sociais do que estratégicos?

O relatório da ONU Mulheres mostra que 90% das ministras do mundo estão concentradas em pastas ligadas à família e à igualdade de gênero, enquanto áreas como Defesa (12%) e Assuntos Internos (11%) seguem majoritariamente ocupadas por homens, um padrão também observado nos ciclos ministeriais brasileiros.

Como a violência política afeta a participação de mulheres na política?

Em alguns países, até oito em cada dez candidatas ao parlamento relatam ter sofrido violência política. No Brasil, mulheres foram vítimas de 36% dos casos de violência política registrados entre 2020 e 2022, um fator apontado como barreira relevante à candidatura e à permanência de mulheres em cargos eletivos.

Referências

  1. Andrea Minssart. "Las mujeres pierden poder en un mundo cada vez más hostil a la igualdad, según la ONU". EL PAÍS, 17 de setembro de 2026.
  2. Portal da Câmara dos Deputados. "Eleições 2026: mulheres representam 52,8% do eleitorado e número de votantes idosos cresce".
  3. Metrópoles. "Maioria do eleitorado, mulheres são apenas 35% dos candidatos em 2026".
  4. Ministério Público Federal. "Eleições 2026: quais são as novas regras para aumentar a participação de mulheres na política?".
  5. Latinoamérica21 / O Tempo. "Disputadas nas urnas, minoritárias no poder: as mulheres nas eleições brasileiras de 2026".
  6. Agência Senado. "Eleições 2026: mulheres buscam superar sub-representação na política".
  7. Bahia Notícias. "Cadê as mulheres? Mudanças levam governo a ter o menor número de ministras desde início do mandato de Lula".
  8. Congresso em Foco. "Recado ao presidente Lula: queremos mulheres em metade dos ministérios".
  9. Banco Mundial (Opinião). "Violência política e a desinformação de gênero no Brasil", com dados do Instituto Alziras.