2 de setembro de 2026
Filosofia

Ídolos com Pés de Barro: o que fazer quando o rock idolatra fascistas

ewerton
28 de julho de 2026
Caderno Filosofia · O Tecido
ÍDOLO DE BRONZE, PÉS DE ARGILA
Ilustração: representação simbólica do arquétipo bíblico do ídolo de pés de barro (Daniel 2), figura recorrente na filosofia da fama para descrever a fragilidade moral dos ídolos culturais.

Em 5 de agosto de 1976, um homem subiu a um palco em Birmingham e pediu que todo estrangeiro na plateia levantasse a mão para que pudesse, em seguida, ser convidado a deixar o país. O homem era Eric Clapton, um dos guitarristas mais reverenciados do rock, que havia acabado de emplacar um sucesso construído sobre uma canção de Bob Marley. O discurso, recheado de elogios ao político ultranacionalista Enoch Powell e de insultos raciais, chocou até seus próprios fãs. Como relembra o jornal El País em reportagem que celebra os 50 anos do movimento Rock Against Racism, nascido como reação direta àquelas palavras, o episódio expôs uma fissura que a cultura pop prefere não olhar de frente: o abismo entre o brilho da obra e a escuridão de quem a produz.[1]

A pergunta que fica, meio século depois, não é sobre Clapton especificamente. É sobre nós. Por que erguemos determinados seres humanos, com todas as suas contradições e pequenezas, à condição de ídolos? E o que fazemos quando o ídolo fala, e o que sai de sua boca é o oposto de tudo aquilo que projetamos nele?

O microfone e o abismo

A reportagem espanhola reconstrói o contexto de um Reino Unido em que o partido de extrema-direita National Front crescia nas urnas e a violência racial se espalhava pelas ruas. Foi nesse cenário que Clapton, sob efeito de álcool e substâncias que ele mesmo reconheceria décadas depois em sua autobiografia, transformou um show de rock em palanque político.[1] O fotógrafo Red Saunders, chocado com o episódio, escreveu uma carta aberta acusando o guitarrista de ser, ele mesmo, um dos maiores beneficiários daquilo que dizia desprezar: a música negra que sustentava sua carreira. Dali nasceria o Rock Against Racism, movimento que levaria cem mil pessoas às ruas de Londres em 1978 e ajudaria a esvaziar o National Front nas eleições seguintes.[1]

O caso de Clapton não foi isolado. Na mesma reportagem, o El País lembra que David Bowie, no mesmo verão de 1976, concedeu entrevistas nas quais elogiava abertamente lideranças autoritárias, declarações que ele próprio atribuiria depois ao consumo excessivo de cocaína e a uma leitura obsessiva e distorcida de Nietzsche.[1] A ironia é dupla: Nietzsche, o filósofo que mais escreveu sobre a criação de valores e a superação de si mesmo, virou álibi para um discurso que nada tinha de filosófico e tudo de destrutivo.

"Quando alguém diz que devemos separar a arte do artista, na verdade está pedindo que se remova a mancha, que a obra permaneça imaculada." Paráfrase do argumento central de Claire Dederer em Monstros: o dilema do fã (2023)

Barro, não bronze: a filosofia da idolatria

Há uma imagem antiga, anterior ao rock e ao cinema, que descreve com precisão incômoda esse fenômeno: a estátua de pés de argila, erguida sobre metais nobres mas sustentada por material frágil, que se despedaça ao primeiro impacto. A cultura de massa reproduz esse arquétipo em série. Construímos ídolos de ouro e bronze, celebridades que carregam nosso desejo de transcendência, de beleza, de genialidade, e depois nos surpreendemos, sempre de novo, quando descobrimos que os pés que sustentam essas figuras são feitos da mesma argila comum que sustenta qualquer outro ser humano.

A filósofa e crítica cultural Claire Dederer batizou esse incômodo de "dilema do fã" em seu livro Monsters: A Fan's Dilemma, lançado em 2023 e publicado no Brasil em 2025 como Monstros: o Dilema do Fã. Dederer parte de sua própria dificuldade em conciliar a admiração por diretores como Roman Polanski e Woody Allen, ou por pintores como Picasso, com o conhecimento das violências que cada um deles cometeu.[2][3] Ela não oferece uma solução fácil. Em vez disso, formula a questão de um jeito que desloca o problema: não se trata apenas de decidir se a obra continua boa apesar do criador ser terrível, mas de entender por que insistimos em amar algo que nasceu, em parte, da mesma escuridão que condenamos.

Essa é a diferença entre um erro moral pontual e aquilo que a própria Dederer chama de mancha: uma marca que não se lava com um pedido de desculpas, porque está entranhada na biografia da obra. O discurso de Clapton em Birmingham não desfez "I Shot the Sheriff", mas manchou permanentemente a maneira como ouvintes atentos escutam a canção.

Contraponto: a autonomia da obra

Nem toda a tradição filosófica concorda que a biografia do autor deva contaminar o julgamento da obra. Correntes formalistas da crítica literária e a ideia da "morte do autor", formulada por Roland Barthes em 1967, defendem que o sentido de uma obra pertence ao leitor e ao texto, não às intenções ou à moralidade de quem a escreveu. Nessa perspectiva, julgar uma sinfonia, um romance ou uma canção pela biografia de seu autor seria uma forma de falácia genética: confundir a origem de algo com seu valor.

Defensores dessa posição argumentam ainda que o cancelamento retroativo apaga contexto histórico sem, de fato, reparar dano algum às vítimas reais, e que a exigência de pureza biográfica aplicada retroativamente a artistas do passado corre o risco de esvaziar acervos culturais inteiros, já que praticamente nenhuma figura histórica resiste ao escrutínio moral contemporâneo sem alguma mácula.

Simonal, Lobato, Caetano: o espelho brasileiro

O Brasil tem seus próprios ídolos de pés de barro, e o debate sobre separar artista e obra não é importação recente. O caso mais emblemático talvez seja o do cantor Wilson Simonal, o "rei do suingue", cuja carreira foi praticamente destruída nos anos 1970 por acusações de colaboração com o regime militar. Reportagens recentes sobre o tema relembram como Simonal se tornou, décadas antes da palavra "cancelamento" existir, o símbolo brasileiro desse mesmo impasse: um artista multidimensional, reduzido por um público ferido a uma única faceta de sua biografia.[4]

O mesmo debate ronda a obra de Monteiro Lobato, autor fundamental da literatura infantil brasileira e também membro confesso de um movimento eugenista que pregava a superioridade branca, chegando a lamentar por carta a ausência de uma Ku Klux Klan no país.[5] Ou a obra de Nelson Rodrigues, cujas peças seguem sendo encenadas apesar do machismo evidente em muitos de seus textos, sustentadas por críticos que insistem em separar o dramaturgo de seus personagens.[4] Mais recentemente, o próprio nome de Caetano Veloso voltou a ser discutido publicamente à luz de padrões morais contemporâneos, num sinal de que nenhum panteão está imune à revisão.[4]

O que esses casos brasileiros revelam, em conjunto com o episódio de Clapton, é que a idolatria cultural obedece à mesma gramática em qualquer latitude: erguemos a figura, ignoramos os sinais de alerta enquanto convém, e só reconhecemos os pés de argila quando já é tarde para não termos nos apoiado neles.

Bowie, a cocaína e o perdão possível

Há, ainda, uma terceira via entre idolatrar sem crítica e cancelar sem possibilidade de retorno: a via do reparo moral. Bowie se afastou rapidamente de suas declarações de 1976, atribuiu-as ao próprio estado de saúde mental da época e doou recursos à Anti Nazi League, organização irmã do Rock Against Racism.[1] Clapton, por sua vez, levou décadas para admitir o problema. Ainda em 2004 chamava Powell de "corajoso", e somente em 2018, durante o lançamento de um documentário sobre sua própria vida, reconheceu publicamente o nojo que sentia de si mesmo por aquele discurso.[1]

A diferença entre os dois músicos não está na gravidade do que disseram, ambos os discursos foram graves, mas na disposição de atravessar o próprio erro em vez de apenas administrá-lo. A filosofia moral distingue arrependimento de mera gestão de reputação: o primeiro exige reconhecer o dano causado a terceiros, não apenas o desconforto causado a si mesmo. Um pedido de desculpas que chega quarenta anos depois, sob os holofotes de um documentário biográfico, convida a uma pergunta desconfortável sobre o quanto desse arrependimento é ético e o quanto é apenas tardio cálculo de imagem.

Perguntas que ficam

Talvez o valor duradouro do Rock Against Racism não esteja apenas no que ele conquistou nas ruas de Londres em 1978, mas no que ele nos obriga a perguntar até hoje. Que responsabilidade cabe ao público que aplaude um ídolo antes de conhecê-lo por inteiro? É possível admirar uma obra sem, com isso, absolver quem a fez? E, principalmente: estamos dispostos a fazer a mesma pergunta sobre os ídolos que ainda amamos hoje, ou reservamos esse exercício apenas para os que já caíram?

Não há resposta confortável. Mas talvez a filosofia sirva exatamente para isso: não para nos dar um veredito pronto, e sim para nos impedir de erguer qualquer estátua sem primeiro examinar do que são feitos os seus pés.

Este artigo foi inspirado pela reportagem "'Si hay algún extranjero en mi concierto, que se vaya': las palabras racistas de Eric Clapton que cambiaron el rock británico", publicada pelo jornal El País em 28 de julho de 2026 e assinada por David Saavedra. Fatos relativos ao discurso de Clapton, à formação do Rock Against Racism e às declarações de David Bowie em 1976 foram consultados na fonte original: elpais.com/icon. O texto acima constitui análise e reportagem originais de O Tecido, com apuração e fontes independentes listadas nas referências ao lado.

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