Em 5 de agosto de 1976, um homem subiu a um palco em Birmingham e pediu que todo estrangeiro na plateia levantasse a mão para que pudesse, em seguida, ser convidado a deixar o país. O homem era Eric Clapton, um dos guitarristas mais reverenciados do rock, que havia acabado de emplacar um sucesso construído sobre uma canção de Bob Marley. O discurso, recheado de elogios ao político ultranacionalista Enoch Powell e de insultos raciais, chocou até seus próprios fãs. Como relembra o jornal El País em reportagem que celebra os 50 anos do movimento Rock Against Racism, nascido como reação direta àquelas palavras, o episódio expôs uma fissura que a cultura pop prefere não olhar de frente: o abismo entre o brilho da obra e a escuridão de quem a produz.[1]
A pergunta que fica, meio século depois, não é sobre Clapton especificamente. É sobre nós. Por que erguemos determinados seres humanos, com todas as suas contradições e pequenezas, à condição de ídolos? E o que fazemos quando o ídolo fala, e o que sai de sua boca é o oposto de tudo aquilo que projetamos nele?
O microfone e o abismo
A reportagem espanhola reconstrói o contexto de um Reino Unido em que o partido de extrema-direita National Front crescia nas urnas e a violência racial se espalhava pelas ruas. Foi nesse cenário que Clapton, sob efeito de álcool e substâncias que ele mesmo reconheceria décadas depois em sua autobiografia, transformou um show de rock em palanque político.[1] O fotógrafo Red Saunders, chocado com o episódio, escreveu uma carta aberta acusando o guitarrista de ser, ele mesmo, um dos maiores beneficiários daquilo que dizia desprezar: a música negra que sustentava sua carreira. Dali nasceria o Rock Against Racism, movimento que levaria cem mil pessoas às ruas de Londres em 1978 e ajudaria a esvaziar o National Front nas eleições seguintes.[1]
O caso de Clapton não foi isolado. Na mesma reportagem, o El País lembra que David Bowie, no mesmo verão de 1976, concedeu entrevistas nas quais elogiava abertamente lideranças autoritárias, declarações que ele próprio atribuiria depois ao consumo excessivo de cocaína e a uma leitura obsessiva e distorcida de Nietzsche.[1] A ironia é dupla: Nietzsche, o filósofo que mais escreveu sobre a criação de valores e a superação de si mesmo, virou álibi para um discurso que nada tinha de filosófico e tudo de destrutivo.
"Quando alguém diz que devemos separar a arte do artista, na verdade está pedindo que se remova a mancha, que a obra permaneça imaculada." Paráfrase do argumento central de Claire Dederer em Monstros: o dilema do fã (2023)
Barro, não bronze: a filosofia da idolatria
Há uma imagem antiga, anterior ao rock e ao cinema, que descreve com precisão incômoda esse fenômeno: a estátua de pés de argila, erguida sobre metais nobres mas sustentada por material frágil, que se despedaça ao primeiro impacto. A cultura de massa reproduz esse arquétipo em série. Construímos ídolos de ouro e bronze, celebridades que carregam nosso desejo de transcendência, de beleza, de genialidade, e depois nos surpreendemos, sempre de novo, quando descobrimos que os pés que sustentam essas figuras são feitos da mesma argila comum que sustenta qualquer outro ser humano.
A filósofa e crítica cultural Claire Dederer batizou esse incômodo de "dilema do fã" em seu livro Monsters: A Fan's Dilemma, lançado em 2023 e publicado no Brasil em 2025 como Monstros: o Dilema do Fã. Dederer parte de sua própria dificuldade em conciliar a admiração por diretores como Roman Polanski e Woody Allen, ou por pintores como Picasso, com o conhecimento das violências que cada um deles cometeu.[2][3] Ela não oferece uma solução fácil. Em vez disso, formula a questão de um jeito que desloca o problema: não se trata apenas de decidir se a obra continua boa apesar do criador ser terrível, mas de entender por que insistimos em amar algo que nasceu, em parte, da mesma escuridão que condenamos.
Essa é a diferença entre um erro moral pontual e aquilo que a própria Dederer chama de mancha: uma marca que não se lava com um pedido de desculpas, porque está entranhada na biografia da obra. O discurso de Clapton em Birmingham não desfez "I Shot the Sheriff", mas manchou permanentemente a maneira como ouvintes atentos escutam a canção.
Contraponto: a autonomia da obra
Nem toda a tradição filosófica concorda que a biografia do autor deva contaminar o julgamento da obra. Correntes formalistas da crítica literária e a ideia da "morte do autor", formulada por Roland Barthes em 1967, defendem que o sentido de uma obra pertence ao leitor e ao texto, não às intenções ou à moralidade de quem a escreveu. Nessa perspectiva, julgar uma sinfonia, um romance ou uma canção pela biografia de seu autor seria uma forma de falácia genética: confundir a origem de algo com seu valor.
Defensores dessa posição argumentam ainda que o cancelamento retroativo apaga contexto histórico sem, de fato, reparar dano algum às vítimas reais, e que a exigência de pureza biográfica aplicada retroativamente a artistas do passado corre o risco de esvaziar acervos culturais inteiros, já que praticamente nenhuma figura histórica resiste ao escrutínio moral contemporâneo sem alguma mácula.
Simonal, Lobato, Caetano: o espelho brasileiro
O Brasil tem seus próprios ídolos de pés de barro, e o debate sobre separar artista e obra não é importação recente. O caso mais emblemático talvez seja o do cantor Wilson Simonal, o "rei do suingue", cuja carreira foi praticamente destruída nos anos 1970 por acusações de colaboração com o regime militar. Reportagens recentes sobre o tema relembram como Simonal se tornou, décadas antes da palavra "cancelamento" existir, o símbolo brasileiro desse mesmo impasse: um artista multidimensional, reduzido por um público ferido a uma única faceta de sua biografia.[4]
O mesmo debate ronda a obra de Monteiro Lobato, autor fundamental da literatura infantil brasileira e também membro confesso de um movimento eugenista que pregava a superioridade branca, chegando a lamentar por carta a ausência de uma Ku Klux Klan no país.[5] Ou a obra de Nelson Rodrigues, cujas peças seguem sendo encenadas apesar do machismo evidente em muitos de seus textos, sustentadas por críticos que insistem em separar o dramaturgo de seus personagens.[4] Mais recentemente, o próprio nome de Caetano Veloso voltou a ser discutido publicamente à luz de padrões morais contemporâneos, num sinal de que nenhum panteão está imune à revisão.[4]
O que esses casos brasileiros revelam, em conjunto com o episódio de Clapton, é que a idolatria cultural obedece à mesma gramática em qualquer latitude: erguemos a figura, ignoramos os sinais de alerta enquanto convém, e só reconhecemos os pés de argila quando já é tarde para não termos nos apoiado neles.
Bowie, a cocaína e o perdão possível
Há, ainda, uma terceira via entre idolatrar sem crítica e cancelar sem possibilidade de retorno: a via do reparo moral. Bowie se afastou rapidamente de suas declarações de 1976, atribuiu-as ao próprio estado de saúde mental da época e doou recursos à Anti Nazi League, organização irmã do Rock Against Racism.[1] Clapton, por sua vez, levou décadas para admitir o problema. Ainda em 2004 chamava Powell de "corajoso", e somente em 2018, durante o lançamento de um documentário sobre sua própria vida, reconheceu publicamente o nojo que sentia de si mesmo por aquele discurso.[1]
A diferença entre os dois músicos não está na gravidade do que disseram, ambos os discursos foram graves, mas na disposição de atravessar o próprio erro em vez de apenas administrá-lo. A filosofia moral distingue arrependimento de mera gestão de reputação: o primeiro exige reconhecer o dano causado a terceiros, não apenas o desconforto causado a si mesmo. Um pedido de desculpas que chega quarenta anos depois, sob os holofotes de um documentário biográfico, convida a uma pergunta desconfortável sobre o quanto desse arrependimento é ético e o quanto é apenas tardio cálculo de imagem.
Perguntas que ficam
Talvez o valor duradouro do Rock Against Racism não esteja apenas no que ele conquistou nas ruas de Londres em 1978, mas no que ele nos obriga a perguntar até hoje. Que responsabilidade cabe ao público que aplaude um ídolo antes de conhecê-lo por inteiro? É possível admirar uma obra sem, com isso, absolver quem a fez? E, principalmente: estamos dispostos a fazer a mesma pergunta sobre os ídolos que ainda amamos hoje, ou reservamos esse exercício apenas para os que já caíram?
Não há resposta confortável. Mas talvez a filosofia sirva exatamente para isso: não para nos dar um veredito pronto, e sim para nos impedir de erguer qualquer estátua sem primeiro examinar do que são feitos os seus pés.