Política · Geopolítica · Análise

Em fevereiro de 1945, num palácio da Crimeia, Franklin Roosevelt, Winston Churchill e Josef Stálin desenharam o mapa do pós-guerra europeu. Oitenta e um anos depois, a palavra Ialta voltou ao vocabulário diplomático por outro caminho: a proposta de Vladimir Putin de reunir Donald Trump e Xi Jinping em uma cúpula a três, em novembro, na cidade chinesa de Shenzhen. A Ucrânia, país onde a guerra é travada, não estaria à mesa.

A ideia ganhou corpo depois de reportagem do The Wall Street Journal e foi tema de um editorial duro do conselho editorial do próprio jornal, publicado em 20 de outubro, que classificou uma eventual "segunda Ialta" como possivelmente a pior ideia do segundo mandato Trump[1]. O texto do WSJ é o ponto de partida desta análise, que reúne o que já se sabe sobre a proposta, o que ela custou até aqui e por que o Brasil deveria acompanhá-la de perto.

O que está, de fato, sobre a mesa

Segundo o Axios, Putin levantou a ideia em dois telefonemas com Trump, e o presidente americano deve viajar à China em meados de novembro para a reunião de líderes da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC)[2]. O Kremlin confirmou a conversa: o porta-voz Dmitri Peskov disse que, como os três chefes de Estado podem estar na China, o tema de uma reunião hipotética foi mencionado, conforme registrou o Moscow Times[3].

Trump, por sua vez, deu sinais ambíguos. Disse aos jornalistas na Casa Branca que toparia o encontro, mas para discutir armas nucleares e desnuclearização, e minimizou a urgência ucraniana ao afirmar que a Rússia, francamente, tem estado tranquila em relação à Ucrânia, segundo o Japan Times[4]. Na mesma semana, ao ser perguntado diretamente sobre a guerra, repetiu que faria o que pudesse para encerrá-la, com ou sem a presença de terceiros.

Pequim, anfitriã do evento, tem sido a mais reticente. O porta-voz da chancelaria chinesa Guo Jiakun repetiu que não tinha informações a oferecer e preferiu enfatizar o papel da China como sede da APEC, segundo a agência Lusa[16]. De acordo com o The Hill, que repercutiu a apuração do WSJ, autoridades chinesas avaliam o risco de uma cúpula trilateral roubar os holofotes do próprio encontro que a China quer usar para projetar seu papel regional[6].

Kiev reagiu de imediato. O chanceler ucraniano Andrii Sybiha escreveu que uma reunião entre Ucrânia, EUA e Rússia poderia acelerar o fim da guerra, enquanto um encontro entre Rússia, China e EUA faria o oposto e encorajaria Putin a continuar lutando, conforme a Euronews[5].

O preço já pago: diesel, sanções e o Graham Act

A cúpula não surge no vácuo. A mesma ligação de 9 de outubro que teria produzido o convite produziu também um acordo controverso sobre exportações de diesel russo para os EUA e mercados internacionais[5]. Trump anunciou que Moscou abasteceria o mundo com mais de 4,8 milhões de toneladas do combustível, segundo a revista Time[8].

Uma semana depois, veio o passo mais relevante. Trump assinou uma ordem executiva que dispensa todas as seções operativas da lei de sanções batizada em homenagem ao falecido senador Lindsey Graham, incluindo tarifas de até 500% sobre produtos russos e de até 100% sobre os cinco maiores compradores de petróleo e gás da Rússia, segundo a ABC News[7]. A dispensa veio dois dias antes do prazo de implementação e somou-se a um alívio temporário das sanções sobre o diesel russo válido até abril de 2027, de acordo com a CNBC[9].

A justificativa da Casa Branca é doméstica: baixar o preço do diesel, pressionado desde o fechamento do Estreito de Ormuz na guerra com o Irã, antes das eleições de meio de mandato. Mas a conta geopolítica é outra. A analista Tatiana Mitrova, ouvida pela Time, avalia que o ganho financeiro maior para Moscou não está no diesel, e sim em escapar de sanções adicionais que ameaçariam suas receitas muito mais volumosas com petróleo bruto[8]. Zelensky foi direto: disse esperar que o alívio continue e que o acordo do diesel não é o fim da história[9].

Concessões feitas antes de uma negociação começar raramente são devolvidas depois dela.ANÁLISE · O TECIDO

O editorial do WSJ lê essa sequência como uma mudança de natureza: o que poderia ser pressão tática sobre Kiev passaria a se parecer com uma tentativa mais ampla de produzir uma paz aparente por meio do apaziguamento de Putin[1].

Por que a analogia com Ialta assusta

O próprio jornal americano reconhece que a comparação é imperfeita: em 1945, Stálin e Churchill eram aliados dos EUA, enquanto Rússia e China hoje são adversários declarados de Washington. O ponto de contato, argumenta o WSJ, está no gesto de repartir o globo entre poucas capitais[1]. Segundo a apuração do jornal relatada pelo Kyiv Post, uma fonte ligada à inteligência russa descreveu a ideia de Putin exatamente nesses termos, como uma conferência no estilo de Ialta para dividir esferas de influência[17].

A lógica das esferas de influência é simples de enunciar e difícil de conter. Ela pressupõe que grandes potências têm direito a zonas de controle em seu entorno e que países médios e pequenos dentro dessas zonas negociam a própria soberania em regime de tutela. A Ucrânia seria o primeiro caso. O WSJ alerta que uma paz imposta dividiria a OTAN e mandaria aos aliados do Pacífico, como Japão, Coreia do Sul e Austrália, a mensagem de que os EUA se tornaram um amigo perigoso[1].

Taiwan como moeda de troca

É no Pacífico que a conta pode ficar mais alta. O editorial lembra que Xi quer incorporar Taiwan sem precisar arriscar um bloqueio ou uma invasão, e que qualquer abertura concedida por Trump pode ser usada para empurrar a presença americana para fora da região, inclusive reduzindo o apoio aos 23 milhões de habitantes da ilha[1]. Se Washington espera da China o compromisso de não ajudar o Irã, a pergunta que o jornal deixa no ar é qual seria o preço cobrado por Pequim.

Desnuclearização: pauta legítima, contexto difícil

A pauta nuclear que Trump prefere não é irrelevante. Com o fim dos acordos de controle de armas entre Washington e Moscou e a expansão acelerada do arsenal chinês, há razões objetivas para conversas a três. O obstáculo, segundo o WSJ, é que Pequim não quer discutir limites antes de alcançar paridade com os EUA[1]. Moscou e Pequim tampouco mostraram abertura real à ideia nos dois anos em que Trump fala nela, como registra o Axios[2].

O fator doméstico: midterms e a fratura republicana

A reação no Congresso americano já começou. Senadores republicanos como Mitch McConnell, Thom Tillis, Susan Collins e John Cornyn pediram a Trump que revogasse o acordo do diesel e aplicasse as sanções[7]. A CNN descreveu a dispensa como alvo de uma reação bipartidária, enquanto o secretário de Estado Marco Rubio defendeu a medida como forma de dar tempo ao presidente para estudar seus efeitos sobre a economia global[10].

O WSJ lembra que a coalizão republicana inclui, desde a Guerra do Vietnã, falcões da defesa e os chamados jacksonianos, eleitores que rejeitam aventuras militares mas apoiam a liderança americana no mundo. Ceder a Europa à Rússia e o Pacífico à China, sustenta o editorial, abriria uma divisão séria no partido, justamente com as eleições de 3 de novembro batendo à porta[1]. O Congresso e os tribunais não conseguem frear um presidente determinado em política externa, mas podem cobrar o custo político.

O que isso significa para o Brasil

A discussão parece distante de Brasília, mas o Brasil está mais exposto do que aparenta. O país se tornou um dos maiores compradores de diesel russo desde 2022. Dados do MDIC compilados pelo O Brasilianista mostram que a Rússia respondeu por 65% do diesel importado em 2024 e por 57% em 2025[13]. Com o fechamento de Ormuz, a dependência disparou: em março e abril de 2026, 81,25% do valor importado veio da Rússia, e só em abril a fatia chegou a 89,84%, segundo a Agência Brasil[11]. O Poder360 estima, com base no centro de pesquisa Crea, que o Brasil importou cerca de US$ 26 bilhões em derivados russos durante a guerra[12].

Participação da Rússia nas importações brasileiras de diesel, 2024 a abril de 2026 0% 30% 60% 90% 65% 2024 57% 2025 47% 1º tri 2026 89,8% abr 2026 pós-Ormuz
Participação da Rússia nas importações brasileiras de diesel. Fontes: MDIC/Comex Stat, via O Brasilianista (2024 a 1º tri 2026) e Agência Brasil (abril de 2026, por valor). A participação recuou nos meses seguintes com a menor oferta russa.

Isso cria uma tensão incômoda. No curto prazo, o alívio americano sobre o diesel russo amplia a oferta global e tende a favorecer importadores brasileiros, que vinham disputando cargas depois que a oferta russa encolheu em meados do ano. A própria Abicom registrou, segundo o Poder360, que a fatia russa caiu para cerca de 17% em julho, empurrando distribuidoras de volta a fornecedores americanos[12]. No longo prazo, porém, um mundo organizado por esferas de influência é desfavorável a potências médias como o Brasil, cuja capacidade de ação depende de regras multilaterais, e não da boa vontade de três capitais.

Há também uma ironia diplomática. Em agosto, durante ato de campanha em Belo Horizonte, o presidente Lula contou ter sugerido a Trump, por telefone, que convidasse Xi Jinping e Vladimir Putin para sua casa na Flórida e buscasse um caminho para a paz, segundo a TSF/Lusa[15]. A sugestão dialoga com a tradição recente do Itamaraty, que em 2024 apresentou com a China uma proposta de entendimentos para a paz e apostou num grupo de países mediadores. A diferença entre uma mediação plural e uma cúpula de três potências sem a Ucrânia, porém, é precisamente o que separa o multilateralismo da partilha. Se Brasília quiser manter coerência, terá de defender que qualquer acordo inclua o país agredido.

Contraponto

O argumento a favor de sentar com Xi e Putin

Defensores da aproximação sustentam que nenhuma guerra entre potências nucleares termina sem conversa direta entre elas, e que excluir Moscou e Pequim de uma mesa de negociação apenas prolonga o conflito. Para essa corrente, a pauta da desnuclearização é a mais urgente do século: sem acordos em vigor entre Washington e Moscou e com o arsenal chinês em expansão, uma conversa a três seria a primeira chance real de conter uma nova corrida armamentista.

A Casa Branca acrescenta um argumento econômico e tático. Trump afirmou que não quer fazer nada que afaste a Rússia da mesa de negociações, conforme a Euronews, e o alívio do diesel aliviaria preços que pesam sobre consumidores americanos e de outros países, inclusive o Brasil[14]. Diplomatas da tradição realista lembram ainda que a própria ideia de uma cúpula trilateral foi aventada por líderes do Sul Global, entre eles o presidente brasileiro. O desacordo central, portanto, não é sobre conversar, mas sobre quem tem lugar à mesa e o que pode ser concedido antes de a conversa começar.

Perguntas frequentes

O que é a proposta de "Ialta 2"?

É a expressão usada para descrever a cúpula trilateral sugerida por Vladimir Putin entre Rússia, EUA e China, possivelmente às margens da reunião da APEC em Shenzhen, em 18 e 19 de novembro de 2026, para discutir o fim da guerra na Ucrânia sem a presença de Kiev. O nome remete à Conferência de Ialta de 1945, em que Aliados definiram zonas de influência no pós-guerra.

A cúpula entre Trump, Putin e Xi está confirmada?

Não. Até 21 de outubro de 2026, o Kremlin admitiu que o tema foi discutido e Trump disse estar aberto ao encontro, mas a China afirmou não ter informações a oferecer e a Casa Branca não anunciou agenda oficial.

Por que Trump suspendeu sanções contra a Rússia?

A Casa Branca alega que as tarifas previstas na lei de sanções assinada em setembro dificultariam a queda do preço do diesel, pressionado pela guerra com o Irã, e poderiam afastar a Rússia das negociações de paz. Críticos dizem que a medida beneficia diretamente o financiamento da guerra russa.

Como isso afeta o Brasil?

O Brasil é um dos principais compradores de diesel russo desde 2022. O alívio de sanções pode aumentar a oferta do combustível no curto prazo, mas uma ordem internacional baseada em esferas de influência reduz o espaço de potências médias que dependem de regras multilaterais.

Qual a posição da Ucrânia?

O chanceler Andrii Sybiha afirmou que uma reunião entre Rússia, China e EUA encorajaria Putin a continuar a guerra e defendeu um formato trilateral com Ucrânia, EUA e Rússia.

Este artigo foi produzido com base no editorial "Trump's New Global Triumvirate?", do Conselho Editorial do The Wall Street Journal, publicado em 20 de outubro de 2026, disponível em wsj.com, complementado por apuração independente em fontes internacionais e brasileiras. O texto original não foi reproduzido nem traduzido; as ideias atribuídas ao WSJ estão parafraseadas e creditadas.