A economia chinesa encontrou na inteligência artificial um de seus motores mais dinâmicos. Segundo a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, na sigla em inglês), o setor de IA no país cresce a um ritmo superior a 30% ao ano, um número que o órgão apresentou nesta sexta-feira como evidência de que a tecnologia deixou de ser promessa para se tornar peça estrutural do crescimento nacional.
O anúncio foi feito por Jiang Yi, porta-voz da NDRC e diretor do gabinete de pesquisa de políticas do órgão, durante coletiva de imprensa em Pequim. De acordo com a agência estatal Xinhua, Jiang afirmou que a China pretende intensificar a inovação independente, fortalecer a pesquisa básica e acelerar tanto a abertura de dados quanto o desenvolvimento de grandes corpora linguísticos para treinamento de modelos.
Um plano de escala continental
O centro do anúncio é financeiro: as redes de computação da China devem receber 4 trilhões de yuans (cerca de US$ 589,2 bilhões) em novos investimentos diretos durante o 15º Plano Quinquenal, que cobre o período de 2026 a 2030, segundo dados repassados por Jiang e confirmados pela Xinhua. Como o desenvolvimento de capacidade computacional depende majoritariamente de investimento empresarial, o funcionário disse que essa meta abre um espaço considerável para capital privado, e que o governo pretende reforçar orientação e apoio para tornar o ambiente mais favorável a esses investidores.
Reportagens de veículos como o South China Morning Post situam esse movimento dentro de um esforço mais amplo de Pequim para conectar milhares de data centers em uma rede computacional unificada, com prioridade para fornecedores domésticos de chips e infraestrutura. Levantamentos da imprensa especializada, como o site Tech Times, apontam que, somada a integração com a rede elétrica necessária para sustentar essa expansão, a conta total do projeto pode chegar a algo próximo de 5 trilhões de yuans, ou US$ 740 bilhões.
Documentos analisados pelo projeto DigiChina, da Universidade Stanford, descrevem essa Rede Nacional Unificada de Computação como resposta direta às restrições de exportação de semicondutores avançados impostas por Washington. Diante da dificuldade de acesso a chips de ponta, a estratégia chinesa passou a mirar a eficiência no uso do que já existe, evitando que governos locais repitam o padrão recente de construir data centers em excesso para cumprir metas regionais de digitalização.
Do chip à aplicação: a cadeia completa
Segundo Jiang, a NDRC também vai acelerar o planejamento e a construção de bases nacionais de testes-piloto para aplicações de IA, aprofundando a colaboração entre diferentes elos da cadeia produtiva. A meta declarada é articular de forma coordenada modelos de linguagem, chips, infraestrutura em nuvem e cenários de aplicação, um conceito que analistas chineses vêm resumindo pela sigla 模芯云用 (modelo-chip-nuvem-aplicação), citada por veículos como o Tech Times como um novo vocabulário oficial de planejamento.
Essa mudança de ênfase também aparece em documentos do próprio Plano Quinquenal. Conforme reportagem do Wikisource compilada sobre o texto oficial, a meta antiga de autossuficiência em semicondutores, herdada da estratégia Made in China 2025 e não atingida integralmente, foi substituída por um indicador de penetração: a participação da economia digital no PIB, projetada para alcançar 12,5% até 2030. Na prática, Pequim passou a medir sucesso pela profundidade com que a infraestrutura computacional se espalha pela economia, não apenas pela capacidade de fabricar chips internamente.
No campo regulatório, Jiang reafirmou o compromisso da comissão com o avanço de uma lei de IA aguardada há tempos, que busca equilibrar desenvolvimento tecnológico e segurança. O tema já constava do Plano de Trabalho Legislativo de 2026 divulgado pelo Conselho de Estado em maio, que prevê acelerar legislação abrangente sobre governança de inteligência artificial e aprimorar regras relativas a dados, algoritmos, capacidade computacional, propriedade intelectual e segurança cibernética, ainda sem contornos de uma lei única e definitiva.
Contraponto
Nem todas as leituras do plano são otimistas. Análises como a publicada pela Unicamp sobre programas de IA em geral costumam alertar que metas de investimento de grande porte tendem a superestimar a capacidade de execução coordenada entre Estado e setor privado, especialmente quando dependem majoritariamente de aportes empresariais, como reconhece a própria NDRC no caso chinês.
Há ainda a leitura geopolítica: reportagens do The Diplomat descrevem a rede computacional chinesa como um projeto de dupla finalidade, civil e estratégica, que vem sendo oferecido a países do Sul Global por meio de plataformas multilaterais, um ponto que tende a acirrar a disputa tecnológica com os Estados Unidos em vez de dissolvê-la.
Por fim, dados do próprio setor mostram fragilidades: segundo a KuCoin, o capital de risco destinado a startups chinesas de IA caiu nos últimos anos, com volume de negócios recuando cerca de 30% ano a ano, o que obriga o governo a recorrer a fundos soberanos de orientação para preencher a lacuna deixada pelo mercado.
O espelho brasileiro
A escala do anúncio chinês evidencia, por contraste, o tamanho da aposta brasileira. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), batizado "IA para o Bem de Todos" e coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, prevê R$ 23,03 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028, distribuídos em cinco eixos que vão de infraestrutura a capacitação de servidores públicos, segundo o documento oficial publicado pelo MCTI.
Análise do Instituto de Economia da Unicamp pondera que esse valor, embora ambicioso para os padrões orçamentários brasileiros, ainda é modesto diante do investimento privado que movimenta a IA na maior parte do mundo, e reconhece dificuldades históricas de cooperação entre setor público e privado na execução de políticas dessa natureza no país. Enquanto o Brasil mede seu programa em bilhões de reais ao longo de quatro anos, a China projeta trilhões de yuans em um único eixo, o de infraestrutura computacional, para o mesmo horizonte de tempo.
A comparação não pretende diminuir a relevância do esforço nacional. Iniciativas como a criação de datacenters "verdes" alimentados por energia renovável e o Centro Nacional de IA para a Indústria, descritas pelo próprio MCTI, indicam prioridades que também aparecem no planejamento chinês, especialmente a atenção à sustentabilidade energética dos centros de dados. A diferença está sobretudo na escala de capital mobilizado e no papel que o Estado assume na coordenação entre bancos, empresas de telecomunicações e fabricantes de hardware.
Ewerton Lopes — Curador Editorial