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Caderno Tecnologia · IA & Geopolítica

Uma sede modesta em um espaço de coworking em Londres abriga, hoje, uma das apostas mais ambiciosas da política tecnológica britânica. Ali funciona a Cosine, startup de cerca de 30 pessoas que captou até agora US$ 15 milhões e que foi escolhida pelo governo do Reino Unido para construir o Lumen Sovereign, descrito por autoridades como o primeiro modelo de IA "totalmente soberano" do país.[1]

O projeto nasceu de uma inquietação que já não é exclusividade britânica: bancos, operadoras de telecomunicações e fabricantes de armamento temem depender de infraestrutura de IA construída, hospedada e controlada por empresas americanas ou chinesas. Segundo a Cosine, o Lumen Sovereign será treinado inteiramente em solo britânico, no supercomputador Isambard-AI, em Bristol, usando recursos de computação concedidos pelo programa Sovereign AI do governo do Reino Unido, orçado em 500 milhões de libras.[2][3]

Uma coalizão de peso já assinou memorandos de entendimento para ajudar a desenhar o modelo: BT, HSBC, Lloyds Banking Group, NatWest, BAE Systems, Babcock, London Stock Exchange Group, PwC, Thales UK, Leonardo UK, Telefónica Tech e, mais recentemente, Vodafone Business e OneAdvanced.[3][4] Cada uma dessas empresas ajudará a definir casos de uso, requisitos de segurança e padrões de governança antes de um lançamento planejado para o fim de 2026.

"Precisamos de uma IA de fronteira que possamos realmente controlar: onde o modelo roda, quais dados o treinaram, quem pode auditá-lo."

A frase, do cofundador e CEO da Cosine, Alistair Pullen, resume o argumento central do projeto.[4] A empresa nasceu em 2022 com uma ambição diferente: construir um "engenheiro de software" baseado em modelos de linguagem, aproveitando acesso antecipado a sistemas da OpenAI obtido durante sua passagem pela aceleradora Y Combinator. O plano perdeu força quando concorrentes maiores, sobretudo a Anthropic com o lançamento do Claude Code, dominaram o mercado de ferramentas autônomas de programação.[1] A resposta da Cosine foi migrar para um nicho menos disputado: adaptar e treinar modelos para indústrias fortemente reguladas, como serviços financeiros e defesa, onde a exigência de rodar em servidores próprios do cliente é, muitas vezes, inegociável.

Tecnicamente, o Lumen Sovereign usa uma arquitetura de "mistura de especialistas" (mixture of experts), popularizada pela chinesa DeepSeek, e parte de bases inspiradas no Mistral Large 3, modelo europeu de peso aberto com 675 bilhões de parâmetros totais e 41 bilhões ativos por inferência.[5] Segundo Pullen, o modelo britânico deve ter o dobro do tamanho. A Cosine estima que o Isambard fornecerá cerca de 80% da capacidade computacional necessária, com o restante vindo de data centers privados no Reino Unido.

O paralelo canadense: Cohere e a corporativização da IA de fronteira

O caso britânico ecoa, com alguns anos de vantagem, a trajetória da Cohere, a empresa canadense fundada em Toronto em 2019 por Aidan Gomez, Ivan Zhang e Nick Frosst. É uma das poucas companhias no mundo, ao lado de OpenAI, Anthropic, Google DeepMind, Mistral e alguns laboratórios chineses, que constrói modelos de linguagem de fronteira do zero, em vez de apenas aplicações sobre modelos de terceiros.[6]

A diferença estratégica é que a Cohere nunca tentou ser um concorrente direto do ChatGPT. Construiu sua base de receita em contratos corporativos e governamentais: implantação on-premise por meio do produto Model Vault, parceria com a Bell para o assistente North, expansão da integração com a nuvem soberana da SAP na Europa e modelos customizados em japonês (com a Fujitsu) e coreano (com a LG).[7] Segundo o CEO Aidan Gomez, a receita da empresa ligada aos Estados Unidos caiu de cerca de 80% para menos da metade do faturamento total entre 2025 e o início de 2026, mesmo com o negócio global mais que dobrando de tamanho no período.[7]

Em abril de 2026, a Cohere anunciou fusão com a alemã Aleph Alpha, movimento lido por analistas de política digital como reforço à posição da empresa na chamada "aliança de tecnologia soberana" entre Canadá e Alemanha.[8] Um mês depois, a espanhola Indra assinou memorando com a Cohere para desenvolver soluções conjuntas de IA soberana entre Espanha, Canadá e o restante da Europa, incluindo aplicações de defesa e comando e controle assistido por IA.[9]

Contraponto: o modelo soberano corporativo é mesmo o futuro?

A favor: defensores argumentam que, para setores regulados como bancos, saúde e defesa, um modelo fechado, auditável e hospedado localmente resolve um problema real de conformidade e segurança nacional, algo que assistentes de uso geral, hospedados fora do país, dificilmente resolvem sozinhos.

Contra: investidores ouvidos pelo Financial Times são céticos quanto à viabilidade financeira do modelo britânico. Um investidor de capital de risco familiarizado com a Cosine afirmou que a empresa precisará captar centenas de milhões de libras para se tornar minimamente competitiva, e que ainda está em estágio inicial dessa jornada.[1] Há também quem questione se modelos corporativos "soberanos", mais estreitos em propósito, conseguirão acompanhar o ritmo de investimento e talento dos laboratórios de fronteira generalistas, que seguem captando bilhões de dólares e atraindo os pesquisadores mais cotados do setor.

Por que isso importa para o Brasil

A discussão sobre soberania em IA não é exclusividade de Reino Unido e Canadá. O Brasil lançou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com previsão de R$ 23,03 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028, parte deles destinada à construção de uma "nuvem soberana" nacional voltada à gestão pública e à proteção de dados sensíveis.[10][11] Analistas críticos do plano, no entanto, apontam uma contradição estrutural: o supercomputador nacional roda com GPUs importadas da Nvidia e boa parte dos data centers do país ainda depende de provedores de nuvem estrangeiros, o que relativiza o discurso de autonomia tecnológica plena.[12]

Um estudo da IDC citado pela Dell Technologies indica que mais de 60% das organizações brasileiras planejam investir em IA soberana no próximo ano, movimento que também aparece em iniciativas estaduais, como a plataforma SoberanIA, originada no Piauí e desenvolvida em conformidade com a LGPD e com as diretrizes do PBIA.[13]

Há ainda um pano de fundo que conecta diretamente o caso Cosine ao noticiário recente sobre governança de IA: dias depois de o Reino Unido anunciar acesso da Cosine ao supercomputador Isambard, os Estados Unidos suspenderam temporariamente o acesso de grupos estrangeiros aos modelos Mythos e Fable, da Anthropic, por força de controles de exportação do Departamento de Comércio americano. O acesso foi restabelecido no início de julho de 2026.[1][14] Episódios como esse reforçam, para governos e empresas de fora dos Estados Unidos, o argumento de que depender de um único fornecedor estrangeiro de IA de fronteira é um risco estratégico, não apenas comercial.

O que está realmente em jogo

Nem Cosine nem Cohere pretendem, hoje, competir de frente com OpenAI, Anthropic ou Google no mercado de assistentes de IA para o público em geral. A aposta de ambas é distinta: modelos mais estreitos em propósito, implantados dentro da infraestrutura do cliente, com governança e auditoria desenhadas junto com bancos, seguradoras, operadoras de telecomunicações e órgãos de defesa. Se esse modelo de negócio se provar sustentável financeiramente (o ponto mais contestado por investidores no caso britânico), ele pode se tornar um caminho paralelo e relevante ao dos grandes modelos de uso geral, especialmente em países que, como o Brasil, discutem hoje como equilibrar acesso à IA de fronteira e controle sobre dados estratégicos.

Nota de atribuição: esta reportagem foi inspirada na cobertura original de Jamie John, "Can a 30-person start-up build Britain's answer to OpenAI?", publicada pelo Financial Times em ft.com. O texto abaixo é reportagem original de O Tecido, com apuração e fontes adicionais listadas na seção de referências.