Um número concentra a atenção de economistas em Washington neste ano: US$ 39 trilhões. É o tamanho da dívida pública dos Estados Unidos, e a pergunta que vem ganhando força é se a inteligência artificial (IA) pode ajudar a conter esse crescimento. A resposta curta, segundo análises recentes de centros de pesquisa como o Yale Budget Lab, é: ajuda, mas não resolve.
A hipótese é simples de entender. Se a IA tornar os trabalhadores mais produtivos, a economia cresce mais rápido. Economia maior gera mais arrecadação. Mais arrecadação, em tese, reduz o déficit. O problema está no meio do caminho: entre a produtividade e o caixa do governo existem escolhas políticas, um sistema tributário desenhado para outra economia e a possibilidade real de que a IA substitua postos de trabalho em vez de apenas turbiná-los.
O que diz o estudo mais citado sobre o tema
Em maio de 2026, o Yale Budget Lab publicou uma modelagem detalhada sobre os efeitos fiscais da adoção de IA até 2050. No cenário considerado "moderado" — mediana entre economistas consultados —, o crescimento da produtividade do trabalho poderia chegar a 2,5% ao ano entre 2025 e 2030, patamar bem acima da média de 1,8% registrada na década anterior. Isso seria suficiente para desacelerar, e eventualmente reverter, a trajetória de alta da relação dívida/PIB.
Mas o próprio relatório trouxe uma ressalva importante: esse resultado só se sustenta se o governo não aumentar significativamente os gastos para amparar trabalhadores deslocados pela automação. Em um cenário mais generoso de assistência a desempregados, os ganhos fiscais da produtividade encolhem consideravelmente.
Por que o Fisco americano pode ficar de fora da festa
Outro ponto levantado pelos pesquisadores de Yale, em análise publicada em julho pela Axios, é estrutural: a maior parte da receita tributária dos Estados Unidos vem da folha de salários, não do capital. Se a IA aumentar os lucros de empresas e investidores mais do que os salários, uma fatia maior da renda nacional passa a ser taxada em alíquotas mais baixas — já que rendimentos de capital historicamente pagam menos imposto do que rendimentos do trabalho nos EUA.
Na prática, mesmo num cenário otimista de crescimento puxado por IA, o ganho de receita estimado pelos pesquisadores de Yale ficaria muito abaixo do déficit anual projetado pelo Congressional Budget Office (CBO), órgão oficial de orçamento do Congresso americano, que projeta um rombo de cerca de US$ 1,9 trilhão para o ano fiscal de 2026. Ou seja: mesmo no melhor cenário de produtividade, a conta ainda não fecha sozinha.
O alerta de Dario Amodei sobre taxar a IA
O debate ganhou um interlocutor de peso dentro da própria indústria. Em janeiro de 2026, Dario Amodei, CEO da Anthropic — empresa por trás do assistente de IA Claude —, publicou um longo ensaio no qual defendeu que bilionários e empresas de IA deveriam apoiar uma reforma tributária progressiva antes que a desigualdade gerada pela automação "quebre a sociedade", em suas palavras. Meses depois, em junho, Amodei detalhou a proposta em um novo texto, sugerindo que parte da receita de um imposto sobre companhias de IA financiasse uma renda básica para trabalhadores substituídos pela tecnologia.
O argumento de Amodei é pragmático: se os mais ricos não apoiarem uma "boa versão" da taxação, correm o risco de enfrentar, mais adiante, uma versão pior, imposta por pressão popular. A ideia dialoga diretamente com o que o jornal canadense La Presse descreveu em reportagem recente sobre o tema: a possibilidade de reformar a tributação sobre ganhos de capital, sobre grandes fortunas ou mesmo criar um imposto específico sobre lucros ligados à IA.
Os três cenários possíveis
Segundo a análise do La Presse, que ouviu economistas como Douglas Elmendorf, ex-diretor do CBO, o desfecho fiscal da era da IA pode seguir três caminhos:
- IA aumenta a produtividade sem destruir empregos — o cenário mais favorável, em que salários e arrecadação crescem juntos.
- IA substitui parte do trabalho humano — lucros de empresas e investidores sobem mais que os salários, deslocando a base tributária para o capital, que paga menos imposto.
- IA elimina uma fatia relevante de empregos — cenário que exigiria repensar toda a estrutura fiscal americana, com opções que vão do aumento de gastos sociais à criação de novos tributos sobre riqueza e consumo.
Para Elmendorf, citado pelo La Presse, o crescimento de produtividade trazido pela IA "vai ajudar, mas não vai resolver" o desequilíbrio orçamentário americano sozinho.
Outros custos que a IA também pode aumentar
Nem todo efeito fiscal da IA é sobre receita. Do lado da despesa, a tecnologia pode elevar a expectativa de vida — o que, por si só, pressiona programas como Seguridade Social e Medicare por mais tempo. Além disso, o volume de capital que empresas estão captando para investir em infraestrutura de IA pode pressionar juros em toda a economia, encarecendo o próprio serviço da dívida pública, que já consome mais do que o orçamento militar americano.
Perguntas frequentes sobre IA e déficit público
A IA pode eliminar o déficit dos EUA?
Não, segundo o consenso entre os economistas consultados. Mesmo em cenários otimistas de produtividade, a receita adicional gerada fica muito abaixo do déficit anual projetado pelo CBO.
Por que o sistema tributário atual capta pouca receita da IA?
Porque a maior parte da arrecadação vem de salários, taxados em alíquotas mais altas do que ganhos de capital — e a IA tende a elevar mais os lucros de empresas e investidores do que os salários dos trabalhadores.
O que Dario Amodei propõe?
Uma reforma tributária progressiva, incluindo a possibilidade de taxar especificamente empresas de IA, com a receita direcionada a apoiar trabalhadores deslocados pela automação.
O quadro que emerge dessas análises é de cautela otimista: a IA tem potencial para aliviar parte da pressão fiscal americana, mas apenas como uma peça entre várias — ao lado de decisões políticas sobre tributação de capital, gastos sociais e a velocidade com que a automação avança sobre o mercado de trabalho. Como resumiu o La Presse, ninguém consegue prever, hoje, como a classe política vai reagir a essas mudanças, mesmo que elas venham acompanhadas de uma melhora orçamentária.
Assinado por Ewerton Lopes — Curador Editorial
Referências
- Andrew Duehren, "L'IA pourrait réduire le déficit, mais pas l'éliminer", La Presse — plus.lapresse.ca
- The Budget Lab at Yale, "What Might AI Adoption Mean for the Fiscal and Economic Outlook?" — budgetlab.yale.edu
- Axios, "Don't count on AI to fix America's deficit problem" — axios.com
- Congressional Budget Office, "The Budget and Economic Outlook: 2026 to 2036" — cbo.gov
- Dario Amodei, "Policy on the AI Exponential" — darioamodei.com
- Fortune, "Anthropic just proposed taxing itself to pay for the jobs its AI destroys" — fortune.com