Tecnologia · Série: IA no Canadá — Parte 1

Uma startup de Montreal aposta que a maior barreira entre uma família e o projeto da própria casa não é o orçamento, mas a dificuldade de colocar uma ideia no papel. Com inteligência artificial, a Maket promete resolver isso, e chega a uma vitrine internacional de peso justamente quando o Canadá tenta se firmar como potência em IA aplicada.

esboço humano → interpretação por IA → planta editável

Imaginar a casa dos sonhos costuma ser a parte fácil. Difícil é transformar esse desenho mental em um documento técnico, com paredes, medidas e circulação que façam sentido. Foi esse gargalo, comum a qualquer pessoa que já tentou reformar um cômodo ou planejar uma construção, que o técnico em arquitetura Stéphane Turbide decidiu atacar com inteligência artificial ao cofundar a Maket, startup sediada em Montreal1.

A empresa nasceu em 2019 e formalizou a fundação com os sócios Patrick Murphy e Simon Vallée pouco depois, mas só lançou oficialmente sua plataforma em 20232. A proposta é direta: qualquer pessoa, sem formação em arquitetura, pode descrever o que precisa em um questionário, desenhar um rascunho em uma tela em branco ou importar uma planta já existente. A partir daí, um modelo de IA generativa organiza os espaços, sugere ajustes e devolve uma planta editável, navegável em três dimensões.

Como a IA entra no processo

O sistema da Maket foi treinado com mais de 65 mil plantas baixas, obtidas por meio de parcerias com incorporadoras e escritórios técnicos3. Na prática, o algoritmo funciona como um assistente que interpreta comandos em linguagem natural: mover uma parede, aumentar um quarto, reorganizar a cozinha. Ele também sinaliza inconsistências, como um corredor estreito demais ou uma porta que não abre corretamente.

Segundo a reportagem original de Mia Bellemare, publicada no jornal La Presse, Turbide é enfático ao afirmar que a ferramenta foi pensada para apoiar, não substituir, o trabalho técnico1.

A inteligência artificial deve acompanhar o usuário no momento certo, sem que a plataforma dependa exclusivamente dela. Paráfrase de Stéphane Turbide, cofundador e chefe de operações da Maket, em entrevista ao La Presse

Essa distinção importa porque toca em um debate que atravessa toda a profissão de arquitetura na era da IA generativa: até onde vai a democratização do projeto antes de esbarrar em responsabilidade técnica, normas de segurança e código de obras. A Maket não emite laudo nem substitui o registro profissional exigido para aprovar uma construção. Ela entrega um ponto de partida visual, que depois segue para validação técnica.

Do questionário ao canteiro de obras

A plataforma opera em duas frentes comerciais. Para o consumidor final, há uma assinatura mensal voltada a quem quer visualizar reformas ou projetos de casa própria. Para construtoras, incorporadoras e fabricantes de casas pré-fabricadas, existe um plano corporativo que permite integrar bibliotecas próprias de plantas ao motor de geração da Maket2. Turbide resume o público da ferramenta como pessoas que não querem virar arquitetas, mas querem testar ideias, compará-las e entender rapidamente as implicações de cada escolha antes de contratar um profissional.

Esse modelo híbrido, atendendo tanto famílias quanto grandes players do setor imobiliário, ajuda a explicar o apetite dos investidores. Em outubro de 2025, a Maket captou 3,4 milhões de dólares canadenses em uma rodada seed liderada pela Amiral Ventures, com participação da Blitzscaling Ventures, BY Venture Partners, Hidden Layers e Spatial Capital, elevando o total captado para mais de 4 milhões de dólares canadenses desde a fundação2. A empresa já ultrapassa 1 milhão de usuários registrados e prepara para o início de 2026 uma versão renovada da plataforma, batizada de Maket 2.02.

A vitrine da ALL IN

A Maket integra a lista das 100 startups canadenses de inteligência artificial selecionadas para participar da ALL IN 2026, considerado o maior evento de tecnologia e IA do país. A edição deste ano, realizada em Montreal nos dias 16 e 17 de setembro, reúne mais de 7,5 mil participantes de mais de 40 países e recebeu candidaturas de mais de 330 empresas canadenses disputando as cem vagas do showcase4. Para a cofundadora e CEO do evento, Isabelle Turcotte, a Maket é uma organização que tem, segundo suas palavras, o vento a favor, com condições para crescer tanto no Canadá quanto fora dele.

A presença em uma vitrine desse porte é reveladora do momento canadense: o país tenta transformar sua tradição acadêmica em IA, com instituições como o Mila em Montreal, em um ecossistema de startups aplicadas capazes de gerar receita e emprego, não apenas pesquisa4. A Maket é um exemplo de como esse movimento chega a setores tradicionalmente resistentes à tecnologia, como a construção civil.

Contraponto

Ferramentas de IA generativa aplicadas à arquitetura ainda enfrentam limites conhecidos: modelos treinados majoritariamente em plantas residenciais padronizadas tendem a reproduzir soluções genéricas, com pouca sensibilidade a terrenos irregulares, clima local ou tradições construtivas regionais. Especialistas do setor também apontam que a autoria e a responsabilidade técnica continuam sendo questões em aberto quando um projeto nasce, ainda que parcialmente, de um algoritmo.

No Brasil, o debate já chegou ao Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/BR), que discute autoria, responsabilidade técnica e proteção de dados no uso de IA em projetos, sinal de que a democratização do desenho não elimina a necessidade de supervisão profissional qualificada.

E no Brasil, como isso aparece?

A promessa de "democratizar a arquitetura" ganha outro peso quando confrontada com a realidade habitacional brasileira. Segundo o Ministério das Cidades, em parceria com a Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional do país caiu pelo segundo ano consecutivo e chegou a 5,77 milhões de domicílios em 2024, o menor patamar da série histórica iniciada em 2016, mas ainda equivalente a 7,4% dos domicílios particulares ocupados no país5. Nesse cenário, o gargalo não costuma ser a falta de criatividade de quem sonha com a casa própria, mas o acesso a crédito, terra urbanizada e projeto técnico acessível.

O Brasil já tem iniciativas na mesma linha da Maket. A Arqgen, fundada pelos arquitetos Alexandre Kuroda e Thomas Takeuchi, capitalizou uma rodada de R$ 6,2 milhões para desenvolver uma IA proprietária que permite ao usuário conversar com o sistema como faria com um arquiteto humano6. O país também concentra um mercado de porte relevante para esse tipo de solução: são mais de 210 mil arquitetos e urbanistas registrados no CAU, dos quais 65% atuam de forma autônoma ou em escritórios de até cinco pessoas, majoritariamente dedicados a projetos residenciais de pequeno e médio porte7. É exatamente esse segmento, pulverizado e sensível a custo e tempo, que ferramentas de IA generativa tendem a atrair primeiro, tanto no Canadá quanto por aqui.

A diferença está no problema que cada mercado tenta resolver primeiro. Em Montreal, a Maket nasce para acelerar a fase inicial de um projeto em um país com renda per capita alta e déficit habitacional comparativamente menor. No Brasil, qualquer ferramenta semelhante precisa disputar espaço com uma pauta anterior, ainda não resolvida: o acesso à moradia digna para a fatia da população concentrada na Faixa 1 do Minha Casa, Minha Vida. A tecnologia pode encurtar o caminho entre a ideia e a planta, mas não substitui política habitacional.

Esta reportagem foi produzida com base na matéria original "Un architecte virtuel pour démocratiser la conception", de Mia Bellemare, publicada no jornal canadense La Presse. Leia a reportagem completa em: plus.lapresse.ca. Créditos de imagem original: Simon Laliberté, La Presse.

Perguntas frequentes

O que é a Maket?

A Maket é uma startup de Montreal, fundada em 2019 e lançada oficialmente em 2023, que usa inteligência artificial generativa para permitir que pessoas sem formação técnica esbocem, editem e visualizem em 3D plantas de casas e projetos residenciais.

A Maket substitui o trabalho de arquitetos?

Não. Segundo os fundadores, a plataforma foi pensada para dar um ponto de partida visual e acelerar a fase inicial do projeto, mas a aprovação técnica, a responsabilidade legal e o refinamento do projeto continuam dependendo de profissionais habilitados.

Como funciona a inteligência artificial dentro da plataforma?

O sistema foi treinado com dezenas de milhares de plantas baixas reais. Ele interpreta comandos em linguagem natural, reorganiza cômodos, corrige inconsistências e gera visualizações tridimensionais a partir de um questionário, um rascunho ou um documento importado.

O que é o evento ALL IN, que selecionou a Maket em 2026?

ALL IN é o principal evento de inteligência artificial e tecnologia do Canadá, realizado em Montreal. A edição de 2026 reúne mais de 7,5 mil participantes de mais de 40 países e destaca as cem startups canadenses de IA consideradas mais promissoras do ano, entre elas a Maket.

Existem ferramentas parecidas no mercado brasileiro?

Sim. A Arqgen é um exemplo brasileiro de IA aplicada a projetos arquitetônicos, com captação de R$ 6,2 milhões em rodada inicial. O país tem mais de 210 mil arquitetos registrados no CAU, a maioria atuando em pequenos escritórios voltados a projetos residenciais, um público que esse tipo de ferramenta tende a atrair primeiro.