Saúde Inteligência Artificial & Cardiologia
Por Ewerton Lopes — Curador Editorial · Atualizado em 1 de setembro de 2026 · Leitura de 7 min

Um exame que já existe há mais de um século ganhou uma nova camada de leitura. Pesquisadores britânicos apresentaram no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), em Munique, uma ferramenta de inteligência artificial capaz de identificar sinais de insuficiência cardíaca e de doenças nas válvulas do coração a partir de um eletrocardiograma (ECG) comum, em menos de dois segundos.

O eletrocardiograma é um dos exames mais realizados no mundo: cerca de um bilhão de vezes por ano, segundo estimativa citada pelo jornal britânico The Guardian. Ele registra a atividade elétrica do coração e ajuda médicos a identificar arritmias e infartos. O que ele nunca conseguiu fazer sozinho, até agora, é apontar problemas estruturais do órgão, como o enfraquecimento do músculo cardíaco ou o desgaste de uma válvula. Para isso, sempre foi necessário um ecocardiograma, exame de ultrassom que costuma ter fila de espera de meses em muitos sistemas públicos de saúde, incluindo o brasileiro.

O novo modelo, desenvolvido por uma equipe do Imperial College London em parceria com o British Heart Foundation (BHF), foi treinado com milhões de registros de ECG e consegue extrair padrões elétricos sutis que escapam ao olho humano, mesmo ao de um cardiologista experiente. Em um estudo com cerca de 67 mil pacientes nos Estados Unidos, a ferramenta identificou corretamente até 81% dos casos de insuficiência cardíaca e até 90% dos casos de doença valvar, conforme reportagem do The Guardian publicada em 31 de agosto de 2026.

Como a máquina "vê" o que o médico não vê

A proposta não é substituir o ecocardiograma, mas funcionar como um filtro de prioridade. A IA analisa o traçado elétrico do ECG e calcula uma pontuação de risco: pacientes classificados como alto risco podem ser encaminhados com urgência para o exame de imagem, em vez de esperar na fila comum. Segundo a reportagem do jornal britânico, essa é a principal aposta dos pesquisadores para reduzir o tempo entre a suspeita clínica e o início do tratamento.

"É empolgante ver que a IA já consegue entregar uma leitura de ECG no que parece ser um piscar de olhos." Dra. Sonya Babu-Narayan, diretora clínica da British Heart Foundation, ao The Guardian

O trabalho apresentado em Munique não nasceu isolado. Pesquisas anteriores do mesmo grupo do Imperial College, publicadas na revista European Heart Journal, já haviam mostrado que a IA consegue prever, anos antes dos sintomas aparecerem, quais pacientes desenvolverão vazamentos significativos nas válvulas mitral, tricúspide ou aórtica, com taxa de acerto entre 69% e 79% e risco até dez vezes maior de doença entre os classificados como alto risco. Parte dessa tecnologia deu origem a uma spinoff da própria universidade, batizada Cardiovolt.ai, que já captou 1,4 milhão de libras em investimentos para levar o modelo à prática clínica no Reino Unido, na União Europeia e nos Estados Unidos.

O professor Fu Siong Ng, cardiologista do Imperial College London e diretor médico da Cardiovolt.ai, resume o objetivo prático da tecnologia:

"Pacientes muitas vezes esperam vários meses por um ultrassom do coração depois de serem encaminhados pelo médico. É animador pensar que essa tecnologia pode identificar os pacientes com maior risco de insuficiência cardíaca e doença valvar, para que sejam priorizados nos exames de forma mais rápida e urgente." Prof. Fu Siong Ng, Imperial College London, ao The Guardian

O médico Ahmed El-Medany, pesquisador do BHF que liderou parte da análise, descreveu a ferramenta como uma "IA superumana" (superhuman AI), termo que os próprios cientistas usam para descrever não uma inteligência genérica, mas a capacidade de enxergar padrões que nenhum cardiologista, por mais experiente que seja, consegue captar a olho nu em um traçado de ECG.

Traçado elétrico comum do ECG ● Padrões lidos pela IA
Ilustração produzida por O Tecido para fins didáticos. Não representa dado clínico real.

O que isso significa para o Brasil

A relevância do achado ganha outra dimensão quando olhada pela lente brasileira. As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no país, respondendo por cerca de 30% dos óbitos anuais, segundo o Ministério da Saúde. A Sociedade Brasileira de Cardiologia estima que mais de 400 mil pessoas morram todos os anos em decorrência de infarto, AVC e insuficiência cardíaca, uma média superior a 45 óbitos por hora.

O gargalo de acesso ao ecocardiograma também não é exclusividade britânica. Levantamentos sobre as filas do SUS mostram tempos de espera que variam enormemente por município e por estado, em alguns casos chegando a meses para exames de imagem cardiológica. Iniciativas recentes do Ministério da Saúde, como a expansão da telessaúde e o programa de redução de filas para especialidades prioritárias, mostram que o problema já está no radar da política pública, mas a fila de exames continua sendo, na prática, um dos principais obstáculos entre a suspeita clínica e o diagnóstico definitivo.

É justamente nesse ponto que uma ferramenta de triagem baseada em um exame já disponível na maioria das unidades básicas de saúde poderia, em tese, ter maior impacto: não substituindo o ecocardiograma, mas ajudando a decidir quem precisa dele com mais urgência.

O que ainda falta provar

  • A ferramenta não diagnostica nem descarta insuficiência cardíaca ou doença valvar sozinha; ela indica probabilidade, e o próprio estudo reconhece que uma parte relevante dos casos (até 19% das doenças valvares e cerca de 19% das insuficiências cardíacas) pode não ser identificada.
  • Os testes até aqui foram conduzidos majoritariamente em populações dos Estados Unidos e do Reino Unido; a validação em bases de dados brasileiras e latino-americanas, com perfis genéticos, socioeconômicos e de comorbidades distintos, ainda não foi divulgada.
  • A tecnologia ainda depende de aprovação regulatória em cada país (no caso britânico, europeu e americano, esse processo está em curso pela spinoff Cardiovolt.ai) antes de qualquer uso clínico rotineiro.
  • Ferramentas de triagem por IA levantam também a discussão sobre equidade de acesso: se a tecnologia chegar primeiro a hospitais privados e grandes centros urbanos, o risco é ampliar, e não reduzir, a desigualdade no diagnóstico cardiovascular.

Outras frentes de triagem por IA

O mesmo congresso em Munique reuniu ainda pesquisadores da Universidade de Tóquio e do Instituto de Ciência de Tóquio, que apresentaram um modelo de IA capaz de identificar sinais de hipertensão arterial e diabetes tipo 2 não diagnosticados a partir de vídeos faciais de apenas cinco segundos. O achado reforça uma tendência mais ampla na cardiologia e na medicina preventiva: usar dados de exames rotineiros, de baixo custo e já amplamente disponíveis, para extrair informação clínica que hoje exige exames caros ou demorados.

Um exemplo comparável, citado por veículos que cobriram o mesmo congresso, é o EchoNext, modelo desenvolvido em Nova York e avaliado em estudo publicado na revista Nature, que também usa o ECG para detectar múltiplas formas de doença cardíaca estrutural e, em testes controlados, superou cardiologistas humanos na tarefa.

Nota editorial de atribuição: Este artigo foi inspirado na reportagem "'Superhuman' AI tool spots heart disease in less than 2 seconds", publicada pelo jornal britânico The Guardian em 31 de agosto de 2026, assinada por Andrew Gregory. O conteúdo foi apurado de forma independente por O Tecido, com fontes adicionais listadas na seção de referências. Trechos do Guardian citados diretamente no texto estão devidamente atribuídos e disponíveis no link de referência abaixo.

Perguntas frequentes

O que é o novo teste de IA para o coração?

É um modelo de inteligência artificial que analisa o eletrocardiograma (ECG), exame elétrico de rotina, e calcula em menos de dois segundos a probabilidade de o paciente ter insuficiência cardíaca ou doença nas válvulas do coração, condições que normalmente só seriam detectadas por um ecocardiograma.

O exame de IA substitui o ecocardiograma?

Não. A ferramenta funciona como triagem: ela aponta quem tem maior probabilidade de ter a doença, para que essas pessoas sejam priorizadas na fila do ecocardiograma, exame que continua sendo necessário para o diagnóstico definitivo.

Qual a precisão da tecnologia?

Em um estudo com cerca de 67 mil pacientes nos Estados Unidos, a ferramenta identificou até 81% dos casos de insuficiência cardíaca e até 90% dos casos de doença valvar cardíaca, segundo os pesquisadores do Imperial College London e do British Heart Foundation.

Quando essa tecnologia pode chegar ao Brasil?

Ainda não há previsão. A ferramenta está em fase de validação regulatória no Reino Unido, na União Europeia e nos Estados Unidos, por meio da spinoff Cardiovolt.ai. Não foram divulgados testes de validação em bases de dados brasileiras ou parcerias com o SUS até a publicação desta reportagem.

Por que as doenças cardiovasculares são um problema tão grande no Brasil?

Elas são a principal causa de morte no país, responsáveis por cerca de 30% dos óbitos anuais segundo o Ministério da Saúde, com a Sociedade Brasileira de Cardiologia estimando mais de 400 mil mortes por ano em decorrência de infarto, AVC e insuficiência cardíaca.