Um artigo publicado em agosto de 2026 no Journal of the American Medical Association (JAMA) reacendeu uma discussão que a classe médica vinha tentando adiar: até que ponto a inteligência artificial ainda precisa de um médico por perto. Assinado pelo bioeticista Ezekiel Emanuel, pelo investidor Vinod Khosla e por seu filho Neal Khosla, fundador da empresa de telemedicina por IA Curai Health, o texto sustenta que sistemas autônomos de IA, sem supervisão humana, já superam ou estão prestes a superar médicos e equipes híbridas médico-IA em cinco tarefas cognitivas centrais da prática clínica: colher histórico, formular diagnóstico diferencial, indicar exames, prescrever tratamento e gerir doenças crônicas.1
"Humanos no circuito degradam o desempenho da IA." É essa a frase que resume a tese mais controversa do artigo, e que colocou entidades médicas dos Estados Unidos e do Brasil em posição de alerta.
A publicação, cujo título em forma de pergunta (Will Autonomous AI Exceed AI-Aided Physicians as the Best Medical Care?) esconde uma resposta nada ambígua, cita estudos que mostram sistemas de linguagem superando médicos em cenários simulados de diagnóstico. Em um dos experimentos referenciados, um modelo do Google teria acertado a queixa do paciente em 97% dos casos simulados, contra 50% dos médicos humanos; em outro, o ChatGPT o3 teria indicado o diagnóstico correto em primeiro lugar em 60% de 377 casos complexos, ante 15,9% de acerto de médicos internistas em um subconjunto comparável.2
A revista americana Wired foi uma das primeiras a repercutir o debate fora do circuito acadêmico, entrevistando os autores e vozes discordantes do setor médico. Segundo a reportagem, o próprio Emanuel reconhece ter mudado de posição depois de anos descartando a tese defendida por Vinod Khosla, com quem cruzava em conferências desde a década de 2010. A publicação da Wired destaca ainda o conflito de interesse dos autores, já que Neal Khosla dirige uma empresa de telessaúde baseada em IA e Vinod Khosla é investidor do setor, e traz a reação do CEO da American Medical Association (AMA), John Whyte, que classificou como falha metodológica o fato de parte dos estudos citados serem simulações, e não testes clínicos controlados.3 A reportagem completa, em inglês, pode ser lida na Wired: wired.com/story/ai-has-human-doctors-asking-whats-left-for-us.
A reação da classe médica
A publicação do artigo no JAMA não passou despercebida entre médicos e associações profissionais. Um comentário crítico assinado por profissionais da área destacou que a "hibridização médico-IA", modelo hoje endossado por praticamente todas as sociedades médicas relevantes, foi tratada pelos autores como um estágio transitório fadado a ser superado, e apontou que boa parte das evidências citadas vem de simulações e não de ensaios clínicos com pacientes reais.4 Outro artigo de opinião, escrito por um cirurgião ortopedista, reconheceu que os conflitos de interesse dos autores não invalidam automaticamente o argumento, mas pediu cautela redobrada diante de conclusões tão categóricas publicadas em um periódico do peso do JAMA.5
Um dado citado por Whyte à Wired ajuda a temperar o otimismo do estudo: uma pesquisa publicada na Nature em fevereiro de 2026 constatou que, fora do ambiente controlado dos testes, a maioria dos pacientes reais tem dificuldade para conversar de forma eficaz com modelos de linguagem e extrair deles todo o potencial diagnóstico.3 Ou seja: o desempenho de laboratório nem sempre se traduz em desempenho no consultório, ou na ausência dele.
Contraponto
Robert Wachter, chefe do departamento de medicina da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) e citado no artigo do JAMA como o autor de uma tese supostamente ultrapassada, pondera que a IA autônoma pode, sim, ser tecnicamente superior em tarefas cognitivas isoladas, mas defende que atributos humanos, como comunicar um prognóstico grave ou construir confiança com o paciente, seguem insubstituíveis. Ele recorre à chamada "falácia do porteiro": assim como os porteiros de prédios não desapareceram com as portas automáticas, porque passaram a agregar outras funções de valor, os médicos podem manter relevância mesmo que o diagnóstico deixe de ser sua principal função.
O que muda para quem estuda ou já exerce a medicina
Para além do debate acadêmico, o artigo levanta uma questão prática para quem está na profissão ou pretende ingressar nela: o chamado "deskilling", a erosão de competências clínicas pelo uso excessivo de ferramentas automatizadas. Uma revisão publicada em março de 2026 encontrou evidências, ainda que limitadas, de queda mensurável de desempenho quando médicos deixam de contar com apoio de IA depois de um período de uso intenso. Em um estudo multicêntrico de colonoscopia, por exemplo, a taxa de detecção de adenomas caiu de 28,4% para 22,4% quando os endoscopistas voltaram a operar sem assistência de IA após uso repetido da ferramenta.6
Escolas médicas já debatem os limites do uso de IA durante a formação. Autoridades da AMA reconhecem o dilema publicamente: se um residente nunca aprender sozinho a colher um histórico ou conduzir um exame físico, o que resta de sua formação quando a ferramenta falha ou está indisponível.3
No Brasil, a resposta veio pela regulação
Enquanto o debate americano gira em torno de saber se a IA deve substituir o médico, o Conselho Federal de Medicina (CFM) optou por delimitar o espaço da tecnologia antes que a pergunta se tornasse urgente por aqui. Em fevereiro de 2026, o CFM publicou a Resolução nº 2.454/2026, que normatiza o uso de inteligência artificial na medicina em todo o território nacional. O texto, fruto de um ano e meio de discussões de um grupo de trabalho dedicado ao tema, estabelece que a decisão clínica final permanece, em qualquer circunstância, sob responsabilidade humana, e que a IA deve atuar exclusivamente como instrumento de apoio a diagnóstico, tratamento e prognóstico, nunca como substituta da decisão médica.7
A norma, que entra em vigor 180 dias após sua publicação, também determina que o uso da ferramenta como suporte à conduta seja registrado em prontuário e que os dados usados no treinamento e na aplicação de sistemas de IA observem rigorosamente a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), especialmente por envolverem informações sensíveis de saúde.8 Na prática, o Brasil optou por institucionalizar exatamente o modelo híbrido que o artigo do JAMA classifica como provisório.
O que fica para o profissional
Nenhum dos lados do debate nega que a inteligência artificial já supera médicos em tarefas isoladas de recuperação de informação e correlação de dados. A divergência está em outro ponto: se a superioridade técnica em tarefas cognitivas específicas é suficiente para dispensar a supervisão humana em um processo que, na prática clínica, também envolve confiança, comunicação de más notícias e responsabilização legal. Vinod Khosla afirma que médicos continuarão necessários no curto prazo para cirurgias e emergências, mas os considera dispensáveis como fonte de julgamento clínico. Já entidades médicas nos Estados Unidos e no Brasil apostam em um caminho diferente, no qual a tecnologia amplia a capacidade do profissional sem substituir sua responsabilidade final pelo paciente.
Para quem constrói carreira na área da saúde, o recado prático dos dois lados do Atlântico converge em um ponto: dominar o uso crítico dessas ferramentas deixou de ser opcional, seja qual for o desfecho regulatório de longo prazo.
Perguntas frequentes
O que diz o artigo do JAMA sobre IA e médicos?
Publicado em agosto de 2026 por Ezekiel Emanuel, Vinod Khosla e Neal Khosla, o artigo argumenta que sistemas de inteligência artificial autônomos, sem supervisão médica, já igualam ou superam médicos e equipes híbridas médico-IA em cinco tarefas cognitivas centrais da prática clínica, como diagnóstico e prescrição de tratamento.
A inteligência artificial pode substituir médicos no Brasil?
Não segundo a legislação vigente. A Resolução CFM nº 2.454/2026 determina que a decisão clínica final permanece sempre sob responsabilidade de um médico habilitado, sendo a IA autorizada apenas como ferramenta de apoio à decisão diagnóstica, terapêutica e prognóstica.
O que é o "deskilling" médico causado por IA?
É a erosão gradual de competências clínicas provocada pelo uso excessivo e pouco crítico de ferramentas automatizadas. Estudos já documentaram queda de desempenho de médicos em exames de imagem e procedimentos como colonoscopia após períodos sem o apoio da IA a que estavam habituados.
Quais entidades médicas contestam a tese da IA autônoma?
A American Medical Association (AMA), nos Estados Unidos, e o Conselho Federal de Medicina (CFM), no Brasil, defendem publicamente o modelo em que a inteligência artificial atua sob governança e supervisão médica, e não como substituta do julgamento clínico humano.
Ewerton Lopes
Curador Editorial
Referências
- Emanuel EJ, Baker-Butler A, Khosla N, Khosla V. Will Autonomous AI Exceed AI-Aided Physicians as the Best Medical Care? JAMA. Publicado em 17 de agosto de 2026.
- Cobertura sobre o artigo do JAMA em Becker's Hospital Review, "Viewpoint: Autonomous AI could outperform human physicians".
- WIRED. "AI Has Human Doctors Asking: What's Left for Us?" Disponível em: https://www.wired.com/story/ai-has-human-doctors-asking-whats-left-for-us/
- EMCrit / EMNerd. "The Five Laws of Medical Robotics".
- Substack de cirurgião ortopedista. "The Commoditization of Clinical Intelligence".
- ESMO Real World Data and Digital Oncology. "Artificial intelligence in medicine: a scoping review of the risk of deskilling and loss of expertise among physicians".
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Resolução nº 2.454/2026, publicada no Diário Oficial da União.
- Portal Médico CFM. "CFM normatiza uso da IA na medicina".