Caderno Tecnologia · Inteligência artificial e governança
A inquietação mais recente do setor de tecnologia já não se limita ao que a inteligência artificial consegue fazer. A pergunta que ganha espaço é outra: quem terá as chaves dela. Na próxima segunda e terça-feira, 28 e 29 de setembro, cerca de 600 profissionais, pesquisadores e empreendedores se reúnem no New City Gas, em Montreal, para a conferência Exploit, dedicada a uma resposta específica a essa pergunta: uma IA descentralizada, construída sobre blockchain e remunerada com criptoativos, à maneira do bitcoin[1].
A reportagem de Alain McKenna no jornal canadense La Presse, ponto de partida deste texto, resume a aposta dos organizadores: se governos e grandes empresas já controlam boa parte da tecnologia, a saída seria distribuir a infraestrutura e a propriedade dos modelos entre uma comunidade global[1]. A proposta tem apelo. Justamente por isso, merece ser examinada com o mesmo rigor que se aplica aos gigantes que ela pretende contestar.
O que é a conferência Exploit e por que acontece em Montreal
A Exploit é a conferência do ecossistema Bittensor, uma rede aberta de computação e aprendizado de máquina que funciona com um token próprio, o TAO. Formalmente, o evento é produzido pela Bittensor Commons, iniciativa sem fins lucrativos da comunidade, e reúne palestras, debates, oficinas e demonstrações ao vivo das chamadas sub-redes, os projetos que operam dentro da rede[2]. Segundo os organizadores, mais de 100 equipes de sub-redes já atuam na Bittensor, em áreas que vão de agentes de programação a robótica e descoberta de medicamentos[2].
O nome é proposital. No jargão da computação, exploit designa tanto um feito notável quanto o aproveitamento de uma falha de software, observa o La Presse[1]. Os organizadores assumem o segundo sentido como método: a rede melhoraria à medida que seus participantes tentam quebrá-la em público[2].
A escolha de Montreal também tem lógica. A cidade abrigou laboratórios universitários abertos que ajudaram a criar o aprendizado profundo, como o do pesquisador Yoshua Bengio[1], e os organizadores citam a concentração de colaboradores canadenses na comunidade Bittensor[2]. No Quebec, soberania é tema político e cultural antigo. A IA acrescenta a ele uma dimensão econômica.
Como funciona a IA descentralizada da Bittensor
Em termos simples, a Bittensor conecta computadores espalhados pelo mundo e transforma essa capacidade em poder de processamento que pode ser alugado conforme a demanda. Quem contribui para resolver problemas ou melhorar as ferramentas recebe TAO como recompensa[1]. Dentro de cada sub-rede, "mineradores" competem entregando resultados, e "validadores" avaliam esse trabalho; o peso de cada avaliação é proporcional à quantidade de TAO que o validador mantém travada na rede[2].
O modelo não é apenas teórico. Em março de 2026, uma sub-rede da Bittensor concluiu o Covenant-72B, descrito como o maior pré-treinamento descentralizado de um modelo de linguagem já documentado, com cerca de 1,1 trilhão de tokens processados em máquinas distribuídas por vários continentes[6]. É uma demonstração relevante de viabilidade técnica, ainda que distante da escala dos modelos de fronteira das grandes empresas.
O financiamento, porém, vem de outro lugar. A rede se sustenta pela emissão de tokens negociados em corretoras de criptoativos. O La Presse cita um valor de mercado total de 4,7 bilhões[1]; em abril, logo após uma forte queda, a gestora FalconX estimava a capitalização em US$ 2,4 bilhões e a receita anualizada da rede em pouco mais de US$ 17 milhões[5]. A distância entre valor de mercado e receita não invalida o projeto, mas indica que boa parte do preço ainda é expectativa, e expectativa sujeita à volatilidade típica do mercado cripto.
O argumento central: concentração de poder e o futuro do trabalho
O cofundador da Bittensor, Jacob Steeves, ex-pesquisador do Google Brain e hoje à frente da empresa Affine[2], parte de um diagnóstico político. Para ele, empresas e governos que já dominam a tecnologia usam os temores sobre a IA para ampliar esse controle, o que seria, nas palavras dele ao La Presse, "uma via direta para uma forma de tecnofascismo"[1].
O segundo eixo do argumento é o trabalho. Steeves avalia que a IA pode substituir pessoas tanto em tarefas manuais quanto intelectuais e que, com a tecnologia sob controle dos empregadores, instrumentos históricos de negociação coletiva, como a greve, perderiam força[1]. Uma IA de propriedade compartilhada seria, nessa leitura, uma forma de devolver às pessoas uma participação no valor gerado.
A tese não é exclusiva do universo cripto. No MIT Media Lab, o professor Ramesh Raskar dirige um programa dedicado à IA descentralizada, que aponta como limites dos sistemas centralizados o acesso restrito a dados, a rigidez dos modelos e a falta de transparência[7]. Há, contudo, uma diferença que costuma se perder no debate: a agenda acadêmica do MIT abrange aprendizado federado, mercados de dados e sistemas verificáveis, com o blockchain como uma ferramenta entre outras[7]. Descentralizar a IA não significa, necessariamente, tokenizá-la.
Abril de 2026: o teste de estresse da própria rede
A promessa de uma IA sem donos enfrentou seu teste mais duro dentro de casa. Em 2 de abril, a Opentensor Foundation, organização que criou o TAO, transferiu a propriedade de nove repositórios centrais do projeto para uma nova entidade, a Latent 11[6]. Dias depois, a Covenant AI, responsável pelo Covenant-72B e por algumas das sub-redes mais relevantes do ecossistema, anunciou sua saída. O fundador, Sam Dare, classificou a governança da Bittensor como "teatro de descentralização" e acusou Steeves de suspender as recompensas de sua sub-rede, restringir permissões de moderação e pressionar a equipe com vendas de tokens[3].
Steeves rejeitou as acusações: afirmou não ter capacidade de suspender emissões e não possuir nenhum privilégio além dos que qualquer detentor de TAO tem[4]. O mercado reagiu antes que a disputa se resolvesse, e o token caiu entre 15% e 18% naquele dia, conforme os veículos especializados[3][4].
O centro da controvérsia é o modelo de governança transitório da rede, uma estrutura em que três pessoas controlam as chaves para atualizações do protocolo[3]. Não é a primeira vez que o tema aparece. Após um ataque em 2024, a equipe colocou os validadores atrás de um firewall e ativou um modo de segurança que suspendeu temporariamente todas as transações, episódio que um levantamento acadêmico sobre IA descentralizada cita como evidência do grau de controle centralizado sobre a rede[8]. Os incentivos econômicos também levantam dúvidas: em abril, 67 das 128 sub-redes monitoradas queimavam 99% ou mais das recompensas destinadas aos mineradores[5], o que torna menos claro quem, afinal, está sendo remunerado pelo trabalho.
O argumento a favor da rede
Defensores da Bittensor lembram que a governança atual é declaradamente transitória e que a meta anunciada é chegar a um modelo plenamente descentralizado até o fim de 2026[5]. Argumentam também que, ao contrário das decisões internas de uma grande empresa de tecnologia, movimentações de tokens e mudanças de regras em uma rede pública ficam registradas e podem ser auditadas por qualquer pessoa, algo que o próprio Steeves mencionou ao responder às acusações[4].
Há ainda um ponto de comparação justo: nenhum laboratório corporativo de IA oferece aos seus usuários sequer a possibilidade formal de contestar decisões de governança. Uma rede imperfeita, mas contestável, pode ser preferível a uma estrutura opaca e eficiente. O teste, admitem os próprios apoiadores, é se a transição prometida vai de fato acontecer.
Três modelos de governança da IA em disputa
A discussão de Montreal fica mais clara quando colocada lado a lado com as outras duas respostas que hoje disputam o futuro da infraestrutura de IA.
| Critério | Concentração corporativa | Soberania estatal | Rede descentralizada tokenizada |
|---|---|---|---|
| Quem controla | Poucas empresas com capital para data centers e chips | Governos nacionais e parceiros contratados | Participantes da rede, com peso proporcional ao capital em tokens |
| Financiamento | Receita de produtos e capital de risco | Orçamento público e fomento | Emissão e negociação de criptoativos |
| Principal risco | Dependência e opacidade | Uso político, lentidão e escala limitada | Especulação e concentração informal de poder |
| Mecanismo de correção | Regulação e concorrência | Controle institucional e eleitoral | Regras do protocolo e saída de participantes |
Os três modelos compartilham um diagnóstico: depender de um único ator para acessar uma tecnologia estratégica é arriscado. Divergem sobre quem deve ocupar o espaço. E nenhum deles elimina a concentração; cada um apenas a desloca para um lugar diferente.
O que isso significa para o Brasil
O Brasil escolheu, até aqui, a via estatal. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), lançado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em julho de 2024, prevê R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028[9]. Em agosto de 2026, o governo anunciou no Rio Grande do Norte um pacote que inclui cerca de R$ 1 bilhão para um novo supercomputador, estimado em 7.200 petaflops, R$ 1,276 bilhão para infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro, a criação de uma Nuvem Brasileira e a participação no desenvolvimento de chips de arquitetura aberta RISC-V[10].
A motivação é a mesma que move os organizadores da Exploit. Como observou a revista Exame, a lógica de tratar a IA como um serviço global contratado por API ficou menos confortável depois que o governo americano submeteu modelos da Anthropic a controles de exportação: a medida foi temporária, mas mostrou que o acesso pode ser interrompido por uma decisão política tomada fora do país[11]. A mesma análise faz uma ressalva importante: um modelo aberto não garante autonomia se roda apenas em nuvens estrangeiras, e instalar data centers tampouco garante soberania por si só[11].
Há ainda a dimensão regulatória. O Projeto de Lei 2338/2023, o marco legal da IA, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e aguarda o parecer do relator na comissão especial da Câmara, com o calendário eleitoral pesando sobre a tramitação[12]. O texto segue a lógica de classificação por risco, que pressupõe a existência de alguém identificável para responder pelo sistema. Redes descentralizadas tensionam essa premissa: quando ninguém opera formalmente um modelo, a quem cabe a avaliação de impacto, a transparência e a reparação de danos? A pergunta ainda não tem resposta clara na legislação brasileira.
Para o leitor brasileiro, a lição mais útil do debate de Montreal talvez seja separar duas perguntas que costumam vir misturadas. A primeira é quem é dono da infraestrutura. A segunda, mais difícil, é quem escreve e pode alterar as regras de funcionamento. Supercomputadores públicos respondem à primeira. Redes distribuídas prometem responder à segunda. O episódio de abril mostra que essa promessa ainda depende de pessoas, e não apenas de código.
O que observar a partir de agora
Três sinais ajudarão a separar tendência de entusiasmo nos próximos meses. O primeiro é se a Exploit tratará abertamente da crise de governança de abril ou se ela ficará restrita aos corredores. O segundo é o cumprimento da meta de governança descentralizada até o fim de 2026, que dará a medida concreta da distância entre discurso e estrutura. O terceiro, no caso brasileiro, é a execução do PBIA e a votação do PL 2338, que definirão se o país terá capacidade própria e regras próprias ao mesmo tempo, ou apenas uma das duas.
Perguntas frequentes
O que é IA descentralizada?
É um conjunto de abordagens que distribui o treinamento, a execução ou a governança de sistemas de inteligência artificial entre muitos participantes, em vez de concentrá-los em uma única empresa ou governo. Inclui técnicas como aprendizado federado e redes baseadas em blockchain, como a Bittensor.
O que é a Bittensor e o token TAO?
A Bittensor é uma rede aberta que conecta computadores ao redor do mundo para oferecer capacidade de processamento e desenvolver modelos de IA. O TAO é o token da rede, usado para recompensar participantes conforme a contribuição e para definir o peso de quem avalia o trabalho realizado.
Quando e onde acontece a conferência Exploit?
A Exploit acontece em 28 e 29 de setembro de 2026, no New City Gas, em Montreal, no Canadá, com expectativa de cerca de 600 participantes. É produzida pela Bittensor Commons, iniciativa sem fins lucrativos da comunidade Bittensor.
A Bittensor é de fato descentralizada?
Parcialmente. A rede opera com um modelo de governança transitório em que um grupo restrito controla atualizações do protocolo. Em abril de 2026, a saída da Covenant AI, que acusou o cofundador Jacob Steeves de interferência, reacendeu o debate. Steeves negou as acusações, e a rede afirma ter como meta a governança plenamente descentralizada até o fim de 2026.
O Brasil tem uma estratégia de soberania em IA?
Sim. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) prevê R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028, com investimentos em supercomputação, uma Nuvem Brasileira e chips de arquitetura aberta. O marco regulatório da IA, o PL 2338/2023, foi aprovado pelo Senado e tramita na Câmara dos Deputados.