Tecnologia
Publicado em 16 de agosto de 2026 · Leitura de 8 min

Tim O'Reilly não é um crítico qualquer da inteligência artificial. Editor que ajudou a definir o vocabulário do movimento open source nos anos 1990 e fundador da O'Reilly Media, ele passou décadas medindo o valor de empresas e tecnologias por um critério simples: quem cria mais valor do que captura. Em entrevista recente à revista americana Wired, ele aplicou essa régua aos grandes laboratórios de IA e chegou a um veredito desconfortável para o Vale do Silício. Segundo ele, gigantes como OpenAI, Google e a própria Anthropic estão apostando fichas demais em modelos cada vez maiores, quando o que a maioria das pessoas e empresas precisa é de sistemas menores, mais abertos e mais fáceis de adaptar à própria realidade.

O argumento central: escala não é destino

Para O'Reilly, o erro estratégico dos grandes laboratórios não é técnico, é de leitura de mercado. Ele argumenta que a fixação em construir o modelo mais potente do mundo criou uma arquitetura de controle, na qual empresas e usuários ficam presos a um único fornecedor, em vez de uma arquitetura de participação, que permitiria a qualquer pessoa ajustar o modelo, trocar de provedor e manter o controle dos próprios dados.

Os avanços que estamos obtendo na chamada IA de fronteira estão, na prática, nos afastando do que as pessoas comuns realmente vão precisar. Tim O'Reilly, fundador da O'Reilly Media, em entrevista à Wired

O paralelo que ele traça é histórico. Assim como a Microsoft dominou o mercado de sistemas operacionais nos anos 1990 tentando prender usuários ao seu ecossistema, os grandes laboratórios de IA estariam repetindo o mesmo movimento, agora com modelos fechados e pesos proprietários. A alternativa, na visão dele, é olhar para exemplos como o Pix e o Gov.br no Brasil, mencionados por analistas como infraestrutura digital pública que gerou valor distribuído em vez de concentrado, um argumento também levantado por especialistas em política tecnológica que defendem que o país tem experiência acumulada nesse tipo de arquitetura aberta[2].

China como contraponto geopolítico

Um dos pontos mais provocadores da entrevista é a comparação com a China. O'Reilly sustenta que os Estados Unidos podem até vencer a corrida pelo modelo de fronteira mais avançado e, ainda assim, perder a corrida mais importante, a da difusão da tecnologia pela sociedade, porque o ecossistema chinês investe pesado em modelos menores e mais acessíveis, distribuídos amplamente entre empresas e desenvolvedores locais.

Contraponto: os laboratórios não veem dessa forma

É importante registrar que a Wired fez questão de anotar, em nota própria na entrevista, que tanto a Anthropic quanto a OpenAI discordariam da avaliação de que seus modelos de ponta escrevem pior do que sistemas mais simples. Empresas como Anthropic e OpenAI defendem publicamente que capacidade de raciocínio e segurança avançam justamente com escala, e que o investimento em modelos de fronteira é o que sustenta, a médio prazo, ferramentas mais confiáveis e seguras para uso em massa, inclusive as versões menores derivadas desses mesmos modelos.

O Brasil já está testando a rota alternativa

Enquanto o debate segue nos Estados Unidos, iniciativas brasileiras avançam na direção que O'Reilly defende: modelos menores, mais baratos e adaptados ao contexto local. O exemplo mais citado é o Sabiá, da startup Maritaca AI, nascida em 2022 a partir de pesquisadores da Unicamp. A empresa relata que sua família de modelos Sabiá passa por um pipeline específico de pré-treinamento em corpora de português e de direito brasileiro, com extensão de contexto e ajuste fino voltado a tarefas locais, da conversação em português a exames nacionais como Enem e OAB[3].

Outra iniciativa relevante é o GAIA, projeto de código aberto construído a partir do Gemma, modelo aberto do Google, em parceria entre a Universidade Federal de Goiás, a Associação Brasileira de Inteligência Artificial e startups nacionais, com o objetivo declarado de aprimorar o desempenho em português do Brasil[4]. Em escala regional, o projeto LatamGPT, coordenado pelo Centro Nacional de Inteligência Artificial do Chile, reúne mais de 40 instituições latino-americanas para treinar um grande modelo de linguagem aberto, voltado à realidade da região[5].

17%Empresas brasileiras usando IA em 2025
50%Adoção entre grandes empresas (250+ funcionários)
45xSabiá mais barato que opções estrangeiras equivalentes

Os números do Cetic.br, braço de pesquisa do NIC.br, mostram que a adoção de IA por empresas brasileiras saltou de 13% em 2024 para 17% em 2025, o maior patamar desde que o indicador começou a ser medido em 2021. O salto foi puxado sobretudo pelas grandes empresas, que passaram de 38% para 50% de adoção, mas também pelas pequenas, que foram de 10% para 15% no mesmo período, sinalizando início de democratização do acesso[6]. Ainda assim, a média brasileira segue abaixo da União Europeia, que registra 20% de adoção empresarial, segundo a mesma pesquisa.

O gargalo não é só técnico, é regulatório

Parte do argumento de O'Reilly é que abrir a arquitetura de um sistema de IA, do modelo ao harness de aplicação, dá a designers e usuários mais controle. No Brasil, esse debate caminha em paralelo à tramitação do Marco Legal da Inteligência Artificial, o PL 2338/2023, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e ainda pendente de votação final na Câmara dos Deputados, com expectativa de apreciação ao longo de 2026[7]. O texto segue inspiração do AI Act europeu, com classificação de sistemas por nível de risco e criação de um sistema nacional de governança para IA, o que deve impactar diretamente empresas que hoje operam com modelos abertos ou proprietários sem uma moldura regulatória definida.

O que fica da provocação

O ponto mais interessante da entrevista à Wired talvez não seja a previsão sobre quem vai vencer a corrida da IA, mas o convite a pensar a tecnologia como um meio criativo, não como um substituto do trabalho humano. O'Reilly compara o uso de IA na escrita ao uso da câmera fotográfica na pintura, argumentando que assim como a fotografia não eliminou a pintura, a IA generativa não elimina a autoria, apenas cria um novo meio de expressão, algo que cabe a cada redação e cada profissional calibrar com critério próprio.

Perguntas frequentes

O que Tim O'Reilly defende sobre IA aberta?

Ele defende que sistemas de IA sejam construídos com separação clara entre modelo, harness e aplicação, permitindo que usuários troquem de provedor, mantenham controle sobre os próprios dados e adaptem a tecnologia às próprias necessidades, em vez de ficarem presos a um único grande laboratório.

Os grandes laboratórios de IA, como Anthropic e OpenAI, concordam com essa crítica?

Não necessariamente. A própria Wired registrou que essas empresas discordariam da avaliação de que seus modelos de fronteira produzem textos piores do que modelos menores, defendendo que o investimento em escala sustenta avanços de segurança e capacidade.

Quais são os principais modelos de IA abertos desenvolvidos no Brasil?

Os exemplos mais citados são o Sabiá, da Maritaca AI, treinado com foco em português e legislação brasileira, e o GAIA, projeto acadêmico construído sobre o modelo aberto Gemma em parceria entre universidade, associação de IA e startups nacionais.

Qual é a situação atual do Marco Legal da IA no Brasil?

O PL 2338/2023 foi aprovado pelo Senado Federal em dezembro de 2024 e segue em tramitação na Câmara dos Deputados, com votação final esperada ao longo de 2026, após sucessivos adiamentos motivados por impasses políticos.

Este artigo foi inspirado na entrevista "Tech Visionary Says the Big AI Labs Don't Get What People Want", publicada pela revista Wired em 16 de agosto de 2026, assinada por Steven Levy. Trechos citados foram traduzidos e contextualizados para o público brasileiro. Leia a entrevista completa em: wired.com/story/tech-visionary-says-the-big-ai-labs-dont-get-what-people-want