A região que por gerações ofereceu carvão às siderúrgicas e termelétricas chinesas passou a ser apresentada por Pequim como vitrine de outra mercadoria energética: o hidrogênio obtido pela eletrólise da água com eletricidade eólica e solar. Reportagem da agência Xinhua publicada nesta quarta-feira (14) pelo People's Daily Online descreve uma rede de polos que se estende da cidade mineira de Baotou, na Mongólia Interior, até Shenzhen, no sul do país, e afirma que o setor estaria deixando a fase de demonstração para entrar na escala comercial.1
A afirmação merece ser levada a sério, e também medida. A China é hoje o maior produtor e consumidor de hidrogênio do planeta e concentra a maior parte da capacidade mundial de fabricar eletrolisadores. Mas a quase totalidade do hidrogênio chinês ainda sai do carvão. Entender a distância entre essas duas realidades ajuda a ler o que acontece por lá e, sobretudo, a avaliar o caminho que o Brasil escolheu para o mesmo mercado.
Do carvão ao eletrolisador: o que está sendo construído
Segundo o texto da Xinhua, a Administração Nacional de Energia (NEA, na sigla em inglês) lançou no fim de 2025 o primeiro lote de projetos-piloto de hidrogênio no setor energético, com 41 iniciativas distribuídas por nove regiões. Baotou é uma delas. Na cidade, uma subsidiária da estatal China Huadian opera uma usina de 200 MW de energia renovável dedicada à produção de cerca de 7,8 mil toneladas anuais de hidrogênio verde, e está em obras um hidrogenoduto de 195 quilômetros ligando a área de mineração de Bayan Obo ao centro urbano. Caminhões pesados movidos a hidrogênio já circulam nas minas, e ônibus do mesmo tipo operam linhas urbanas.1
Em escala regional, a Mongólia Interior teria produzido 12.694 toneladas de hidrogênio verde em 2025, volume 3,6 vezes maior que o do ano anterior, e acumularia capacidade anual de 80 mil toneladas com oito projetos concluídos. No plano nacional, a reportagem registra que o governo aprovou cinco aglomerados urbanos para aplicações integradas do combustível, em linha com o 15º Plano Quinquenal (2026 a 2030), e que a produção chinesa total de hidrogênio superou 39 milhões de toneladas em 2025.1
Esses dados se somam ao relatório anual da própria NEA, divulgado em agosto. Conforme noticiou o China Daily, a capacidade operacional de hidrogênio renovável ultrapassou 250 mil toneladas por ano em 2025, mais que o dobro do ano anterior, e o país chegou a junho de 2026 com cerca de 620 postos de abastecimento e mais de 350 quilômetros de dutos dedicados ao gás.2 No início do 14º Plano Quinquenal, em 2021, essa capacidade era de apenas 23 mil toneladas anuais, de acordo com dados da agência reproduzidos pelo mesmo jornal em abril.3
O tamanho real da virada
A comparação entre os dois números centrais do setor chinês revela a escala do desafio. Se as 250 mil toneladas anuais de capacidade renovável operassem o ano inteiro a plena carga, responderiam por menos de 1% dos 39 milhões de toneladas de hidrogênio produzidas no país em 2025. O restante vem majoritariamente da gaseificação do carvão, rota que emite entre 11 e 14 toneladas de CO₂ por tonelada de hidrogênio. Em balanço publicado pela Universidade Tsinghua, a China aparece com cerca de 35% da produção mundial de hidrogênio e metade da capacidade global de hidrogênio renovável.4
Há ainda a distância entre capacidade e produção. Na própria Mongólia Interior, as 12,7 mil toneladas efetivamente produzidas em 2025 correspondem a cerca de um sexto das 80 mil toneladas de capacidade hoje declaradas pela região. Parte da diferença se explica por usinas concluídas ao longo do período, mas o indicador sugere que a operação ainda está longe do potencial instalado.
O gargalo do hidrogênio verde nunca foi saber produzi-lo. É encontrar quem pague por ele um preço que cubra a conta.
Fábricas ociosas e compradores incertos
O avanço chinês convive com sinais de desequilíbrio. A Agência Internacional de Energia (IEA) estima, em seu Global Hydrogen Review 2026, que a capacidade mundial de fabricação de eletrolisadores chegou a quase 58 GW por ano no fim de 2025, mas que a produção efetiva desses equipamentos ficou abaixo de 5 GW, o que implica uma utilização em torno de 9%. A China detém 60% dessa capacidade fabril, e a agência descreve o setor como em fase de consolidação, segundo reportagem da Argus Media.5
O custo é o segundo obstáculo. Levantamento da BloombergNEF citado pela Bloomberg indica que os eletrolisadores chineses custam cerca de um quarto dos europeus, mas que, somados, os subsídios centrais, os incentivos locais e os créditos de carbono ainda não bastam para igualar o preço do hidrogênio cinza.6 Análise da consultoria Shanghai Metals Market (SMM) aponta que a paridade só aparece em janelas específicas, quando projetos aproveitam energia eólica e solar que seria desperdiçada por falta de rede, e situa o custo do hidrogênio de carvão no centro-oeste do país em torno de 12 yuans por quilo.7
O terceiro obstáculo é a demanda contratada. Dados da HySights publicados pela S&P Global mostraram que poucos grandes projetos chineses em construção tinham mais de 80% da produção vendida antecipadamente, patamar que bancos costumam exigir para financiar empreendimentos desse porte. A lógica, segundo analistas ouvidos pela publicação, tem sido construir primeiro e buscar compradores depois.8 É nesse ponto que os hubs descritos pela Xinhua ganham sentido: caminhões de mineração, frotas de ônibus e aglomerados urbanos são formas de o Estado criar consumo onde o mercado ainda não o faz sozinho.
O Brasil entre o porto e o leilão
O Brasil chegou ao tema por outra porta. Em agosto de 2024, a Lei 14.948 instituiu o marco legal do hidrogênio de baixa emissão de carbono. Em setembro do mesmo ano, a Lei 14.990 criou o Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC), que autoriza até R$ 18,3 bilhões em créditos fiscais entre 2028 e 2032, começando com R$ 1,7 bilhão no primeiro ano e chegando a R$ 5 bilhões no último. Os créditos podem abater tributos federais ou, na ausência deles, ser pagos em dinheiro, conforme resumiu o portal Cenário Energia.9
Dois anos depois, o mecanismo ainda não saiu do papel. O primeiro leilão, que distribuirá os créditos referentes a 2028, está previsto para o intervalo entre o fim de 2026 e janeiro de 2027, segundo a coluna Movimento Econômico, que o trata como teste de credibilidade da política.10 O portal eixos registrou que o decreto de regulamentação seguia sem previsão e que, segundo levantamento da EY, os projetos mais avançados do país ainda são pilotos.11
No lado privado, os anúncios são grandes. Sete projetos em escala industrial, somando cerca de R$ 63 bilhões, planejavam chegar à decisão final de investimento em 2026, a maioria concentrada no Complexo do Pecém, no Ceará, e voltada à produção de amônia verde para exportação à Europa, de acordo com outro levantamento do eixos.12 O porto cearense tem como sócio o Porto de Roterdã, principal porta de entrada de energia da Europa. Só o projeto da australiana Fortescue no Pecém prevê, segundo o Diário do Nordeste, 837 toneladas diárias de hidrogênio a partir de 2.100 MW de energia renovável.13 Operando o ano inteiro, isso equivaleria a cerca de 300 mil toneladas, volume superior a toda a capacidade renovável hoje em operação na China. O cálculo diz menos sobre a força brasileira do que sobre a distância entre anúncio e usina.
| Dimensão | China | Brasil |
|---|---|---|
| Estágio | Transição de pilotos para escala comercial; capacidade renovável acima de 250 mil t/ano | Projetos industriais em fase de decisão de investimento; operação concentrada em pilotos |
| Destino da produção | Mercado doméstico: indústria, mineração, transporte pesado, clusters urbanos | Prioritariamente exportação de amônia verde para a Europa |
| Instrumento central | Planejamento estatal, pilotos da NEA, clusters de aplicação, subsídios em toda a cadeia | Créditos fiscais do PHBC (R$ 18,3 bi, 2028 a 2032) por leilão; Rehidro |
| Principal gargalo | Custo frente ao hidrogênio de carvão; contratos de compra; ociosidade fabril | Regulamentação, conexão à rede elétrica e contratos de exportação |
O que a experiência chinesa ensina, e o que não ensina
A diferença essencial entre os dois países está na origem da demanda. A China já é o maior consumidor de hidrogênio cinza do mundo, com cerca de um terço da demanda global, e pode trocar parte desse consumo por hidrogênio limpo sem precisar inventar mercado. O Brasil consome pouco hidrogênio em comparação e apostou que o comprador estará do outro lado do Atlântico. Essa aposta depende de regras europeias, de contratos de longo prazo e da disposição de importadores a pagar prêmio pelo produto limpo, variáveis que Brasília não controla.
O desenho do PHBC, ao premiar a comercialização do hidrogênio produzido no país, abre espaço para que fertilizantes, siderurgia, cimento, química e transporte pesado formem um mercado interno. A experiência chinesa sugere que esse espaço precisa ser ocupado com deliberação. Os hubs de Baotou não existem porque o hidrogênio verde se tornou barato, e sim porque o Estado decidiu onde ele seria consumido enquanto ainda não é.
O Brasil tem vantagens que a China não tem: matriz elétrica majoritariamente renovável, potencial eólico e solar no Nordeste e portos já articulados com compradores europeus. Falta o elo que Pequim tratou como prioridade, a demanda firme. Sem ela, a corrida dos anúncios corre o risco de terminar como tantas outras promessas industriais: em áreas reservadas, pré-contratos assinados e usinas que não chegam a ser construídas.
Perguntas frequentes
O que é hidrogênio verde?
É o hidrogênio produzido pela eletrólise da água com eletricidade de fontes renováveis, como eólica e solar. Diferencia-se do hidrogênio cinza, obtido de carvão ou gás natural sem captura de carbono, que ainda domina a produção mundial.
Quanto hidrogênio a China produz?
Segundo a Administração Nacional de Energia da China, citada pela agência Xinhua, a produção chinesa de hidrogênio superou 39 milhões de toneladas em 2025, a maior do mundo. A maior parte ainda vem de combustíveis fósseis, sobretudo carvão.
A China já produz hidrogênio verde em escala comercial?
A capacidade renovável em operação passou de 250 mil toneladas por ano e representa mais da metade do total mundial. Ainda assim, mesmo operando a plena carga, equivaleria a menos de 1% do hidrogênio produzido no país. O setor vive a transição entre demonstração e escala comercial, com custos ainda acima do hidrogênio de carvão.
Como o Brasil incentiva o hidrogênio de baixa emissão?
Pela Lei 14.948/2024, que criou o marco legal do setor, e pela Lei 14.990/2024, que instituiu o Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC), com até R$ 18,3 bilhões em créditos fiscais entre 2028 e 2032, distribuídos por leilão. Há ainda o Rehidro, voltado à desoneração de investimentos.
Quando será o primeiro leilão do PHBC?
O governo federal sinalizou a realização entre o fim de 2026 e o início de 2027, com até R$ 1,7 bilhão em créditos referentes a 2028. A data depende da publicação do regulamento que define as regras do certame.
Por que a experiência chinesa importa para o Brasil?
Porque mostra que o gargalo do hidrogênio verde está menos na produção do que na demanda. A China cria consumo doméstico com transporte pesado, mineração e clusters urbanos, enquanto os principais projetos brasileiros dependem de contratos de exportação para a Europa ainda não firmados.