Caderno Sustentabilidade · Ciência do Clima

Há cerca de 56 milhões de anos, as florestas de clima temperado que cobriam boa parte do hemisfério norte começaram a rarear. Nogueiras, bétulas e olmos foram cedendo espaço a palmeiras e arbustos resistentes à seca, num processo empurrado por um súbito excesso de CO₂ na atmosfera. O episódio, batizado pelos geólogos de Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (PETM), é um dos poucos exemplos naturais de aquecimento global em escala planetária registrados no passado da Terra. Um novo estudo publicado na revista Science conseguiu, pela primeira vez, medir com precisão o quanto essas florestas rarearam, e o resultado acendeu um alerta que ecoa diretamente na Amazônia de hoje.

A pesquisa, conduzida por Regan Dunn, do Museu de História Natural do Condado de Los Angeles, e Ellen Currano, da Universidade de Wyoming, analisou fósseis vegetais da Bacia de Hanna, no estado americano de Wyoming. Em vez de contar espécies, as cientistas desenvolveram um método que estima a densidade da copa florestal a partir da forma das células da epiderme foliar preservadas em fósseis: folhas que crescem à sombra desenvolvem células alongadas, enquanto as que recebem sol pleno formam células mais compactas. Comparando esse padrão em folhas atuais e fósseis, a equipe reconstruiu o chamado índice de área foliar (IAF) de florestas que existiram antes, durante e depois do PETM.

O resultado: durante o PETM, a cobertura florestal da região caiu, em média, cerca de 35%, com uma queda inicial ainda mais brusca, próxima de 61%, logo no começo do evento de aquecimento. O relato completo do estudo, publicado originalmente pelo jornal espanhol El País, descreve como o excesso de CO₂ funcionou, a princípio, como fertilizante para as plantas, mas o aquecimento subsequente ressecou solos e folhas, abrindo o dossel e deixando entrar mais luz e calor no sub-bosque, um ciclo que se retroalimentou.

"O bosque se tornou menos eficaz para regular o clima e armazenar carbono" — é assim que a paleobotânica Regan Dunn resume, ao El País, o que os fósseis de Wyoming revelam sobre o colapso florestal do PETM.

Um espelho geológico da crise atual

O paralelo com o presente não é sutil. Segundo a reportagem espanhola, a concentração de CO₂ na atmosfera já soma cerca de 423 partes por milhão, e o planeta enfrenta secas mais frequentes, mortandade vegetal e acidificação dos oceanos, exatamente os sintomas registrados nos sedimentos de 56 milhões de anos atrás. A reportagem da Gizmodo Brasil sobre o mesmo estudo acrescenta um dado importante: desde o início deste século, o efeito fertilizante do CO₂ sobre a vegetação global, que por décadas ajudou florestas a crescerem mais densas, começou a perder força em boa parte do planeta, um sinal de que o limite de tolerância das plantas ao calor pode estar próximo.

A diferença decisiva entre os dois episódios é o ritmo. Segundo Ellen Currano, coautora do estudo, a quantidade de carbono liberada durante o PETM é comparável à que existe hoje nas reservas conhecidas de combustíveis fósseis da humanidade, mas o que naquela época levou entre mil e dez mil anos para ser emitido, o mundo atual está fazendo em aproximadamente cem anos. É essa aceleração, e não apenas o volume de gases, que preocupa os cientistas que estudam florestas tropicais hoje, incluindo a Amazônia.

Contraponto: o PETM prova que "o clima sempre mudou"?

O PETM é frequentemente citado por negacionistas do aquecimento global como evidência de que oscilações climáticas são naturais e já ocorreram sem intervenção humana. É um fato: o evento teve origem provavelmente vulcânica, não antropogênica. A ressalva que essa leitura costuma omitir, no entanto, é a velocidade. O PETM se desenrolou ao longo de milênios, dando tempo para que ecossistemas e espécies migrassem e se adaptassem gradualmente. A mudança climática atual comprime um processo análogo em poucas gerações humanas, o que reduz drasticamente a margem de adaptação de florestas, solos e da própria biodiversidade.

O que isso significa para a Amazônia

Pesquisadores brasileiros já descrevem, em florestas tropicais atuais, um enfraquecimento estrutural parecido com o observado nos fósseis de Wyoming. O climatologista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da USP, desenvolveu desde o fim dos anos 1980 a hipótese da "savanização" da Amazônia: se o desmatamento acumulado ultrapassar uma faixa entre 20% e 25% da floresta original, combinado a um aquecimento global de 2°C a 2,5°C, o clima regional perderia a capacidade de sustentar floresta tropical, e grandes áreas se transformariam em um ecossistema degradado, com poucas árvores e predomínio de gramíneas, segundo descreve o próprio Nobre em entrevista ao projeto Clima Sem Fake, do Cemaden.

Os números recentes de monitoramento por satélite reforçam a preocupação. Segundo levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais divulgado com base no sistema Deter, a Amazônia enfrentou dois anos consecutivos de seca extrema em 2023 e 2024, o que elevou os índices de degradação florestal a níveis recordes, mesmo com o desmatamento por corte raso em queda, conforme reportagem do Poder360. Diferentemente do desmatamento clássico, a degradação florestal por seca e incêndio deixa a floresta de pé, mas rarefeita, com o dossel aberto e menos capaz de reter umidade, um padrão estruturalmente semelhante ao que o novo estudo do PETM descreve para Wyoming há 56 milhões de anos.

Já os dados mais recentes do Prodes/Inpe, divulgados no início de 2026, mostram uma redução de 11% no desmatamento por corte raso na Amazônia em relação a 2025, o menor índice em onze anos, segundo nota oficial do instituto. É uma notícia positiva no front do desmatamento direto, mas cientistas alertam que ela não neutraliza o risco climático de fundo: mesmo com desmatamento zero, um aquecimento global de 4°C bastaria, segundo modelos citados por Carlos Nobre, para empurrar a Amazônia rumo à savanização.

O que os fósseis ensinam sobre o futuro

Para as autoras do estudo publicado na Science, o valor do trabalho vai além de reconstruir o passado. O método desenvolvido para medir a densidade de copas em florestas fósseis pode ser aplicado a outros depósitos, incluindo, segundo Regan Dunn, sítios geológicos na Espanha e, potencialmente, na bacia amazônica. A equipe já planeja expandir a pesquisa para obter um panorama global de como a estrutura da vegetação mudou durante o PETM, o que poderia refinar as projeções sobre até onde florestas tropicais atuais, sob estresse térmico e hídrico crescente, podem resistir antes de um colapso estrutural semelhante.

O recado dos fósseis de Wyoming, quando lido ao lado dos dados de satélite do Inpe, é menos sobre destino e mais sobre janela de tempo. Se o planeta levou milênios para reorganizar suas florestas temperadas durante o PETM, e ainda assim o resultado foi um clareamento severo do dossel, a pergunta que resta é o que acontece quando um processo equivalente é comprimido em cem anos, o intervalo em que a humanidade está, segundo os cientistas, repetindo o experimento.

Nota editorial: os percentuais de degradação florestal e desmatamento citados (INPE/Prodes/Deter) referem-se a levantamentos oficiais sujeitos a revisão em ciclos posteriores de monitoramento; projeções sobre o "ponto de não retorno" amazônico são estimativas científicas em debate na comunidade acadêmica, não consensos fechados. Este artigo é inspirado na reportagem "Los bosques templados que desaparecieron en el pasado durante milenios se esfuman ahora con el mismo patrón, pero en décadas", publicada pelo jornal El País em 13 de agosto de 2026 e assinada por Miguel Ángel Criado, com pesquisa e contextualização adicionais para o público brasileiro.

Perguntas frequentes

O que foi o Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (PETM)?

Foi um episódio de aquecimento global abrupto ocorrido há cerca de 56 milhões de anos, provavelmente causado por atividade vulcânica que liberou grandes volumes de CO₂ na atmosfera, elevando as temperaturas globais em mais de 5°C e marcando a transição geológica entre o Paleoceno e o Eoceno.

Como os cientistas mediram a densidade das florestas de 56 milhões de anos atrás?

Usando um método que analisa a forma das células da epiderme em folhas fossilizadas. Folhas que cresceram à sombra têm células mais alongadas, enquanto folhas que receberam sol direto têm células mais compactas, permitindo estimar quão densa era a copa da floresta.

Qual a relação entre o PETM e a Amazônia atual?

Ambos os casos envolvem clareamento do dossel florestal por estresse térmico e hídrico. A diferença central é o ritmo: o PETM se desenrolou ao longo de milênios, enquanto o aquecimento atual e seus efeitos sobre florestas tropicais como a Amazônia ocorrem em poucas décadas.

O que é o "ponto de não retorno" da Amazônia?

É o limiar hipotético, estimado por cientistas como Carlos Nobre entre 20% e 25% de desmatamento acumulado combinado a um aquecimento global de 2°C a 2,5°C, a partir do qual o clima regional perderia a capacidade de sustentar floresta tropical, levando a um processo de savanização.

Referências

  1. Criado, M. A. "Los bosques templados que desaparecieron en el pasado durante milenios se esfuman ahora con el mismo patrón, pero en décadas." El País, 13 ago. 2026. Acessar reportagem original
  2. Chatelain, C. "Florestas definharam durante um antigo aquecimento global — e a história pode se repetir." Gizmodo Brasil, 13 ago. 2026. Acessar reportagem
  3. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). "Dados do Prodes apontam redução no desmatamento na Amazônia e no Cerrado brasileiros." Acessar nota oficial
  4. Poder360. "Degradação na Amazônia Legal cresce 482% em 2025." Acessar reportagem
  5. Cemaden Educação. "O ponto de não-retorno da Amazônia", entrevista com Carlos Nobre. Acessar