Caderno Política · Geopolítica & Relações Internacionais

Moscou bombardeia mais cidades ucranianas. Washington sufoca mais barris de petróleo iraniano. E, ainda assim, nenhuma das duas guerras está perto de terminar como seus comandantes esperavam. Rússia e Estados Unidos entraram em conflitos de escolha, contra a Ucrânia e o Irã, apostando em vitórias rápidas. Mais de três anos depois, no caso russo, e sete meses depois, no caso americano, os dois adversários menores continuam de pé, e o custo dessa resistência está migrando para fora dos dois países, inclusive para o preço do diesel nos postos brasileiros.

O que muda no front ucraniano em setembro de 2026

No terreno, o quadro é de estagnação com picos de violência. As defesas aéreas ucranianas estão desgastadas, em parte porque Washington redirecionou baterias Patriot para proteger bases americanas no Oriente Médio, e a Rússia tem aproveitado essa brecha para intensificar ataques com mísseis balísticos e drones de longo alcance. As Nações Unidas registraram em julho o mês com mais civis ucranianos mortos e feridos desde maio de 2022.

Apesar disso, a ofensiva terrestre russa perdeu fôlego. Analistas militares e a organização polonesa OSW (Centre for Eastern Studies) descrevem contra-ataques ucranianos bem-sucedidos ao norte da cidade de Lyman, no Donetsk, região que a Rússia já havia declarado, prematuramente, como conquistada em maio[6]. O custo humano da guerra para Moscou também segue crescendo: o chefe do Estado-Maior de Defesa britânico, marechal Richard Knighton, afirmou na semana passada que mais de 500 mil soldados russos já morreram desde o início da invasão, dentro de um total estimado de 1,5 milhão de baixas russas (mortos, feridos e desaparecidos)[3]. É um número superior ao total de militares americanos mortos na Segunda Guerra Mundial.

Do outro lado, a Ucrânia responde onde consegue: com drones de fabricação própria atingindo refinarias e terminais de gás russos a milhares de quilômetros da fronteira, provocando aquela que analistas descrevem como a pior crise de combustível da Rússia desde o fim da União Soviética. Kiev também sinaliza que passará a usar mísseis balísticos próprios em breve, ampliando o alcance dessa campanha contra a infraestrutura energética russa.

Nenhuma das duas potências conseguiu, até agora, forçar uma mudança de regime nos países que atacou. O que mudou nos últimos meses foi apenas o placar tático, não o resultado da guerra. Leitura de O Tecido a partir de dados do Washington Post, da OSW e do Ministério da Defesa britânico

Irã: economia em colapso, mas sem capitulação

No outro tabuleiro, os Estados Unidos avançaram no cerco econômico ao Irã. Relatos indicam que hoje sai do Golfo Pérsico e do Golfo de Omã um volume de petróleo iraniano bem abaixo do praticado antes da guerra, e o Fundo Monetário Internacional projeta uma contração da economia iraniana de cerca de 5,4% neste ano, com inflação anual que, segundo o próprio instituto estatístico do país, superou 87% em julho, puxada por alimentos[5]. Seria o pior desempenho econômico iraniano desde os anos finais da guerra Irã-Iraque, na década de 1980.

Mas pressão econômica não é o mesmo que rendição militar. O Irã, por meio de seus aliados houthis no Iêmen, abriu uma nova frente que reformulou o tabuleiro do petróleo global em poucos dias. Na semana passada, forças houthis tomaram o porto iemenita de Mokha e, no dia seguinte, a ilha de Perim, que divide o Estreito de Bab el-Mandeb[2]. Com isso, a milícia apoiada por Teerã passou a ter influência sobre dois dos principais estrangulamentos marítimos do petróleo mundial, Bab el-Mandeb e Hormuz, simultaneamente. O preço do barril Brent ultrapassou os 100 dólares na sequência desses episódios.

O Irã também mostrou capacidade de retaliar diretamente contra alvos americanos: mísseis balísticos disparados contra uma base dos EUA na Jordânia obrigaram as forças americanas a usar dezenas de interceptores Patriot, o mesmo sistema já escasso por causa da guerra ucraniana, reforçando um problema logístico que atravessa os dois conflitos ao mesmo tempo.

Contraponto

Nem todo analista lê o quadro como empate. Para setores mais próximos da Casa Branca e do Kremlin, o desgaste econômico e humano acumulado por Kiev e Teerã, mesmo sem colapso militar imediato, é justamente o mecanismo de vitória de guerras de atrito: países maiores toleram perdas por mais tempo. Sob esse argumento, o inverno que se aproxima na Ucrânia (com a rede elétrica já fragilizada) e a hiperinflação iraniana poderiam produzir, meses à frente, o resultado que as armas não deram em 2025. A contra-argumentação, presente na análise original do Washington Post, é que ambos os governos atacados têm motivos existenciais para não ceder, o que tende a prolongar o conflito em vez de encerrá-lo por exaustão[1].

O impasse chega ao Brasil pelo preço do petróleo

Para o leitor brasileiro, esses dois conflitos não são apenas notícia internacional. Em março, o Ministério da Fazenda revisou para cima sua projeção de IPCA para 2026, de 3,6% para 3,7%, citando diretamente a volatilidade do petróleo provocada pelas tensões no Oriente Médio. A pasta elevou sua estimativa de preço médio do barril para o ano em cerca de 11%, e a Petrobras, na mesma semana, reajustou o diesel nas distribuidoras[4]. Como o diesel move boa parte da logística de cargas e do escoamento agrícola no país, choques desse tipo tendem a se espalhar pela cadeia de preços com defasagem.

Na diplomacia, o Brasil segue tratando a guerra da Ucrânia como um caso à parte de sua política externa. Governos de espectros opostos, o de Jair Bolsonaro e o de Luiz Inácio Lula da Silva, mantiveram a mesma linha de condenar a invasão russa nas Nações Unidas sem aderir a sanções ou ao envio de armas, e o país seguiu se abstendo em resoluções recentes sobre o conflito. O próprio embaixador brasileiro em Kiev resumiu essa posição como neutralidade militar, mas não moral[7]. Em relação à guerra Irã-Estados Unidos, o Brasil não assumiu papel de mediação comparável, o que deixa o país mais exposto aos efeitos econômicos indiretos do conflito, sobretudo via preço de combustíveis, do que capaz de influenciar seu desfecho.

IRÃ EM 2026 (PROJEÇÕES DO FMI E DADOS OFICIAIS IRANIANOS) Inflação anual (jul/2026, dados oficiais) 87% Contração do PIB projetada (FMI) -5,4% Fontes: Estatística oficial do Irã (via Axios); FMI, World Economic Outlook, jul/2026

Perguntas frequentes

Por que a Rússia e os Estados Unidos não conseguem vencer suas guerras?

Porque venceram a fase inicial de choque, mas não conseguiram o objetivo político de fundo, a mudança de regime em Kiev e em Teerã. Ucrânia e Irã mantêm capacidade de resistir e de retaliar, o que transforma os dois conflitos em guerras de desgaste sem data de encerramento definida.

Os houthis do Iêmen têm relação com a guerra do Irã contra os Estados Unidos?

Sim. Os houthis são um dos principais aliados regionais de Teerã. Ao capturar o porto de Mokha e a ilha de Perim, no Estreito de Bab el-Mandeb, o grupo ampliou a capacidade iraniana de pressionar o comércio global de petróleo, abrindo uma segunda frente marítima além do Estreito de Hormuz.

Como esses conflitos afetam o preço dos combustíveis no Brasil?

A instabilidade no Golfo Pérsico e no Mar Vermelho pressiona o preço internacional do petróleo, que serve de referência para o reajuste de combustíveis no país. Em março de 2026, isso já levou o governo brasileiro a revisar sua projeção de inflação para o ano e a Petrobras a reajustar o diesel.

Qual é a posição oficial do Brasil sobre a guerra na Ucrânia?

O Brasil condena a invasão russa nas Nações Unidas, mas mantém neutralidade militar, sem enviar armas nem aderir a sanções contra Moscou, política sustentada tanto pelo governo Bolsonaro quanto pelo governo Lula.

Nota de atribuição

Este artigo foi inspirado pela análise "Trump and Putin are both wrong: They can't win their wars", publicada pelo The Washington Post em 14 de setembro de 2026. O texto original não foi reproduzido nem traduzido integralmente; os dados e argumentos foram verificados de forma independente por O Tecido junto a fontes adicionais listadas nas referências. Leia a análise completa em: washingtonpost.com.