Há pouco menos de um ano, a diretora financeira da OpenAI, Sarah Friar, usou num evento do Wall Street Journal uma palavra que o mercado financeiro conhece bem: backstop. Ela falava de uma garantia, possivelmente federal, capaz de baratear o crédito e ampliar o volume de dívida que a empresa poderia tomar para financiar chips e data centers. A repercussão foi imediata. Na mesma noite, Friar escreveu no LinkedIn que a OpenAI não buscava garantia pública e que a escolha da palavra havia confundido o argumento, segundo a CNBC.2 No dia seguinte, o CEO Sam Altman afirmou que governos não deveriam escolher vencedores e que contribuintes não deveriam resgatar empresas que tomam más decisões, como registrou a CNN.3
O recuo não encerrou a discussão. Ele é o ponto de partida de um ensaio publicado neste sábado (26) no The New York Times pela jornalista financeira Bethany McLean, coautora de The Smartest Guys in the Room, livro de referência sobre a queda da Enron.1 A tese central de McLean é que a indústria de inteligência artificial passou a flertar com o mesmo status que os grandes bancos obtiveram em 2008: o de empresas grandes demais para quebrar. E acrescenta uma camada mais inquietante. Quando a corrida contra a China é tratada como existencial, cada dólar investido torna o setor mais relevante, cada ganho de relevância justifica acelerar, e cada aceleração amplia o risco. O resultado, sugere a autora, pode ser uma indústria não apenas grande demais para quebrar, mas grande demais para ser contida.
Quanto a IA já pesa na economia americana
A comparação com 2008 deixou de ser apenas retórica porque os números mudaram de escala. A Goldman Sachs Research estima que o investimento global em IA deve ficar em torno de US$ 1 trilhão em 2026, pouco menos de US$ 600 bilhões apenas nos Estados Unidos, o equivalente a 1,8% do PIB americano. A projeção do banco é que essa fatia chegue a 2,5% em 2027 e a 2,8% em 2028.5 A consultoria TrendForce revisou para cerca de US$ 830 bilhões o capex combinado dos nove maiores provedores de nuvem do mundo em 2026, uma alta anual de 79%.6
O instituto de pesquisa Epoch AI oferece outra medida: a infraestrutura de computação como um todo alcançou aproximadamente 1,5% do PIB dos EUA no primeiro trimestre de 2026, o dobro da média de 0,7% observada entre 2015 e 2022, e se tornou o principal motor do investimento privado no país.4 O ensaio do Times vai além e lembra que, por algumas estimativas, o gasto ligado à IA responde por cerca de metade do crescimento do PIB americano, e que a maior parte da valorização do S&P 500 desde o fim de 2022 está associada a empresas do setor.1
Há também um efeito de substituição. Análise do ING mostra que o investimento empresarial não ligado à tecnologia caiu na comparação anual por seis trimestres seguidos, do fim de 2024 ao início de 2026.9 Em outras palavras, a economia americana depende cada vez mais de um único motor. É esse grau de concentração que transforma a saúde financeira de meia dúzia de empresas em assunto de política pública.
Onde está a dívida
O ensaio de McLean faz uma ressalva importante. O que tornou o subprime devastador não foi apenas o tamanho do mercado, mas a forma invisível como aquela dívida se infiltrou nos mecanismos de financiamento dos próprios bancos. O investimento em IA, por ora, não tem essa característica. O investidor Jim Chanos, conhecido pelo ceticismo, avalia no texto que o endividamento associado ainda não é sistêmico, embora enfatize o "ainda".1
Os dados de mercado explicam a cautela. Segundo levantamento do escritório Quinn Emanuel, as grandes empresas de nuvem emitiram cerca de US$ 121 bilhões em títulos em 2025, mais de quatro vezes a média dos cinco anos anteriores, e a emissão total de dívida de data centers quase dobrou, para US$ 182 bilhões. O mesmo estudo contrapõe receitas de aproximadamente US$ 60 bilhões do setor em 2025 a um capex de cerca de US$ 400 bilhões.7 Em apresentação no Bendheim Center for Finance, de Princeton, foi citada a expectativa do Morgan Stanley de US$ 1,15 trilhão em dívida privada, títulos e securitizações ligados a data centers nos próximos quatro anos. Para comparação, as securitizações de hipotecas subprime somavam cerca de US$ 2 trilhões em 2007.8
A preocupação dos reguladores está menos no volume e mais na arquitetura. O Banco de Compensações Internacionais (BIS) descreveu em sua revisão trimestral de março a estrutura dominante: um veículo de propósito específico constrói o data center, levanta dívida com fundos de crédito privado e aluga a capacidade para a grande empresa de tecnologia, que registra o compromisso como despesa operacional e não como dívida. O BIS chama o fenômeno de endividamento paralelo.12 Há ainda o problema da garantia: parte dos empréstimos usa GPUs como colateral, um ativo que perde valor rapidamente enquanto os prédios que o abrigam têm vida útil de décadas.
Arriscada demais para seguir, importante demais para parar
McLean aponta uma contradição no discurso do próprio setor. Os mesmos laboratórios que descrevem a tecnologia como potencialmente perigosa para a humanidade aceleram planos de expansão e de captação. O economista Owen Lamont, citado no ensaio, comparou a situação a Robert Oppenheimer abrindo o capital do Projeto Manhattan.1 A autora também resgata o episódio de 2007, quando o então presidente do Citigroup, Chuck Prince, justificou a permanência do banco no mercado de crédito arriscado com a metáfora de que é preciso continuar dançando enquanto a música toca. Hoje, argumenta ela, provedores de nuvem e desenvolvedores de modelos estão na mesma pista, sem poder parar sob pena de perder centenas de bilhões já investidos.
A leitura não é isolada. Dois ex-secretários do Tesouro americano, Robert Rubin e Henry Paulson, este último no comando da pasta durante a crise de 2008, publicaram no início de setembro um artigo no Washington Post afirmando que incentivos financeiros distorcidos dificultam a proteção contra os riscos da IA. Para eles, autorregulação não basta quando desenvolvedores e Wall Street têm tanto em jogo, e o argumento de que os EUA não podem perder a corrida para a China costuma encerrar qualquer alerta. A proposta da dupla é um tratado de cooperação em IA entre Washington e Pequim, inspirado no controle de armas nucleares da Guerra Fria.10
O relatório econômico anual do BIS, divulgado em junho, seguiu linha semelhante, embora mais comedida. A instituição comparou o ciclo atual a episódios como a febre das ferrovias britânicas no século 19, a eletrificação dos anos 1920 e as pontocom, todos encerrados com reversão de investimento, mas evitou classificar o momento atual como bolha.11
O Brasil já viu esse filme: o Proer
A discussão sobre quem é grande demais para quebrar não é estrangeira ao Brasil. Em novembro de 1995, com o fim da hiperinflação expondo balanços que só se sustentavam com ganhos inflacionários, o governo criou o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional, o Proer, por meio da Resolução 2.208 do Conselho Monetário Nacional e das MPs 1.179 e 1.182, conforme reconstituiu a Gazeta do Povo.13 Nacional, Econômico, Bamerindus, Mercantil, Banorte, Pontual e Crefisul passaram pelo programa. Uma dissertação da PUC-Rio, com base em estudo de Maia (2003), estima o custo total em R$ 20,4 bilhões, cerca de 2,7% do PIB médio de 1995 a 1997.14
O desenho do Proer guarda uma lição pouco lembrada no debate americano. O Banco Central separou as instituições em uma parte boa, com clientes e ativos saudáveis, vendida a outros bancos, e uma parte ruim, que ficou responsável por devolver os recursos públicos. Os controladores perderam os bancos. Ainda assim, o programa foi alvo de CPI, acelerou a concentração bancária e deixou dúvidas sobre ressarcimento que se arrastaram por anos. Gustavo Loyola, que presidia o BC na época, admitiu em entrevista reproduzida pela Tribuna do Paraná: "Não tínhamos um plano estabelecido".15 As soluções foram improvisadas sob pressão. É exatamente o cenário que McLean pede que os Estados Unidos evitem ao lembrar a máxima dos gestores de 2008 de que ter um plano é melhor do que não ter nenhum.
O que o Proer ensina para o debate da IA
O programa brasileiro preservou depositantes e o funcionamento do sistema, mas não os acionistas controladores. A distinção entre salvar uma função econômica e salvar uma empresa específica é justamente o ponto que o ensaio do Times coloca no centro da discussão sobre a IA. O Proer também deixou um legado institucional duradouro: o Fundo Garantidor de Créditos, criado no mesmo período, passou a proteger correntistas e poupadores sem depender de socorro caso a caso.
Redata: o Brasil entra na corrida
O Brasil chega a esse debate por uma porta própria. Em 15 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 15.504/2026, que cria o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata. Segundo a Agência Senado, o regime suspende Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e IPI sobre equipamentos, com renúncia estimada em R$ 5,2 bilhões em 2026 e cerca de R$ 1 bilhão em cada um dos dois anos seguintes.16 Em troca, as empresas habilitadas precisam investir 2% do valor dos equipamentos em pesquisa e inovação no país e reservar 10% da capacidade ao mercado interno, de acordo com a Agência Brasil, além de contratar energia de fontes renováveis.17
O incentivo coloca o país como destino de parte da infraestrutura que alimenta o boom. Isso traz oportunidade, mas também uma pergunta que o ensaio de McLean torna inevitável: o que acontece com projetos, contratos de energia e empregos se o fluxo de capital para a IA secar de repente? A lei prevê suspensão e cancelamento do benefício em caso de descumprimento das contrapartidas, mas não trata do cenário em que o investimento simplesmente para.
Os canais de contágio para o Brasil são conhecidos. Quando o apetite por risco cai nos EUA, gestores estrangeiros costumam reduzir posições em bolsas periféricas, o que pressiona a B3, como analisou o Times Brasil, e investidores locais com ETFs de tecnologia sentem o impacto direto.18 O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tem observado que o país está pouco integrado à cadeia global de valor da IA, segundo análise publicada no portal Bora Investir, da B3.19 A baixa integração limita os ganhos de produtividade, mas também reduz a exposição direta a uma eventual quebra. No campo da estabilidade financeira, a ata da reunião de maio do Comitê de Estabilidade Financeira do BC registrou atenção a modelos de IA capazes de explorar vulnerabilidades do sistema, conforme noticiou o Finsiders.20
O que seria um plano
A contribuição mais útil do ensaio de McLean está na pergunta que ela propõe como ponto de partida: antes de discutir como socorrer, é preciso decidir o que se pretende salvar. A tecnologia pode ser estratégica para um país sem que isso implique proteger as empresas que lideram o setor neste momento, nem a fortuna de seus investidores e executivos. A autora conclui com uma frase que resume a lição de 2008: "Nenhuma empresa deveria ser grande demais para quebrar".1
Traduzido para termos práticos, um plano feito antes da crise passaria por três frentes. A primeira é transparência sobre a dívida fora de balanço, que hoje dificulta saber quem carrega o risco final. A segunda é a separação clara entre infraestrutura física, que pode ter valor duradouro mesmo após uma correção, e as empresas que a operam. A terceira é a recusa explícita de garantias implícitas, para que credores precifiquem o risco sem contar com o Tesouro. O Brasil, que aprendeu com o Proer o custo da improvisação, tem motivos para acompanhar a metrificação do Redata com a mesma atenção que dedica aos benefícios que ele promete.
Perguntas frequentes
O que significa dizer que a IA pode ser "grande demais para quebrar"?
A expressão, consagrada na crise bancária de 2008, descreve empresas cujo colapso ameaçaria a economia a ponto de forçar um resgate com dinheiro público. Aplicada à IA, indica que o setor já concentra tanto investimento e crescimento que governos poderiam se sentir obrigados a socorrê-lo.
A OpenAI pediu garantia do governo americano?
Em novembro de 2025, a diretora financeira Sarah Friar mencionou um "backstop" que facilitaria o financiamento. No mesmo dia recuou, dizendo que a empresa não buscava garantia pública, e Sam Altman declarou que contribuintes não deveriam resgatar empresas que tomam más decisões.
Quanto a IA pesa na economia dos Estados Unidos?
A Goldman Sachs estima investimento em IA de cerca de 1,8% do PIB americano em 2026, com projeção de 2,8% em 2028. A Epoch AI calcula que a infraestrutura de computação chegou a cerca de 1,5% do PIB no primeiro trimestre de 2026.
A dívida da IA já representa risco sistêmico?
Não há consenso. Jim Chanos avalia que ainda não é, mas o avanço de títulos, crédito privado e veículos fora de balanço, que o BIS chama de endividamento paralelo, está sob vigilância de reguladores.
Como uma crise da IA afetaria o Brasil?
Pela saída de capital estrangeiro da B3, pelos fundos com exposição a ações de tecnologia e pelos projetos de data centers incentivados pelo Redata, cuja renúncia fiscal é estimada em R$ 5,2 bilhões em 2026.
O Brasil já socorreu empresas consideradas grandes demais para quebrar?
Sim. O Proer, de 1995, financiou a reestruturação de bancos como Nacional, Econômico e Bamerindus, com custo estimado em cerca de 2,7% do PIB médio do período. O programa acelerou a concentração bancária e deu origem ao FGC.
Ewerton Lopes — Curador Editorial
Aviso de atribuição: esta análise parte do ensaio "What Happens if the A.I. Bubble Bursts", de Bethany McLean, publicado pelo The New York Times em 26 de setembro de 2026. O Tecido não reproduz nem traduz o texto original; as referências a ele são paráfrases com crédito. Leia o ensaio completo em nytimes.com. Os demais dados foram apurados de forma independente em fontes indicadas ao longo do texto.