Política · Geopolítica

Na segunda semana de setembro, uma milícia que a maior parte do mundo mal conhecia até fevereiro passou a controlar, na prática, um dos corredores marítimos mais movimentados do planeta. Os houthis, grupo iemenita apoiado pelo Irã, tomaram a cidade portuária de Mocha, ocuparam a ilha de Mayyun (também chamada de Perim) e assumiram posições ao longo de toda a costa iemenita do Bab al-Mandab, o estreito que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden.1 O avanço, que levou o grupo a menos de 20 quilômetros do continente africano, coincide com o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, ocorrido meses antes durante a guerra entre Teerã, Israel e Estados Unidos.1

O resultado é que dois aliados, um Estado e uma milícia sem reconhecimento internacional, passaram a controlar as duas principais portas de saída do petróleo do Golfo Pérsico e do Oriente Médio. Segundo estimativas de analistas citadas por veículos internacionais, a soma dos dois estrangulamentos coloca sob influência hostil algo próximo de um terço do comércio marítimo global de petróleo.5

Geografia como instrumento de poder

A repórter Vivian Nereim, que cobre os países do Golfo para o The New York Times, resumiu o fenômeno em uma frase que vale como chave de leitura para todo o episódio: a geografia pode ser poder, mesmo para o grupo mais improvável.1 A observação capta algo que a análise de política internacional costuma subestimar: a capacidade de projeção de força não depende só de orçamento militar ou de tecnologia sofisticada. Depende, antes, de onde um ator está posicionado no mapa.

É esse o argumento central do livro que melhor explica o pano de fundo desta crise, escrito pelo jornalista britânico Tim Marshall. Em Prisioneiros da Geografia, ele descreve como rios, montanhas, estreitos e desertos continuam determinando decisões de política externa que, à primeira vista, parecem resultado apenas de ideologia ou de cálculo diplomático. O Bab al-Mandab, junto de Ormuz, é exatamente esse tipo de acidente geográfico que confere poder desproporcional a quem o controla, independentemente do tamanho do seu exército ou do seu PIB.

Estreito de Ormuz Controle: Irã Bab al-Mandab Controle: Houthis Rota do petróleo saudita
Esquema editorial simplificado, sem escala. Os dois estreitos concentram, juntos, parcela relevante do fluxo mundial de petróleo por via marítima.

Quem são os houthis e o que querem

O grupo, oficialmente chamado Ansar Allah, nasceu nos anos 1990 como movimento religioso xiita zaidita no norte do Iêmen e se transformou, ao longo da década de 2010, em força beligerante contra o governo central, então apoiado por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita. A guerra civil resultante deixou o país fragmentado até que a ONU costurou uma trégua frágil em 2022. No ano seguinte, o grupo passou a atacar embarcações no Mar Vermelho sob a justificativa de apoio à causa palestina, iniciando o padrão de disrupção comercial que se intensificou agora.1

Segundo Nereim, os houthis se descrevem como libertadores e líderes legítimos do Iêmen, em contraposição ao governo reconhecido internacionalmente e apoiado pela Arábia Saudita. Além do objetivo territorial, o grupo busca acesso à receita petrolífera iemenita e reparações de guerra sauditas, e escolheu este momento, com Ormuz já sob tensão, para intensificar a ofensiva ao longo da costa.1

“Eles aproveitam cada oportunidade para ampliar sua capacidade, testá-la, a ponto de hoje serem o ator não estatal mais letal de todo o Oriente Médio.” Ex-enviado especial dos Estados Unidos para o Iêmen, em declaração citada pelo The New York Times

Uma imagem que já não corresponde à realidade

Durante anos, a imagem associada ao grupo era a de combatentes em caçambas de picapes disparando fuzis contra o ar do deserto. Essa representação, segundo o jornalista Nicholas Kulish, já não descreve o nível de sofisticação atual das operações houthis, que passaram a incluir mísseis balísticos, drones e, mais recentemente, tentativas de desenvolvimento assistido por inteligência artificial.1

O episódio da inteligência artificial

Em relatório de inteligência sobre ameaças divulgado no início de setembro, a Anthropic, empresa responsável pelo assistente de IA Claude, revelou que uma célula ligada aos houthis, no norte do Iêmen, usou a ferramenta em três projetos distintos: um foguete guiado, um míssil balístico com meta declarada de alcance superior a dois mil quilômetros e uma variante equipada com conceito de planador hipersônico.2

A empresa afirmou não haver evidência de que o grupo tenha produzido uma arma operacional. Um teste de lançamento do foguete guiado fracassou, e os operadores voltaram a recorrer à IA para diagnosticar a falha. Segundo a Anthropic, os salvaguardas do sistema bloquearam boa parte dos pedidos, mas parte deles conseguiu contornar as barreiras porque os usuários fragmentaram as solicitações em sessões separadas, ocultando a finalidade real dos sistemas de orientação que buscavam construir. As contas envolvidas foram banidas e a empresa compartilhou os indícios com parceiros de segurança pública e privada.2

O caso importa menos pelo resultado militar concreto, que permanece limitado, e mais pelo que revela sobre a distância entre a capacidade crescente dos modelos de linguagem e a maturidade ainda incompleta das salvaguardas voltadas a impedir seu uso bélico. É um capítulo novo de um problema antigo: tecnologia de dupla finalidade em mãos de atores não estatais.

O que isso significa para o Brasil

A distância entre o Iêmen e o Brasil é grande, mas o custo dessas disputas atravessa oceanos com facilidade. Quando o Canal de Suez e as rotas de acesso a ele sofrem interrupções, o frete marítimo sobe de forma sistêmica, o que encarece exportações brasileiras de soja e carnes destinadas a mercados europeus e asiáticos, e pressiona também o custo de importações que dependem do mesmo corredor.6 Relatos do setor de comércio exterior já apontavam, ao longo de 2026, aumento no tempo médio de trânsito das cargas e pressão sobre custos operacionais das companhias marítimas por conta da combinação de tensões em Ormuz e no Mar Vermelho.6

Há também o canal mais direto do combustível. Analistas consultados por veículos brasileiros de economia observam que o bloqueio de rotas concorrentes ao redor da Península Arábica tende a se refletir no preço internacional do petróleo, e, por consequência, no custo de vida do consumidor brasileiro, mesmo que o país não dependa diretamente das importações vindas daquela região.7 A cadeia de transmissão é indireta, mas conhecida: petróleo mais caro no mercado global pressiona a paridade de preços da Petrobras e, com defasagem, o valor da gasolina e do diesel nos postos brasileiros.

Contraponto

Nem todos os analistas leem a tomada do Bab al-Mandab como ameaça iminente ao comércio global. Um integrante do politburo houthi declarou publicamente que o grupo não representa perigo à navegação internacional, e que a restrição valeria apenas para embarcações ligadas à Arábia Saudita.4

Especialistas em logística também ponderam que, ao contrário do fechamento total de Ormuz pelo Irã, o controle houthi do Bab al-Mandab tem sido até aqui mais político do que operacional: o grupo already demonstrou capacidade de atacar navios desde 2023, mas prefere, por ora, usar a posição estratégica como moeda de barganha e sinalização de força a Riad, e não como bloqueio efetivo ao fluxo global de mercadorias.

Perguntas frequentes

O que é o Bab al-Mandab e por que ele importa?

É o estreito que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e, na sequência, ao Oceano Índico. Por ali passa parcela relevante do comércio marítimo mundial e do petróleo saudita que chega à Europa e à Ásia pelo Canal de Suez.

Os houthis controlam totalmente o estreito?

Forças houthis ocupam toda a costa iemenita do estreito, incluindo a ilha de Mayyun (Perim), após a retirada de tropas do governo reconhecido internacionalmente. Isso lhes confere posição dominante sobre a passagem, embora o grupo afirme não pretender bloquear a navegação internacional em geral.

Qual a relação entre o Irã e os houthis nesse episódio?

Os houthis são apoiados por Teerã desde a guerra civil iemenita. O avanço sobre o Bab al-Mandab ocorre em paralelo ao fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, o que faz os dois atores controlarem, de forma combinada, as duas principais rotas de saída do petróleo do Golfo Pérsico.

Como a inteligência artificial entrou nesse conflito?

A Anthropic relatou que uma célula ligada aos houthis usou o assistente Claude para tentar desenvolver sistemas de orientação para um foguete, um míssil balístico e uma variante hipersônica, sem produzir, até onde a empresa apurou, uma arma operacional.

Isso afeta o Brasil de alguma forma concreta?

Sim, principalmente por dois canais: o custo do frete marítimo internacional, que sobe quando rotas como o Mar Vermelho ficam instáveis, e o preço internacional do petróleo, que se transmite, com defasagem, aos combustíveis vendidos no país.

Reportagem original: Sam Sifton, “Geography Is Power”, newsletter The Morning, The New York Times, 16 de setembro de 2026. Este artigo usa a reportagem como ponto de partida e inspiração, com apuração e fontes adicionais próprias, sem reprodução ou tradução integral do texto original. Leia a matéria completa em: nytimes.com/2026/09/16/briefing/the-houthis.html
Para aprofundar

Prisioneiros da Geografia, de Tim Marshall

A referência mais direta para entender por que estreitos como o Bab al-Mandab e Ormuz continuam decidindo guerras e economias, muito antes de qualquer cálculo ideológico entrar em cena.

Ver o livro na Amazon →

Este é um link de afiliado. A compra através dele não gera custo adicional para o leitor.

Referências

  1. Sam Sifton, “Geography Is Power”, The Morning, The New York Times, 16 de setembro de 2026. Acessar matéria original
  2. Relatório de Inteligência sobre Ameaças da Anthropic, setembro de 2026.
  3. Al Jazeera, “Red Sea nations watch as Houthis seize Bab al-Mandeb strait”.
  4. Euronews, “Houthis seize key Yemeni island in Bab el-Mandeb, taking control of the strait”.
  5. The Washington Post, “Iran gains leverage with Bab al-Mandab strait under Houthi control”.
  6. InfoMoney, “Crise no Mar Vermelho pode afetar os exportadores brasileiros?”.
  7. ND Mais, “Bloqueio dos Houthis: o mundo está ficando sem rotas para o petróleo, e isso pode chegar ao seu bolso”.
  8. Tim Marshall, Prisioneiros da Geografia: 10 mapas que explicam tudo o que você precisa saber sobre política global.